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Viajar
/ Viajante Gourmet
Por
Isabella Líbero*, de Mendoza
Fotos Nicolas Lovisolo
| Nicolas
Lovisolo |
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Paisagem
na Finca Flichman |
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Vinícolas
argentinas investem em turismo para enófilos e incluem desde
degustação
e hospedagem até a colheita
de uvas feita pelo visitante |
Quem é apaixonado
por vinho certamente já desejou acompanhar todos os detalhes de
sua elaboração. Também já deve ter se imaginado
cercado por preciosas garrafas de antigas safras ou, até, pensado
em como seria bom participar da colheita das uvas. Sonhos que pareciam
impossíveis há algum tempo são, hoje, plenamente
realizáveis.
Nicolas
Lovisolo |
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Barris
de carvalho na Finca Flichman |
A indústria
do turismo mundial desenvolveu um nicho especializado em
atender as expectativas
de quem é louco por vinho, o enoturismo, e esse segmento cresce a
passos largos a cada ano. Segundo cifras da Organização
Mundial de Turismo, 691 milhões de turistas viajaram em 2003. Especialistas
afirmam que, desse total, 10% inserem-se na categoria ecoturismo, que inclui
viagens a vinícolas. A região do Napa Valley, nos Estados
Unidos, por exemplo, recebe anualmente cerca de 10 milhões de pessoas.
A Itália costuma receber em torno de 4 milhões de enoturistas
por ano. Espanha, França, Austrália, África do Sul,
Chile e Argentina também são destinos procurados quando o
assunto é vinho. Para
conhecer de perto um pouquinho desse fenômeno mundial, escolhemos
a região de Mendoza, principal referência vitivinícola
da Argentina. É lá que é fabricada a maior parte
dos vinhos argentinos que chegam ao Brasil.
| Nicolas
Lovisolo |
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Videiras
secas no inverno |
História
O
início da atividade vinícola em Mendoza se deu com a fundação
da cidade pelos espanhóis, em meados do século 16. Os
vinhedos chegaram para atender às demandas da igreja, que precisava
da bebida para as cerimônias. Dificuldades no transporte
fizeram com que os colonizadores plantassem vinhas em cada novo assentamento,
e foi assim que perceberam que o solo e o clima eram bons para as videiras.
O cultivo começou na região de Cuyo e seguiu para o Norte,
ladeado pela Cordilheira dos Andes.
Nessa época,
o vinho era feito artesanalmente. O processo de elaboração
se resumia a pisar as uvas em bacias de couro de vaca, recolher o caldo
em recipientes e depositá-lo em vasilhas de barro, onde
começava a fermentação que transformaria o suco em
vinho sagrado. As vasilhas eram conservadas em adegas improvisadas
debaixo da terra, e ali ficavam até o momento de a bebida ser consumida.
De lá pra cá,
muita coisa mudou. A produção industrial alcançou
outras zonas do país e, atualmente, a Argentina é o 5º
produtor mundial, com 13 milhões de hectolitros. Seus
vinhedos ocupam mais de 200 mil hectares, sendo que 150 mil deles localizam-se
em Mendoza, divididos pelos municípios da Zona Alta do Rio Mendoza,
da Zona Leste, do Valle de Uco e do Sul Mendocino (confira detalhes das
regiões).
Um dos diferenciais da região é a proximidade da
Cordilheira. As enormes montanhas geladas marcam o clima continental nas
vinícolas, fazendo com que o ar úmido do Pacífico
chegue seco ao continente. A baixa umidade relativa do ar influencia a
qualidade das uvas, assim como a amplitude térmica e a incidência
de sol apropriada. Outro fator primordial é o solo. Quanto mais
árido e arenoso, melhor. O de Mendoza é seco e pedregoso,
o que faz com que as videiras busquem seus nutrientes no fundo da terra.
Como não costuma chover, todas as plantações são
irrigadas por um sistema que distribui a água vinda das geleiras.
Nicolas
Lovisolo |
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Antiga
adega da Finca Flichman |
Turismo
Apesar da beleza natural
e das adegas centenárias, até poucos anos a província
de Mendoza possuía um turismo restrito, quase irrisório. Com
o aprimoramento da atividade vinícola nos anos 90, os vinhos argentinos
ganharam status. Essa valorização atraiu cada vez
mais visitantes e muitas adegas resolveram investir no setor, destinando
recursos para as instalações e promovendo visitas guiadas.
Esse movimento começou há menos de 10 anos com o projeto Caminhos
do Vinho, criado por algumas empresas vitivinícolas parceiras.
Hoje em dia,
cerca de 450mil turistas passam anualmente por lá, sendo que 70%
deles são viajantes argentinos. A grande atração
da “rota do vinho” é o paisagem esplendorosa da Cordilheira
ao lado das extensas plantações. Se no inverno esse cenário
arranca exclamações, imagine no período de colheita,
quando os vinhedos estão carregados e as árvores frutíferas,
repletas! É vista para cineasta nenhum botar defeito.
Cientes do encanto
da beleza local, muitas bodegas passaram a oferecer, além de visitas
guiadas e degustações, refeições, vivências
e hospedagem nas propriedades. Já é possível
realizar o sonho de ajudar a colher uvas maduras para a fabricação
de vinho. Algumas vinícolas dispõem de restaurantes típicos,
onde o viajante pode conhecer um pouco da cultura gastronômica local.
Outra atividade é a cavalgada. Assim, quem visita Mendoza encontra
atrações que vão da calmaria dos vinhedos à
adrenalina de esportes radicais (rafting, trekking e esqui) nas proximidades
da Cordilheira.
Bodegas
Independentemente da variedade de passeios, as adegas ainda são
o principal foco turístico. Há opções desde
grandes estabelecimentos até pequenas bodegas, com produções
limitadas, quase artesanais. Vale a pena conhecer a histórica La
Rural, onde fica o Museu do Vinho. Durante o passeio guiado,
o visitante pode conferir objetos e equipamentos antigos utilizados na
produção da bebida. Se agendada com antecedência,
a visita à Finca Flichman pode incluir degustação
de alguns de seus principais vinhos, como Caballero dela Cepa ou o premiado
Dedicado. Uma das atrações é a antiga adega, com
exemplares do século 19 (quando a propriedade pertencia a uma família
italiana), encontrados escondidos nas paredes de barro, conforme costume
da época.
Na pequena Cavas
Del Conde, o turista tem atendimento personalizado, diretamente
com o enólogo. Outra opção interessante é
a Bodega Artesanal el Cerno, que fez da pequena produção
artesanal e familiar o seu diferencial na conquista dos enoturistas. Na
Família Zuccardi, é possível participar
da colheita, degustar vinhos na cava e almoçar ao ar livre com
menu típico. A abertura das adegas à visitação
inclui ainda a possibilidade de realização de eventos privados
nas galerias, cavas e jardins. Na Séptima, por
exemplo, pode-se alugar os espaços internos para festas fechadas.
No bonito Valle de Uco, a Bodega Salentein oferece alojamento
na pousada e, em breve, disponibilizará um centro cultural, com
galerias de arte, pátio de esculturas, sala de conferências
e restaurante. Entre as adegas bem preparadas para o turismo,
vale destacar ainda: Norton, Chandon, Lurton, Furnier e Chianti, entre
outras.
Passeios
e serviços oferecidos pelas vinícolas de Mendoza |
- Visita tradicional:
vinhedos, adega, centro de visitas, com degustação
(grátis)
- Visita especial:
vinhedos, recepção de uva, adega, centro de visitas,
com degustação dirigida (grátis)
- Visita exclusiva:
passeio pelos vinhedos em carruagem, visita à adega e degustação
de 1 vinho, eleito pelo enólogo, acompanhado de queijos
e frios
- Programas
de colheita: excursão aos vinhedos (com engenheiro agrônomo),
momento de colheita, descanso nos vinhedos, almoço nas
adegas, visita às instalações, degustação
(fevereiro, março e abril). Reserva antecipada
- Programas
de poda: excursão aos vinhedos (com engenheiro agrônomo),
momento de poda, descanso nos vinhedos, almoço nas adegas,
visita às instalações, degustação
(agosto e setembro)
- Cursos de
degustação dirigido por enólogos
- Cursos de
enogastronomia
- Programas
e eventos: degustação anual. Caça ao tesouro,
maratona pelos vinhedos e outros eventos de participação
massiva.
- Cursos ministrados
por profissionais nas imediações das adegas
- Concurso
de cortes: o turista, depois de ter visitado a bodega, pode criar
seu próprio vinho
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| Os
municípios produtores de vinho na província de Mendoza |
| Zona
Alta do Rio Mendoza: seu território estende-se em
grande parte pelas regiões de Maipú e Luján
de Cuyo. As condições agroecológicas são
consideradas perfeitas. É onde estão grande parte
das bodegas. Possui mais de 23 mil hectares de uvas, principalmente
Malbec e Cabernet Sauvignon.
Leste
de Mendoza: nesta região estão os departamentos
de San Martín, Rivadavia, Junín, Santa Rosa, Lavalle,
Guaymallén, Las Heras e La Paz. Sua superfície de
85 mil hectares é a maior destinada ao cultivo de vinhedos
na Argentina. Variedades como Merlot, Malbec, Bonarda, Sangiovese,
Ugni Blanc, Syrah e Tempranillo são irrigadas com a água
dos rios Mendoza e Tunuyán.
Valle
de Uco: com os rios Tunuyán e Tupungato como eixos,
ocupa uma extensa superfície nas localidades de San Carlos,
Tunuyán e Tupungato. Segundo especialistas, é onde
são feitos os melhores vinhos do país, numa extensão
superior a 15 mil hectares. Os vinhedos são cultivados a
alturas que oscilam entre 900 e 1.200 m acima do nível do
mar. As principais variedades tintas são: Malbec, Barbera,
Cabernet Sauvignon e Merlot. Entre as brancas, Torrontés
Riojano, Semillón, Chenin, Sauvignon Blanc e Chardonnay.
Sul
de Mendoza: é aí que estão as localidades
General Alvear e San Rafael. As vinhas encontram-se na área
de menor altitude da região. Irrigada pelas águas
dos rios Atuel e Diamante, produz uvas para vinhos de mesa e vinhos
finos. Ocupa mais de 22 mil hectares e produz variedades tintas,
como Cabernet Sauvignon, Syrah, Malbec e Bonarda. |

* Isabella
Líbero é jornalista e escreve
sobre gastronomia na revista Verdemar, distribuída em Belo Horizonte
Publicado em:
21/09/2005
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O Passaporte do Gourmet |
Guia Gourmet de
Nova York |
Guia Restaurantes do
Rio 2001 |
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