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Viajar / Viajante Gourmet Por Breno Raigorodsky, da Itália*
Pensei: “O que está fazendo nesta carta de vinhos este Moulin-à-Vent (um Beaujolais) com um rótulo de Beaune, denominação controlada, produzido e distribuído por alguém de Beaune? O que faz este vinho Gamay no coração da Côte D’Or da Borgonha, terroir exclusivo dos Pinot Noir mais conhecidos da face da terra?“ Pergunte para o meu marido, é ele quem entende dessas coisas”, respondeu a senhora Françoise. Já estávamos cheios de andar de carro por aquele fim de mundo borgonhês, cercado de igrejas, monastérios e vinhedos por todos os lados. Vínhamos da bela Fontanay à procura do caminho certo que nos levasse a Vezelay, ponto obrigatório dos peregrinos franceses em direção à Compostela, e a fome que já vinha batendo em nossos estômagos há mais de uma hora nos deixava de mau humor, a ponto de tirar a vontade de visitar tanta beleza. É preciso realçar que, quando se está no meio da Borgonha, a comida, por mais simples que seja, quase que exige um bom vinho para acompanhar. Além disso, nosso farnel era pretensioso: tinha sido comprado de passagem, numa charcuterie de uma cidadezinha mínima, famosa por abrigar um verdadeiro castelo de fadas, o Château De La Rochepot, que fica ao lado de Beaune. A dona da casa tinha preparado com suas próprias mãos um jambon persillé (presunto cozido com muita salsinha) e um pâté de campagne imperdíveis, além de nos ter recomendado e vendido um belo pedaço de queijo maduro regional.
Na carta, além de garrafas de Gervrey, Hospice e outros produtores da região, vinhos Pinot, Beaujolais e Rhône, todos em pichet ou seja, servidos em jarra, escolhidos e recomendados por Oscar, o marido de Françoise de que falei no início. Entre
uma garfada e outra... Inquiri, então, sobre o dito Gamay. Apesar de estar cumprindo sua missa gastronômica diária, entre uma garfada e outra, teve o prazer de responder: “Você está certo, na Borgonha, o vinho tinto deve ser obrigatoriamente puro Pinot Noir, que é condição obrigatória, mas não suficiente, para merecer a rigorosa denominação controlada Bourgogne”. Como eu devo ter feito uma cara inteligente, depositou sobre a mesa garfo e faca e continuou didaticamente: “Mas as áreas menos nobres, com potencial agrícola, não recebem Pinot Noir, principalmente quando a experiência prova que nestas áreas a uva é incapaz de produzir as pré-condições para receber sequer a tal apelação genérica da Borgonha”. Ao que arrisquei: “Ou seja, graduação alcoólica, corpo e guarda?” Pelo sorriso que abriu, eu tinha acabado de sair do mundo dos turistas babacas e entrado para o das pessoas que se interessam de fato pela coisa mais linda do mundo: o vinho... “Voilà! Nessas áreas, mesmo no coração da melhor área vinícola do mundo, o produtor é aconselhado a produzir um cantinho de Gamay para fazer um Beaujolais ou, então, misturá-la ao Pinot Noir mais ordinário, aquele que não passou pelo crivo dos jurados por esta ou por aquela razão, e transformar a mistura num Borgonha Passe-tout Grains. Com isso, o produtor pode se safar de perder totalmente a identidade de sua colheita a partir desta especificação genérica, menos nobre, mas nem por isso menos comercial...” E retomou o prato de boca cheia, com um bocado de batata bem regada no molho do peixe, completando: “Atenção, o Moulin-à-Vent da Côte D’Or da Borgonha é um vinho diferente do Moulin-à-Vent produzido abaixo de Mâcon, pois a terra argilosa e calcária daqui é bem diferente e produz um vinho muito mais maturável. Mesmo a Gamay de lá é de um subtipo diferente da que nós usamos aqui...” A coisa se encaminhava para um nível de precisão além da minha capacidade. Mudei de assunto, sem sair da conversa, e arrematei: “E na área das uvas Chardonnay, acontece o mesmo com a Sauvignon Blanc?” Degusta-lição Foi o bastante para deixar cair o garfo e a faca na mesa e gritar para a mulher: “Traga-me já copos e o Chablis que está aberto, o Aligoté, o Pouilly Fumé e o Sancerre”, e a aula, que já estava pra lá de fantástica, transformou-se então em experimentação mais-que-perfeita. O que era para ser uma simples passagem em direção a Vezelay tornou-se uma comemoração... Foi um tal de entender as diferenças, de sentir os sabores de provar deste e daquele... e o Oscar, que já tinha almoçado, não nos deixou pagar sequer um tostão pela degusta-lição. Receita: Jambon persillé (presunto com salsinha)
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