Viajar / Viajante Gourmet

Por Breno Raigorodsky

Breno Raigorodsky
Vinho da Almeida Garret
Ao degustar as novidades da vinícola portuguesa Almeida Garret, apresentadas na Expovinis 2006, nosso colunista aproveita para relembrar suas experiências na região produtora destes vinhos

Pensa-se em cabras e ovelhas com seus queijos quando o assunto é Serra da Estrela. Minhas lembranças são mais variadas. Penso em cabra velha, lua, pedra, kiwi e comunismo. Dia desses, fui a uma degustação de vinhos desta pequena, porém orgulhosa, casa portuguesa localizada ao lado da Serra da Estrela (na Beira Interior) — a Almeida Garret —, que apresentou a nós, na Expovinis 2006 (que aconteceu entre os dias 4 e 6 de maio, em São Paulo), novos produtos, bem frescos.

A Serra da Estrela é um importante centro de turismo invernal, quando a serra fica coberta de neve, mascarando sua topografia lunar, passando perfeitamente pelo que é: uma espécie de corcova tardia dos grandes picos alpinos.

Na quente primavera da Península Ibérica, Serra da Estrela é a paisagem que mais se aproxima daquela imagem que da superfície da lua, cheia de crateras, de uma aridez tão intensa que quase nada nasce, flora ou fauna. Quase nada, a não ser certos insetos de clima desértico, algumas poucas aves de rapina e gente... (Até porque este tipo de vida dá em qualquer lugar.) Sobe-se por uma estradinha que não fica nada a dever se comparada à mais íngreme e tortuosa estrada por onde um carro pode passar. Mesmo na primavera quente de Portugal encontram-se, no cume, porções de neve que fazem prever como deve ser a coisa no inverno, cheia de gente do mundo inteiro, procurando uma boa descida de esqui.

Foi num hotel em Gouveia, capital da região, que conheci aquela frutinha com gosto de tomate doce de nome filipino, o kiwi. Cheguei ao Brasil pronto para contar a novidade, mas ela chegou antes de mim, como pude constatar na primeira feira que fiz ao voltar “das europas” em 1989.

Foi numa cidadezinha de nome Linhares que mais me aproximei da alta Idade Média, pois jamais tinha visto, em excelente estado de conservação, uma cidade tão medieval, toda construída em pedra, com arcos ligando as ruas estreitas a uma altura que apenas homens e mulheres com menos de 1,65 m poderiam conceber. No meio da visita, o som dos sinos das cabras, em coletivo, balindo à porta de uma casa. Da casa, de chofre sai uma pastora, com sua roupa típica, de luto permanente, e a afetividade totalmente voltada para aqueles pequenos e felpudos animais, comandando, com um apito na boca, os ruídos que, contra o vento, são ouvidos à distância.

Numa cidade vizinha, num bar recomendado pelo bedel do hotel de Gouveia, discutíamos o recente ingresso de Portugal no mundo da Unidade Européia e o mal que isto poderia causar aos pequenos produtores de azeite e vinho, visto que – em princípio – aos peninsulares estariam reservadas as indústrias da madeira de reflorestamento, o turismo e a cortiça. Os comunistas locais espumavam de raiva regional, em nome da especificidade cultural do Beira.

A discussão, no entanto, era de pouca monta vis-à-vis a fome que nos atacava, pois a primeira estancou no momento mesmo em que nossos pratos foram servidos. Minha companheira olhava no prato, desolada, o bife de carne bovina... tão passado e encharcado na gordura quanto a batata frita que o acompanhava.

Arrependia-se amargamente de ter escolhido aquele lugar para pedir algo tão exótico, tão fora do comum como bife com batata frita, pois na terra o que se comia de fato eram as batatas cozidas apenas, como acompanhamento das lingüiças e da chanfana de cabra velha, cozida no vinho e em seu próprio sangue. Delicioso quitute para mim e para o amigo que nos acompanhava, ultrajante para a minha mulher que, enojada, nem mesmo suportou o repasto, preferindo fingir que estava sem fome e deixando intocado o principal do seu prato.

Mas o mundo continuou, salvaram-se todos e, saindo do mundo da lua volto a aterrar para afirmar que vinhos produzidos em condições de falta de chuva — como acontece na região da Beira Interior — são produtos de resistência do homem, frutos da mais moderna vinificação.

Pois fez sucesso entre nós, degustadores, o Chardonnay mais simples da casa Almeida Garret, assim como o EntreSerras com DOC Beira Interior — um vinho de alto teor alcoólico, mas que se comporta perfeitamente na boca, apesar da juventude, do processo simples, apenas com estágio de 3 meses com agitação das borras. Mais sucesso do que o Chardonnay de maior pretensão e cuidado, o Almeida Garret, que tem sua fermentação em barricas de carvalho francês. Não que fosse pior: era muito diferente. Não lembrava, sequer, a referência francesa da uva, que para mim continua sendo um componente importante de avaliação, quando a uva tem uma origem conhecida como é o caso desta cepa.

Quanto aos tintos da vinícola portuguesa, o vinho mais interessante é o Colheita Selecionada, um vinho despretensioso, elaborado a partir de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Trincadeira, com 6 meses de estágio em barricas de carvalho, Não é um vinho de mesa jovem, sem guarda. Ao contrário, crescerá com o tempo e estará melhor daqui a 5 anos, sem adstringência, apenas com a acidez de seus taninos mais vivos. É um vinho que não se dobra tão fácil à mesmice do corte bordalês, que infesta os vinhos tanto do Novo quanto do Velho Mundo, mas nem por isso fica esquecido nos métodos antigos de produção.

Na minha mesa, os ilustres provadores que me acompanharam trocaram seus comentários sempre apropriados, trazendo-me, às vezes, à realidade dos vinhos ali apresentados, e dos pratos que com eles harmonizaram. No mais, eu vôo meu vôo de recordações.




* Breno Raigorodsky é filósofo, publicitário e gourmet. Escreve regularmente sobre vinhos e comida.


Publicado em: 25/05/2006


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