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Por Mariana Valentini, especial para o Basilico, de Turim*

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Entrada, Salão do Gosto
Chef brasileira relata sua visita ao Salone del Gusto 2006, evento promovido pelo movimento Slow Food, que aconteceu em Turim,
entre 26 e 30 de outubro

Há alguns meses resolvi dar uma reciclada na minha carreira e pilotar fogões por cerca de 3 meses na Itália. Não com o objetivo de aprender técnicas novas ou algo mirabolante, mas com a intenção de turbinar minha criatividade. Achei ótima a idéia de conviver com pessoas com centenas de anos de cultura gastronômica. Sempre acreditei que aprendendo e conhecendo as raízes e os ingredientes de uma cultura a fundo, ficaria mais fácil "domá-los" e transformá-los.

E por escolha "enogastronômica" própria fui parar em Siena, na Toscana. Completei semana passada um curso de 1 mês de cozinha italiana para profissionais, e um estágio em um restaurante “toscano contemporâneo", se é que isso existe... E por colaboração de Deus, ou do destino, no dia seguinte começava, em Turim, na região do Piemonte, o Salone del Gusto, a conferência que acontece a cada 2 anos do movimento Slow Food, com o qual sempre simpatizei.

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A chef Mariana
Mochila nas costas, peguei um trem e, no fim da tarde, vim parar em Turim. Depois de um banho, um breve estudo do mapa da cidade e uma caminhada, parei em um wine bar e tomei uma taça de vinho, ou melhor, 3. E já que eu estou no Piemonte, que me tragam vinhos do Piemonte! Passei horas me deliciando com meus vinhos, e colocando tudo no meu diário, que tem 3 vezes mais páginas que eu tenho de dias na Itália. Com a programação em mãos do Salone del Gusto (que já está na 6ª edição), planejei meu próximo dia (àquela altura, ainda não sabia que ele seria um dos melhores dias da minha vida). Joguei-me no meu travesseiro e... amém!

No dia seguinte nem precisei seguir as placas no hotel: segui o cheiro de pão fresco e cheguei ao café da manhã. Experimentei absolutamente tudo e ouvi atentamente as instruções do gerente do hotel para chegar a Lingotto, centro de exposições onde aconteceu a feira. E que feira! Depois de 8 anos cozinhando profissionalmente no Brasil, uma faculdade, vários cursos e quase 20 feiras nacionais, estava bem curiosa sobre minha primeira experiência em uma feira internacional. E que pena que eu não posso falar palavrões aqui, pois pensei em um bem grande quando cheguei nela.

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Queijos em exposição

O Salone del Gusto, que este ano aconteceu entre os dias 26 e 30 de outubro, é o evento bienal mais importante do calendário internacional do Slow Food. É uma manifestação internacional dedicada aos produtos enogastronômicos artesanais de qualidade, e contou também com o Terra Madre, encontro mundial das comunidades gastronômicas, organizado com a colaboração do Ministério da Política Agrícola e Florestal, da Cooperativa Italiana para o Desenvolvimento e do Ministério de Negócios Exteriores, da região do Piemonte e da cidade de Turim. Imaginem o tamanho. O mais bacana é que ele se caracteriza pelo encontro direto dos produtores com os consumidores. E o Terra Madre —  cuja 1ª edição aconteceu em 2004 — foi um belo momento de troca de conhecimento entre 1.500 comunidades provenientes de 150 países dos 5 continentes. Foram convidados para a manifestação outros 1.000 cozinheiros e 200 universidades do mundo todo, com o objetivo de proteger a qualidade (inicial e final) da comida, os recursos naturais do planeta, assim como a identidade e dignidade dos pequenos produtores artesanais.

O encontro mundial das comunidades gastronômicas mostrou que, como disse Brillat-Savarin, “a gastronomia é uma ciência multidisciplinar e complexa que, movendo-se pelo prazer do indivíduo, tem implicações na agricultura e nas políticas econômicas, sociais e ambientais”. Da percepção dessa complexidade, nasce uma nova idéia de qualidade alimentar, retratada pelo conceito do Slow Food: "Bom, limpo e justo". "Bom" diz respeito à beleza organoléptica, resultado da competência de quem produz e da boa escolha de matérias-primas e métodos de produção que não alteram sua natureza. "Limpo" refere-se ao respeito do ecossistema pelas práticas agrícolas e zootécnicas de comercialização e de consumo sustentáveis, visando à saúde (a curto, médio e longo prazos) de quem produz e come aquela comida. E o "justo" relaciona-se à justiça social, a condições de trabalho adequadas ao homem e à justa gratificação pelos seus serviços, buscando a prática da solidariedade, além de uma economia global equilibrada e do respeito à diversidade cultural e às tradições. Resumindo: um instrumento para melhorar o atual sistema alimentar, com a contribuição de todos, considerando-se as particularidades de cada um.

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Estande com sais
Ao saber de tudo isso, passei intermináveis 6 horas de sonhos gastronômicos e culturais. Experimentei dezenas de novos sabores e conheci dezenas de produtores que tratam o resultado de seu trabalho como parte importante de sua cultura e sobrevivência. Fiz contatos que quero levar para a vida toda, ao lado do sonho de contribuir para que nosso país forme o conceito e tenha cada vez mais a consciência de tratar a comida e a cultura gastronômica como combustíveis para a nossa sobrevivência. Retornarei daqui a 2 anos, com certeza, para experimentar outras dezenas de sabores que não experimentei e imagino que, a cada visita, amarei cada vez mais minha escolha de cozinhar para viver.

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* Mariana Valentini é chef de cozinha, e trabalhou no Café Journal (SP)

Publicado em: 07/11/2006

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