Viajar/Mochileiro Gourmand

 

Arquivo Pessoal
O viajante Martinho Rocha




O viajante e empresário Martinho
Rocha percorre o caminho
de Santiago e descobre as riquezas gastronômicas da região






Alimentar o corpo e a alma. Assim que o ex-publicitário e empresário Martinho Rocha resolveu "dar um tempo", quis fazer à pé o conhecido caminho de Santiago de Compostela, entre 12 de junho e 13 de julho de 2000. Seu desejo era renovar o espírito, mas não esperava envolver-se com as iguarias espanholas, que alimentaram prazerosamente seu corpo durante o percurso.

 
O percurso francês

Sofisticação foi uma palavra esquecida no caminho, já que "o caráter espiritual da viagem deixa de lado os bens materiais". Essa simplicidade nos hábitos refletiu-se nas refeições, e ele aproveitou para conhecer as peculiaridades das cozinhas de cada cidade pela qual passou. O menu do peregrino, por exemplo, que era servido em pequenos estabelecimentos, era composto de comida típica a um preço acessível: entrada (sopa ou salada), prato principal (frango ou carne de porco), sobremesa e uma jarra de vinho da região. O preço variava de 800 a 1200 pesetas (aproximadamente R$ 12 a R$ 18), pois os frutos do mar, que entram no cardápio dos locais próximos à Galícia, aumenta o valor do menu.

Pão e vinho

Alguns pratos ficaram na memória de Martinho: caldo galego, polvo em sua tinta e arroz con leche —- este, um doce típico espanhol semelhante ao nosso arroz-doce. E ele recomenda: em Santiago, vá a Casa Manolo (r. Travessa, 27), excelente para frutos do mar, com o menu do peregrino em torno de 1000 pesetas (R$ 15)".

Mas seu apetite não ficava voltado apenas ao menu. A rase "com pão e vinho se faz o caminho", uma espécie de "lema" do caminho de Santiago, também faz parte do cotidiano dos que o percorrem. "Muitas vezes levava meu próprio lanche: pão, queijo manchego (espécie de queijo) fresco e presunto serrano. Com o tempo, fui aprimorando: colocava tomates e alecrim, que colhia durante o percurso. Sentava embaixo de uma árvore,de uma ponte medieval e almoçava com tranqüilidade".

 
Caminhos para Santiago

Bebida também não faltou: "Eu me servia de vinho nas bodegas (sinônimo de taverna),comprava uma garrafa d'água, bebia e enchia com o vinho para levar".

Episódios atípicos para Martinho ocorreram na caminhada. Quando estava no vilarejo Olmos de Atapuerca, presenciou a Festa de San Juan. Havia cerca de 30 pessoas que comiam vorazmente as sardinhas feitas na brasa e despejadas numa mesa forrada com jornal. Cada vez que o peixe acabava, mais uma leva era oferecida aos comensais. "Nunca vi tanta sardinha em minha vida", afirma.

Arquivo Pessoal
No monastério em
Villa Franca del Bierzo


A famosa "queimada", no Refúgio do Jato, em Villa Franca del Bierzo, também
encantou Martinho. Parada obrigatória dos peregrinos, o Jato faz uma oração e oferece um caldo encorpado feito com ervas, aguardente e flambado —- por isso o nome "queimada". Jato diz que a pessoa que colocar o dedo na chama e não se queimar é considerada "do bem". Depois, todos bebem um pouco do líquido.

Ainda hoje Martinho fala com água na boca de suas experiências gastronômicas na Espanha, e até assume: "Comprei um vinho da Rioja, que é considerada umas das melhores regiões produtoras de vinho no país, mas ele não tinha o mesmo sabor especial dos que eu bebi em minha viagem."

Publicada em 09/10/01

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