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Especial
/ Dia dos Pais

Por
Beatriz Marques
| Beatriz
Marques |
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| Belarmino
Iglesias e o filho |
Conheça a trajetória de Belarmino Iglesias,
ex-garçom que se tornou dono da prestigiada rede de restaurantes
Rubaiyat, em São Paulo
Um grande empreendedor. É o adjetivo que melhor define o espanhol
Belarmino Fernandez Iglesias, 70, proprietário dos restaurantes
Baby Beef Rubaiyat, A Figueira (ambos em São Paulo) e Cabaña
Las Lilas (em Buenos Aires). Quem não conhece as casas já
percebe o sucesso logo na espera de mesas - mesmo em salão
grandioso como o da Figueira, que acomoda 320
pessoas -, no serviço esmerado e na qualidade-padrão.
Se Iglesias têm admiradores pelo que oferece em suas casas,
imagine a legião formada em todos esses anos em que, pouco a
pouco, trilhou seu caminho de sucesso. Diferentemente de muitos empresários
que abrem grandes restaurantes na capital paulista, Iglesias começou
do zero: nem dinheiro suficiente para seu sustento tinha quando
chegou ao Brasil, em 1951.
Nascido numa pequena
aldeia na Galícia, ao noroeste da
Espanha, e com poucas perspectivas num lugar tão pequeno, o então
jovem Belarmino decidiu tentar a vida na América. Enquanto viajava
no porão de um navio até a chegada ao Porto de Santos, pensava
nas palavras de ordem durante os primeiros anos no país tropical:
trabalhar compulsivamente e economizar sempre.
Em 1954, entrou no
ramo gastronômico: tornou-se cumim (ajudante de garçom) na
churrascaria A Cabana, a melhor de São Paulo na época, que
pertencia aos pais de Massimo e Venanzio Ferrari (conhecidos proprietários
do estrelado restaurante Massimo, SP).
Foi um aprendizado
e tanto: tornou-se rapidamente maître, e o talento com que cuidava
dos clientes foi decisivo para receber o convite de 2 ex-sócios
do A Cabana para ser maître-gerente num novo restaurante, na avenida
Vieira de Carvalho: o Rubaiyat. Além do cargo, Belarmino também
pediu 10% de sociedade. Foi o primeiro grande passo para construir a rede
Rubaiyat. Tanto que, em 1962, já era o único proprietário
da casa que rendeu frutos até 1998 - e abriu, na década
de 70, as filiais paulistanas da alameda Santos e da avenida Faria Lima.
A partir daí,
o sucesso não deixou de acompanhá-lo. Atualmente, o Rubaiyat
é famoso pelo cardápio com carnes originárias de
sua fazenda, em Dourados (MS), pelo bufê típico do Mediterrâneo
e pela tradicional feijoada - uma das preferidas dos paulistanos.
E, de algum tempo pra cá, firmou-se como um dos raros restaurantes
a apresentar uma carta de vinhos extensa - uma das mais recheadas
de São Paulo - com preços bem mais baixos do que os
encontrados nos concorrentes.
Conquistador nato,
Belarmino ainda abriu em Buenos Aires a churrascaria Cabaña Las
Lilas - considerada a melhor do país (quem diria!). Recentemente,
também resolveu ampliar seus negócios no Brasil, mas sem
ter as carnes como a estrela principal: um novo estilo surgiu, em 2001,
com A Figueira, em sociedade com Carmo e Jovelino Mineiro, que recebeu
investimento de aproximadamente R$ 6 milhões.
O local escolhido,
onde funcionou a loja Cleusa Presentes, na badalada rua Haddock Lobo,
ganhou também em charme: uma enorme figueira de 80 anos surge imperiosa
por entre as mesas (daí o nome). Iglesias aproveitou o
máximo da beleza natural e montou um salão agradabilíssimo,
com charme e requinte. Voltando à cozinha, Belarmino fez da comida
do A Figueira uma das vedetes da gastronomia paulistana,
o que chamou a atenção da mídia especializada: enormes
fornos de barro, que atingem altas temperaturas, conduzem o preparo da
maioria dos pratos, de influências francesa, sul-americana e espanhola,
criados pelo argentino Francis Mallmann (proprietário de 3 restaurantes
em seu país natal).
E Belarmino não
pára. Ele quer que A Figueira ofereça a melhor da cozinha
variada de São Paulo e, no começo de 2004, vai abrir outro
restaurante na rua Leopoldo Couto de Magalhães (Itaim Bibi, zona
sul da cidade). "Com tendências da cozinha mediterrânea,
diferente da A Figueira e do Rubaiyat", afirma.
Conheça mais
a vida deste conquistador na entrevista que ele concedeu ao Basilico:
Basilico O atendimento ao cliente é uma de suas maiores
preocupações, não?
Belarmino Iglesias É verdade. Nós temos
até nosso manual de treinamento de funcionários, que conta
com 10 mandamentos: o primeiro deles é o atendimento ao cliente.
Eles devem ser tratados com o maior carinho, e nós nunca podemos
estar de mau humor.
Basilico
O senhor afirmou que "faz a formação" de seu funcionário.
O senhor aceita profissionais recém-formados em faculdades e universidades
de gastronomia?
Iglesias Se eles vierem de bons cursos, nós
os contratamos. Mas são poucos os meus funcionários que
são formados em escolas. Somos nossa própria escola. De
12 candidatos, só 3 passam. Já tivemos até psicóloga
para ajudar na seleção e treinamento.
Basilico
Qual é a diferença entre os seus funcionários e os
de outros restaurantes?
Iglesias Nunca sugerimos nada ao cliente. Não
queremos desviá-lo de seu desejo. Nós o deixamos à
vontade para escolher seu prato e só indicamos algo quando solicitados.
Quando o cliente levanta a mão, imediatamente é atendido,
não importa se o garçom que foi chamado é de outra
praça (área do salão). Outro aspecto é a juventude:
procuro jovens para se acostumarem com a casa e fazerem carreira aqui
dentro.
Basilico
Então o senhor nunca contratou garçons vindos de outra grande
casa?
Iglesias - A única exceção foi Giancarlo
Bolla (restaurateur do La Tambouille, entre outros), que trabalhou comigo
no Rubaiyat da Vieira de Carvalho. Depois, nunca mais contratei ninguém.
Basilico
Teve algum fato pitoresco em sua carreira?
Iglesias Quando era garçom na Cabana, me choquei
com garçom e acabei derrubando todos os pratos, em plena casa lotada.
Depois que o restaurante fechou, um dos donos veio me perguntar o que
tinha acontecido. Resolvi mostrar como foi, e acabei derrubando tudo de
novo.
Basilico
Como começou a idéia de vender vinhos a baixos preços?
Iglesias Com o período Collor, as pessoas não
estavam consumindo muito. Resolvemos oferecer de graça uma garrafa
de vinho espanhol por mesa. Os que não bebiam no restaurante podiam
levá-la para casa. A promoção durou
2 anos, e nesse período, oferecemos 60 mil garrafas! Quando acabou,
decidimos vender os vinhos a preço de custo. Atualmente, vendo
vinhos da Mistral pelo mesmo preço da importadora e, aos outros,
são acrescentados somente R$ 15.
Basilico
Quanto o senhor chega a lucrar com os vinhos?
Iglesias Não tenho o valor exato comigo, mas
posso lhe dizer que ganho muito mais do que com refrigerantes, sucos e
água.
Basilico
Já que é algo lucrativo, por que os restaurantes não
fazem isso?
Iglesias Porque eles não têm o mesmo giro
que temos. Por mês, cerca de 15 mil clientes bebem vinhos nos meus
restaurantes, ou seja, vendemos cerca de 7 mil garrafas.
Basilico
Qual a diferença principal entre o Rubaiyat e o Cabaña Las
Lilas?
Iglesias A Cabaña é 100% churrascaria,
com cortes típicos argentinos.
Basilico
Como surgiu a idéia de ter uma fazenda de gado para suprir o restaurante?
Iglesias Quando trabalhava no A Cabana, o pessoal reclamava
que a carne não tinha padrão de qualidade. Então
fui para a Argentina conhecer as carnes, e eram melhores que as brasileiras
- isso, há 40 anos. Quando me tornei sócio, percebi
que, se quiséssemos uma boa carne, teríamos que ter o boi.
Daí, surgiu a idéia de comprar uma fazenda, em 1968. Com
isso, conseguimos ter um altíssimo controle de qualidade.
Basilico
Por que vocês não fizeram da A Figueira um restaurante no
mesmo estilo do Rubaiyat?
Iglesias Primeiro, surgiu a dúvida se deveríamos
ou não expandir. Queria algo diferente nos Jardins e a oportunidade
do espaço da Cleusa Presentes apareceu. Na época, pensei
em abrir uma churrascaria, mas a concorrência na rua era altíssima
(Esplanada Grill e Rodeio). Então, como conhecia o chef Francis
Mallmann, perguntei a ele se um restaurante do mesmo estilo que o dele
na Argentina, mas maior, daria certo no Brasil. Ele topou a idéia
e, depois de pesquisarmos em vários países, vimos que os
fornos espanhóis eram os melhores e decidimos trabalhar com a cozinha
variada. Hoje, a pedidos de clientes, introduzimos algumas carnes no cardápio,
mas a característica dos fornos ainda continua. Minha intenção
é que A Figueira seja eleito o melhor restaurante de cozinha variada.
Basilico
O Rubaiyat introduziu novos cortes de carne no hábito alimentar
do brasileiro. Quais são?
Iglesias No Rubaiyat da Vieira colocamos o baby beef
de alcatra, em 1965. Outros foram o master clássico (contra filé
com osso e gordura) e a bisteca premium (sem gordura). Um corte
que trouxemos da Argentina foi o asado de tira e o nosso recente
lançamento é a picanha summus.
Basilico
Já há algum novo projeto de restaurante?
Iglesias Em 2003 vamos abrir um restaurante ibérico
no Itaim Bibi (bairro da zona sul de São Paulo).
Basilico
E nunca pensaram em abrir um restaurante em outra capital brasileira?
Iglesias Estamos com projetos para levar o Rubaiyat
ao Rio e Salvador, mas não são prioridade. Abrir em São
Paulo é mais fácil de manter o controle.
Basilico
Se pudesse escolher qualquer prato, qual serviria em seu restaurante?
Iglesias Tenho 4: percebes, angulas, centolas e a lagosta
Bogavante, que tem uma espécie de chifres.
Basilico
O que precisa melhorar na gastronomia de São Paulo?
Iglesias A mão-de-obra, pois partimos de uma mal
preparada, e importação de produtos.
Basilico
O senhor possui uma escola de hotelaria na Espanha, na cidade em que nasceu.
Tem vontade de abrir uma no Brasil?
Iglesias A minha escola tem o apoio do Ministério
da Educação espanhol e formo 50 alunos a cada 2 anos, que
já saem empregados. Penso, sim, em abrir uma escola para funcionários
e ajudar crianças de creches, que terão aulas de cozinha
e serviço. É um plano para 2003.
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