Por Breno Raigorodsky

Divulgação
Barolo da Expand
Os preços ficam atraentes, mas veja também os perigos que se corre na hora de encarar as ofertas de vinhos, típicas desta época do ano

Em época de ofertas dos negociantes e em véspera de liquidações de vinho, penso que não há nenhum mistério nos preços apresentados. Eles são regidos pelos ditames do ciclo da distribuição, onde oferta e procura mandam, depois de ter tido um preço pré-estabelecido pela indústria a partir de seu valor real e pela taxa de lucro historicamente possível de se aplicar.

Assim, um Vega Sicilia, um Barca Velha, um Pio Cesare, despejam em cada garrafa que vendem o custo da uva, do processo de vinificação, dos barris de madeira de primeiro uso, do pessoal especializado, da pesquisa, da guarda por anos e anos daquela garrafa em condições ideais etc. etc. Então é óbvio que um vinho custa para ser produzido mais do que outro se as suas variáveis são mais ou menos custosas.

Quando recebi o folheto anunciando as cestas de Natal da Expand, a primeira que chegou até mim, veio em flashback, as imagens atropelando umas às outras, as liquidações 50% Off dos dois/três últimos anos, que aconteceram na importadoras e nas lojas de bebidas. Até então, as importadoras mais sisudas como a Mistral jamais tinham ousado fazer uma coisa assim, tão varejão, tão Lojas Cem!

Esclareço, sou rato de liquidação de vinho. Esta modalidade de venda mexe com os meus sentimentos mais atávicos. Pois é, numa dessas, quando a Maison du Vin já estava pensando em cerrar suas portas, consegui uma galinha morta dessas incríveis - Barolo Vigneto Briccolina (Batasiolo) por R$ 45! Foi pensando assim que me apresentei ao empório Santa Maria 3 anos atrás, num janeiro cheio de esperanças por bons trabalhos e vinhos, e arrematei um lote de Rivolo Biondi Santi, um dos melhores vinhos brancos que já tomei em minha vida. Pois bem, o lote inteiro foi para o forno e fogão, pois praticamente nenhuma garrafa prestou.

No fundo, no fundo, está tudo bem, porque dependendo de quem você compra, se o vinho não estiver bom a loja há de devolver o dinheiro. Bem coisa nenhuma, o máximo que se consegue é o dinheiro de volta, jamais o pagamento de perdas morais e de expectativa. Como me ocorreu com outro lote, o de Château de Dracy Chardonnay de Bourgogne, que comprei dos anos 2001, 1997, 1996 na bacia das almas, de uma distribuidora que havia arrematado um lote da importadora. O 2001 tomei com um amigo no Bassi. Beleza pura. O primeiro dos 1997, abri em casa com amigos, excelente. Decidi então comprar todas as meias-garrafas restantes a um preço 2 vezes menor do que custava no começo da liquidação. Resultado: nenhum dos 1996 se sustentou, foram todos direto para a cozinha, viraram tempero para moules marinières.

Evidentemente, e o comprador sabe tanto quanto o importador, vinho branco tem duração curta, principalmente se não tiver passado em madeira. E, não por acaso, são principalmente esses que entram nas liquidações de 50% Off, pois são eles que os restaurantes e intermediários já não compram mais. Por outro lado, um vinho de primeira linha - como o meu Corda de la Briccolina - não perde valor de mercado só porque está velho, ao contrário, torna-se ainda mais desejado. No extremo, um premier cru de Bordeaux 1982 - ano reverenciado pelos entendidos - está com o seu preço ainda em alta, superando em muito a barreira dos US$ 1.000.
 
Não é o que está acontecendo, neste momento, com os vinhos de pouca guarda, particularmente os de menos de 5 anos de prateleira. Vinhos do Novo Mundo, vinhos da Itália do Norte, vinhos do dia a dia e menos estrutura, perdem o brilho mais rápido. É temerário comprar um Frascati 1999, por exemplo, a não ser que seja de vinificação diferenciada e custe normalmente acima de R$ 30. O mesmo se pode dizer para os vinhos verdes portugueses de baixíssimo teor alcoólico, apesar de que algumas vezes vinhos de muita acidez surpreendem, como é o caso de um espanhol branco campeão de vendas, um Barbadillo de 11,5%, que foi bem até 7 anos depois do engarrafamento.

Esta reflexão é feita por centenas de pessoas, intermediários, donos de restaurante, bons compradores. Por isso eles sabem o quanto é importante chegar no começo da liquidação, quando os Amarones, os Borgonhas, os Prioratos e mesmo os grandes vinhos brancos ainda estão à disposição.

Portanto, se você for às compras a preços pequenos, amarre os tênis desde já. Não bobeie deixando para comprar só depois de alguns dias.




* Breno Raigorodsky é filósofo, publicitário e gourmet. Escreve regularmente sobre vinhos e comida.


Publicado em: 15/12/2006


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