Em época de ofertas dos negociantes e em véspera de liquidações de vinho, penso que não há nenhum mistério nos preços apresentados. Eles são regidos pelos ditames do ciclo da distribuição, onde oferta e procura mandam, depois de ter tido um preço pré-estabelecido pela indústria a partir de seu valor real e pela taxa de lucro historicamente possível de se aplicar.
Assim, um Vega
Sicilia, um Barca Velha, um Pio Cesare, despejam em cada
garrafa que vendem o custo da uva, do processo de vinificação,
dos barris de madeira de primeiro uso, do pessoal especializado,
da pesquisa, da guarda por anos e anos daquela garrafa em condições
ideais etc. etc. Então é óbvio que um
vinho custa para ser produzido mais do que outro se as
suas variáveis são mais ou menos custosas.
Quando recebi o folheto anunciando as cestas de Natal da Expand,
a primeira que chegou até mim, veio em flashback, as
imagens atropelando umas às outras, as liquidações
50% Off dos dois/três últimos anos, que aconteceram
na importadoras e nas lojas de bebidas. Até então,
as importadoras mais sisudas como a Mistral jamais tinham ousado
fazer uma coisa assim, tão varejão, tão Lojas
Cem!
Esclareço,
sou rato de liquidação de vinho.
Esta modalidade de venda mexe com os meus sentimentos mais atávicos.
Pois é, numa dessas, quando a Maison du Vin já estava
pensando em cerrar suas portas, consegui uma galinha morta dessas
incríveis - Barolo Vigneto Briccolina (Batasiolo) por R$
45! Foi pensando assim que me apresentei ao empório Santa
Maria 3 anos atrás, num janeiro cheio de esperanças
por bons trabalhos e vinhos, e arrematei um lote de Rivolo
Biondi Santi, um dos melhores vinhos brancos que já tomei
em minha vida. Pois bem, o lote inteiro foi para o forno
e fogão, pois praticamente nenhuma garrafa prestou.
No fundo, no
fundo, está tudo bem, porque dependendo de quem você
compra, se o vinho não estiver bom a loja há de devolver
o dinheiro. Bem coisa nenhuma, o máximo que se consegue é
o dinheiro de volta, jamais o pagamento de perdas morais e de expectativa.
Como me ocorreu com outro lote, o de Château de Dracy Chardonnay
de Bourgogne, que comprei dos anos 2001, 1997, 1996 na bacia das
almas, de uma distribuidora que havia arrematado um lote da importadora.
O 2001 tomei com um amigo no Bassi. Beleza pura. O primeiro dos
1997, abri em casa com amigos, excelente. Decidi então comprar
todas as meias-garrafas restantes a um preço 2 vezes menor
do que custava no começo da liquidação.
Resultado: nenhum dos 1996 se sustentou, foram
todos direto para a cozinha, viraram tempero para moules marinières.
Evidentemente, e o comprador sabe tanto quanto o importador, vinho
branco tem duração curta, principalmente se não
tiver passado em madeira. E, não por acaso, são
principalmente esses que entram nas liquidações de
50% Off, pois são eles que os restaurantes e intermediários
já não compram mais. Por outro lado, um vinho
de primeira linha - como o meu Corda de la Briccolina - não
perde valor de mercado só porque está velho, ao
contrário, torna-se ainda mais desejado. No extremo,
um premier cru de Bordeaux 1982 - ano reverenciado
pelos entendidos - está com o seu preço ainda em alta,
superando em muito a barreira dos US$ 1.000.
Não é o que está acontecendo, neste momento,
com os vinhos de pouca guarda, particularmente os de menos de 5
anos de prateleira. Vinhos do Novo Mundo, vinhos da Itália
do Norte, vinhos do dia a dia e menos estrutura, perdem o brilho
mais rápido. É temerário comprar um
Frascati 1999, por exemplo, a não ser que seja de
vinificação diferenciada e custe normalmente acima
de R$ 30. O mesmo se pode dizer para os vinhos verdes portugueses
de baixíssimo teor alcoólico, apesar
de que algumas vezes vinhos de muita acidez surpreendem, como é
o caso de um espanhol branco campeão de vendas, um Barbadillo
de 11,5%, que foi bem até 7 anos depois do engarrafamento.
Esta reflexão
é feita por centenas de pessoas, intermediários, donos
de restaurante, bons compradores. Por isso eles sabem o
quanto é importante chegar no começo da liquidação,
quando os Amarones, os Borgonhas, os Prioratos e mesmo os grandes
vinhos brancos ainda estão à disposição.
Portanto, se
você for às compras a preços pequenos, amarre
os tênis desde já. Não bobeie deixando
para comprar só depois de alguns dias.
* Breno Raigorodsky é filósofo, publicitário
e gourmet. Escreve regularmente sobre vinhos e comida.
Publicado em: 15/12/2006
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