Cultura e Arte / Na Web com Nina

Por Nina Horta

Divulgação
Nina visita restaurante de São Paulo,
em companhia do crítico Josimar Melo, e comenta a busca do paladar entre comidas etéreas e salão chique

Josimar, você de vez em quando me inclui numa ida a restaurante para checar as novas comidinhas. Vou de amiga provadeira e sei que fica, assim, meio desapontado e querendo esconder a cara do mundo quando peço um refrigerante em vez do vinho, ou sujo o peito da blusa de ossobuco, ou quando o garçom entrega numa salva o oitavo guardanapo que teima em escorregar para o chão. São coisas de mulher distraída, e não de mulher velha, te asseguro, vem acontecendo nos últimos 50 anos.

Vou ter que pedir desculpas pelo jantar de ontem. O nome do lugar já era complicado, ficamos pensando num apelido quando o restaurante pegasse. Era escolher talvez as primeiras sílabas, ou esquecer de tudo e inventar um nome novo, como "Nhonhô".

E você sabe que insegurança, um pouquinho de medo, despertam na gente o riso malicioso, a maldade? Pois despertam. E aquela entrada toda pomposa, o sussurrar dos garçons, o lugar vazio, você percebeu bem, um lugar vazio traz fantasmas para todos, do convidado ao dono do restaurante (principalmente ao dono).

E você é uma figura conhecida e já conjura aflições e expectativas aos maîtres e a todo o resto... ficam todos borboleteando à volta por mais que se disfarce e não diga nome, só falta um bigodão e peruca loura, que eu sugiro.

Excesso de bom
Vamos, então, ao menu. Começou com aquela sopinha etérea, gostosa, dentro de uma louça cobiçável, um objeto de desejo. E a entrada que trazia ingredientes jamais vistos e fusionados, fusion, fusion, Adrià, oi, Adrià, não basta eu não saber escrever seu nome, e ainda me persegue pelos seus pastiches batidos em liquidificadores e outras máquinas modernas?? Por que tenho que tomar sopa gelada e sorvete quente? Ainda te pego um dia, malandro!

E depois, acho que se pode sofrer do erro de excesso de bom. Em inglês se diz "too much of a good thing". Num cardápio, se tudo for completamente diferente, as misturas nada usuais, o prato diferente a cada vez, o cheiro das flores maravilhosas,
o zelo dos garçons, a sabedoria ímpar do sommelier, você começa a sofrer de excesso de informações e procurar um porto seguro, ou um oásis onde aportar seu paladar.

Como se, no Jardim do Éden, fosse preciso um banco de madeira dura para sentar e fechar os olhos, e deixar que tanta gostosura e prazer se encaixem com calma em seus devidos lugares. E se neste paraíso passasse um pipoqueiro, você talvez recuperasse o equilíbrio com um bom saco de pipocas branquinhas, estouradas na hora.

Cabrito e pizza
E que coragem tem o dono de inventar um restaurante sibarítico e tão caro no meio de nossa pobreza. Um lugar tão chique que nem ele se sente à vontade, pisa mansinho, com lábios se mexendo em formato de reza, porque se quebra 2 pratos daqueles por dia, foi-se o lucro.

Não estou falando de pobreza do Brasil, nem desta estou falando, mas da pobreza de nós todos, que andamos querendo o cabrito assado da cantina, a pizza dos domingos, o bifão da churrascaria, num retorno ao que conhecemos com maior intimidade. Quando me perguntam qual a tendência da comida no momento, respondo sem pestanejar: barata.

Mas o que quero dizer é que pode ficar sossegado. Vou me comportar melhor das outras vezes, o ossobuco ficará no prato, provarei dos vinhos que escolher e não dou uma risada, serei a companhia mais triste que já teve nestes jantares de trabalho, talvez até perceba, sem dificuldade, uma furtiva lágrima. Obrigada pelo jantar de ontem. No final, foi bom, talvez bom demais, é isso.

Beijo da Nina

Publicado em: 14/08/02  

Nina Horta é cronista gastronômica do jornal “Folha de S. Paulo”, autora do livro “Não é Sopa” e sócia-proprietária do bufê Ginger.
e-mail:
nina@basilico.com.br

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