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Cultura
e Arte / Na Web com Nina
Por Nina Horta
Josimar, você de vez em quando me inclui numa ida a restaurante para checar as novas comidinhas. Vou de amiga provadeira e sei que fica, assim, meio desapontado e querendo esconder a cara do mundo quando peço um refrigerante em vez do vinho, ou sujo o peito da blusa de ossobuco, ou quando o garçom entrega numa salva o oitavo guardanapo que teima em escorregar para o chão. São coisas de mulher distraída, e não de mulher velha, te asseguro, vem acontecendo nos últimos 50 anos. Vou ter que pedir desculpas pelo jantar de ontem. O nome do lugar já era complicado, ficamos pensando num apelido quando o restaurante pegasse. Era escolher talvez as primeiras sílabas, ou esquecer de tudo e inventar um nome novo, como "Nhonhô". E você sabe
que insegurança, um pouquinho de medo, despertam na gente o riso
malicioso, a maldade? Pois despertam. E aquela entrada toda pomposa,
o sussurrar dos garçons, o lugar vazio, você percebeu
bem, um lugar vazio traz fantasmas para todos, do convidado ao dono do
restaurante (principalmente ao dono). Excesso
de bom E depois, acho que
se pode sofrer do erro de excesso de bom. Em inglês se diz "too
much of a good thing". Num cardápio, se tudo for completamente
diferente, as misturas nada usuais, o prato diferente a cada vez, o cheiro
das flores maravilhosas, Como se, no Jardim do Éden, fosse preciso um banco de madeira dura para sentar e fechar os olhos, e deixar que tanta gostosura e prazer se encaixem com calma em seus devidos lugares. E se neste paraíso passasse um pipoqueiro, você talvez recuperasse o equilíbrio com um bom saco de pipocas branquinhas, estouradas na hora. Cabrito
e pizza Não estou falando de pobreza do Brasil, nem desta estou falando, mas da pobreza de nós todos, que andamos querendo o cabrito assado da cantina, a pizza dos domingos, o bifão da churrascaria, num retorno ao que conhecemos com maior intimidade. Quando me perguntam qual a tendência da comida no momento, respondo sem pestanejar: barata. Mas o que quero dizer é que pode ficar sossegado. Vou me comportar melhor das outras vezes, o ossobuco ficará no prato, provarei dos vinhos que escolher e não dou uma risada, serei a companhia mais triste que já teve nestes jantares de trabalho, talvez até perceba, sem dificuldade, uma furtiva lágrima. Obrigada pelo jantar de ontem. No final, foi bom, talvez bom demais, é isso. Beijo da Nina
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