Cultura e Arte / Na Web com Nina

Por Nina Horta

Divulgação
Nina Horta vira repórter por
um dia nos desfiles da São Paulo Fashion Week e costura
gastronomia e moda em entrevista com modelo e jornalista

Estamos no mês da feira de Moda, da Fashion Week, e uma televisão, querendo sair da mesmice, convidou alguém, a cada dia de desfile, que não tivesse nada a ver com moda, para observar passarelas e modelos e extrair dali alguma coisa que os olhos deformados pela profissão já não enxergassem mais. E fizeram um convite para mim, a cozinheira.

Foi interessante. O lugar dos desfiles, antigamente esnobe, parece, agora, uma estação ferroviária em dia de muito movimento. Virou coisa de massa, o que deveria ser, todo tempo, a intenção dos estilistas e seus marketeiros. Não há mais lugar para o pequeno e diferenciado, queremos vender para todos, senão desapareceremos num piscar de olhos e o pior é que ninguém vai ter saudade ou perceber a falta.

Lá fui eu, repórter por um dia. Depois do desfile conversamos com a modelo mais requisitada do momento. É bonita, traços bem brasileiros, e magrinha, com certeza.

Repórter por um dia - Você está cansada de saber de toda esta polêmica que vai por trás do aspecto físico das modelos. É muito sacrifício não comer?

Modelo com olhos longe, transcendentais - Não, nós nos acostumamos. Hoje tomei 1 colher de mel de abelha de manhã, e mais tarde uma banana. Mas poderia ter passado sem eles. Nós nos desacostumamos com a comida. Passa a ser um item nada importante na nossa vida.

Repórter, com dó da menina - Você já ouviu falar numa dieta, a do dr. Atkins, que faz emagrecer 6 quilos em 14 dias, comendo só proteínas, carnes, gorduras, lingüiças, bifes suculentos, muita maionese?

Modelo asceta estatelando os olhos - Cumequié? Como, o quê, onde, me arranja este regime, rápido, como é seu nome, qual seu telefone?

O pano fecha-se rapidamente.

As modelos têm fome e muita. As do Pará se lembraram da maniçoba, do açaí, as mineiras, do tutu e pão de queijo, com evidente saudade e boca cheia de água.

Continuando a peregrinação pelo lugar, fui entrevistada por outra TV, que descobriu, encantada, que comida também tem moda.

Repórter - Então a senhora não vem aqui para comprar roupa, ou imaginar a roupa que vai comprar?
Nina - Não. Claro que não. Gosto de moda e uma pessoa do meio de cozinha precisa estar por dentro de teatro, cinema, literatura, design, para que vá se formando dentro dela a próxima tendência da cozinha. Na época da minissaia, do top de brilhos, da calcinha decorada com a bandeira britânica, nasceu a nouvelle cuisine, minimalista, criativa, misturando o nunca misturado, fundindo estranhezas, fazendo graça, reinterpretando.

Em épocas de grandes rendas, anáguas, flores, tiaras, a comida se derramava em cremes, queijos, massas de cobertura, verdadeiras esculturas.

Isto não é uma coincidência, é o espírito do tempo mostrando a que vem, mesmo que ajudado por todo o sistema de marketing que a meu ver nada mais faz do que assinar embaixo dos criadores e dar-lhes condições de desenvolvimento.

Repórter - Seria um crime contra a autenticidade da comida das diversas regiões?
Nina - Não, nós é que não percebemos. Este processo vem se fazendo através dos tempos, a culinária e as outras artes absorvendo o novo, inusitado, tentando encaixá-lo, voltando às origens, fundindo, mexendo, trocando, um processo darwiniano, a lei do mais forte, mudar para sobreviver. É o jeito.

Repórter - E de acordo com este desfile que viu, qual será a moda da comida deste ano?
Nina - Não é assim tão fácil, há que se ver as tendências que se repetem em todos. Neste desfile, todos os acessórios eram étnicos, mas sob eles, brilhava uma calça jeans bonita, clássica e muito bem cortada. Quem sabe teremos uma cozinha bem feita, respeitando a técnica, mas apresentada de forma graciosa, aproveitando-se dos exotismos de outras terras ou da nossa própria.

E foi mais ou menos assim o dia da repórter por um dia. Divertido, educativo e proveitoso.

Publicado em: 04/02/02  
Nina Horta é cronista gastronômica do jornal “Folha de S. Paulo”, autora do livro “Não é Sopa” e sócia-proprietária do bufê Ginger.
e-mail:
nina@basilico.com.br

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