Cultura e Arte / Na Web com Nina

Por Nina Horta

Divulgação
Nina Horta dá uma receita e conta a
história do fish'n'chips, prato inglês feito
em cone de jornal, para ilustrar o perigo
de se inventar embalagens novas
para produtos antigos

Algumas coisas não podem mudar de embalagem que perdem a graça. A Pastilha Valda fora da lata em caixa de papelão, que papelão! Já imaginaram o Bis em papel fosco e cinzento? O Sonho de Valsa em papel pardo? Qual seria o gosto? Diferente, com certeza.

Um dos maiores testemunhos desta mudança de gosto através da embalagem é o "fish and chips" inglês, o peixe com batata frita que vem embrulhado num cone.

Ao chegar à Inglaterra, o turista olha com suspeita e surpresa os restaurantes ou botequins de "peixe com fritas". Deles entram e saem filas de pessoas com um cone de papel de jornal com pedaços de peixe frito e batatas também fritas. Não há o que temer. É só parar na porta, escolher entre a variedade de nomes de peixes escritos em giz no quadro-negro e ir andando, sempre de frente para o balcão.

Um funcionário de gorro branco e uniforme recebe o pedido, outro lhe passa o peixe, não sem antes perguntar: "Com sal e vinagre?", que são os temperos típicos. Temperado ou não, lá sai o freguês feliz com seu saquinho de peixe e batatas.

O mais antigo
Durante 3 anos a Federação Nacional de Fritadores de Peixes Ltda fez um esforço à Holmes para descobrir qual das milhares de casas de "fish and chips" era a mais antiga da Grã-Bretanha. Todos os métodos de pesquisa foram acionados e tudo terminou com uma cerimônia, na qual se entregou ao neto do pioneiro, também do ramo, a placa comemorativa da primeira casa de peixe com fritas, fundada em 1860
e funcionando ainda hoje a pleno vapor.

Atualmente, a indústria de peixe com fritas engole diariamente milhares de toneladas de peixe, batatas e óleo, e emprega outros tantos milhares de fritadores e atendentes. Com a vaca louca, então, nem se fale.

Qualquer problema na casa inglesa, como folga da mãe, cozinha pintando ou cano entupido, é resolvido com uma rápida corrida ao mais próximo reduto de fish'n'chips.

O gosto do jornal
Os temperos tradicionais são o sal e o vinagre, e o papel considerado o mais adequado para se fazer o cone é o de jornal. Acontece que em 1968 seu uso foi proibido pelo Ministério da Saúde, mas os especialistas se revoltaram porque o jornal conservava melhor o calor, chupava bem o excesso de vinagre e era bom para limpar os dedos, além de proporcionar leitura deliciosamente imprevisível.

Os restaurantes obedeceram à lei, que remédio, mas deram um jeitinho de driblá-la, embrulhando o peixe, primeiro em papel branco e depois em jornal. Com toda a polêmica em torno do assunto, um membro da Câmara dos Lordes acabou por se pronunciar afirmando que podia distinguir, no peixe, o gosto atrevido de um jornal popular ou o aveludado suave do "The Times", o que tornava o peixe muito mais interessante e gostoso.

É claro que não houve jeito de se voltar ao jornal, somente ao jornal, mas os puristas ainda choram por ele, o que ilustra bem o perigo de se começar a inventar embalagens novas para produtos antigos.

Receita: Fish'n'chips

 

Os Restaurantes de fish`n`chips de Londres

Brady's
Geale's
Nautilus Fish
Rudland and Stubbs
Seafresh Fish
Seashell
Toffs
Two Brother's Fish
Upper St Fish

Nina Horta é cronista gastronômica do jornal “Folha de S. Paulo”, autora do livro “Não é Sopa” e sócia-proprietária do bufê Ginger.
e-mail:
nina@basilico.com.br

Publicado em: 05/10/01 
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