|
|
 |
Cultura
e Arte / Na Web com Nina

Por
Nina Horta
| Divulgação |
 |
|
A
salada que serviu de inspiração do movimento de economia
doméstica
nos EUA da virada do século,
tema de livro recém-lançado naquele
país, atrapalhou a dieta robusta
e honesta do americano |
Não sou americana,
mas conheci a Perfection Salad no Brasil, ainda nos anos 80, pasmem!
A salada perfeita americana é feita de repolho, salsão
e pimentão vermelho cortados bem fininhos, recheando uma gelatina
de limão ou um aspic, dentro de uma fôrma de formatos a escolher.
Foi o paradigma, a inspiração do movimento de economia doméstica
que grassou nos Estados Unidos na virada do século.
As mulheres americanas, cheias de energia reprimida, descobriram a ciência
e as novas tecnologias, e imaginaram que aplicando-as ao lar mudariam
o mundo. Puseram-se a trabalhar e estudar as ciências domésticas
à luz do cientificismo (principalmente a cozinha), usando a mesa
como um manifesto feminino que expressasse eficiência, boa
nutrição, e que fosse bonita, mais certo dizer, "dainty",
bonitinha, chique.
Cozinha mistura-latas
Estas
mulheres no seu açodo de abrir escolas e ensinar as novas regras
atrapalharam muito o caminho da dieta robusta e honesta do americano.
As reformas que empreenderam transformaram as mulheres em consumidoras
dóceis. Como? A ciência doméstica, preocupada
demais com eficiência e limpeza e saúde, matou hábitos
alimentares americanos e deu nobreza a ingredientes enlatados e em
pacotes, a queijos processados, a pães de fôrma brancos e
sem gosto, a gelatinas doces misturadas à comida salgada, aos enfeites
de marshmallow. Esqueceu-se do pão preto rústico, das grandes
e douradas tortas de maçã, venceram os cremes de leite de
caixinha, os falsos queijos. A nova cozinha patrocinada pela industrialização
era um conjunto de "caçarolas", pratos misturados que
iam ao forno, uma cozinha mistura-latas. A ciência doméstica
esquecia tudo que era rude e gostoso para embarcar na comida coberta de
molho branco e cheia a de aditivos coloridos.
Na época, as
escolas de economia doméstica e os patrocinadores delas convenceram
a dona-de-casa que não havia nada de mais perigoso do que comprar
carne no açougueiro, no padeiro, na quitanda, e forçavam
as alunas a enfrentar os produtos empacotados de supermercado, em nome
da facilidade e da ciência. As receitas um pouco mais complicadas
saíram de moda.
Refeições
pink
Havia nas revistas um ideal de mulher de cabelos arrumados,
uma fôrma no forno, esperando o marido de avental, saltos altos
e um uísque na mão. Teria esta mulher tomado corpo na
história da comida americana não fossem as professoras da
virada do século, pesquisando bactérias, inventando
as medidas-padrão, pesando tudo, somando, diminuindo, multiplicando,
fazendo cardápios por tabelas, inventando a salada de cenoura com
passa e maionese? A sopa de cebola com creme de leite de latinha, a pasta
de atum, a gelatina colorida em camadas?
Bom, foi o que aconteceu,
e os reflexos aparecem no Brasil muito tempo depois, é
certo, mas a partir dos anos 40 nossas revistas se encheram deste
tipo de comida, dos excessos de molho branco que tudo tampavam, das mesas
enfeitadas com gracinhas, dos abacaxis espetados com cerejas, das refeições
de uma cor só, especialmente o pink...
Martha Stewart
Numa
pesquisa mais profunda é interessante ver como as receitas revelam
valores culturais, revelam o papel das mulheres, de homens e crianças
dentro de casa e o relacionamento familiar. O que cozinhamos pode ser
um espelho de nossos sonhos e esperanças.
Hoje o nosso sonho,
ou melhor, o sonho americano é representado por Martha
Stewart, a guru americana da mesa e da casa. Ela, mais que as antigas
professoras de arte doméstica, influencia o sonho americano em
TV e revistas. Estudá-la é estudar um naco da vida americana
de hoje e sua domesticidade.
O livro, aplicado
ao Brasil, pode nos trazer belos insights do que comemos e do que
somos, do papel da mulher na sociedade e nos dar uma visão panorâmica
das prioridades culturais que definem o Brasil do século 21.
Obra:
"Perfection Salad"
Autor: Laura Shapiro
Editora: Modern Library
|
Livros
novos a serem encomendados
|
-
"We
Are What we Eat. Ethnic Food and the Making of Americans"
Autor: Donna Gabaccia
Assunto:
como os imigrantes influenciaram os hábitos alimentares
americanos. A comida como arma e símbolo social
e político.
-
"Gavroche
- Le Gavroche Cookbook"
Autor: Michel Roux Jr.
Assunto:
o restaurante inglês e londrino La Gavroche tem
35 anos de excelência e continuidade, sem muitas
mudanças naquilo que faz e nas coisas que acredita.
Mesmo conservador, é um dos melhores do mundo.
200 receitas e fotos belíssimas.
-
"Moro,
the Cookbook"
Autor: Sam e Sam Clark (ed. Ebury Press)
Assunto:
outro restaurante em Londres, dedicado a comida da Espanha
e do Mediterrâneo muçulmano. Os donos são
Sam e Samantha Clark, receitas temperadas, tapas, chouriço
com Jerez, cordeiro cozido com alcachofras, sorvete de
passas de Málaga, e por aí. O restaurante
é considerado um dos melhores de Londres por Jeffrey
Steingarten, o crítico da "Vogue". Boas
fotos.
-
"BANC"
Autor: Receitas de Liam Tomlin (ed. New Holland)
Assunto:
o restaurante é em Sydney, Austrália, fruto
da coragem de
2 empreendedores Stan Sarris e Rodney Adler. Ficou famoso
rapidamente por ser bonito e ter comida inventiva e saborosa.
As receitas são de Liam Tomlin, boas e interessantes,
com fotos. Um livro de mesinha de centro, mas que você
pode levar para a cozinha com a certeza de que vai comer
bem.
|
|
Nina Horta
é cronista gastronômica do jornal “Folha de S. Paulo”, autora
do livro “Não é Sopa” e sócia-proprietária do bufê Ginger.
e-mail: nina@basilico.com.br |
Publicado em:
27/07/01

|
 |
| |
| |
|
| |
| |
Paris by Bistro
|
| |
Zagat 2005/06 Paris
Restaurants |
| |
The Historic Restaurants
of Paris |
| |

Between Two Fires
|
| |
Life à la Henri
|
| |
|