Cultura e Arte / Na Web com Nina

 

Divulgação

Por Nina Horta


Nina Horta comenta "as salas de
restauração", como eram chamados
os restaurantes franceses no século 18,
instiga as mães a largarem as
panelas no seu dia e recomenda
um livro de presente




O que era um restaurante, antigamente?
Um caldo da mais pura essência de carne, um caldo que trazia de volta a saúde ao francês combalido e hipocondríaco. E se não se estava doente, melhor ainda, como era gostosa aquela sopa quente e fumegante tomada às colheradas, devagarzinho...

Os lugares que serviam o consomê, nas mais variadas horas, tomaram o nome de... restaurantes. "Coisa de francês e de parisiense", diziam os estrangeiros, intrigados, sem saber se aquilo era bom ou não. As estalagens e pensões já existiam há muito, mas aquele lugar era diferente, moderno, uma nouvelle cuisine onde se aqueciam os pratos em banho-maria, alta tecnologia (!) e onde a comida se refinava cada vez mais. Todas as suas qualidades rústicas e grosseiras eliminadas. Espiritualizava-se o rango.

Cornucópias na porta
O dono do lugar inventava o menu, punha um preço e o cliente entrava na hora que queria, para comer o que queria, pagar o que às vezes não queria, sentar-se com quem lhe aprazia.

Um espaço privado dentro de um espaço público. Você não era obrigado a conversar com a família do lado, ou os vizinhos de mesa, apesar de estarem tão próximos. E além de tudo era divertido, tinha um componente glamouroso, com suas mulheres bonitas, seus homens bem vestidos, e festas, casamentos pomposos.

A idéia toda era de fartura, de prazer, de excesso. Os almanaques anunciavam os melhores estabelecimentos e sua comidas, ilustrando com cornucópias pintadas na porta cuspindo aves e carnes e tortas mil.

Mães, larguem as panelas!
Havia uma complicação. Os menus. Uma nova linguagem a ser deslindada. "Epigramme d´ agneau?" Um americano jurou que havia morrido de fome na França por não entender o vocabulário manhoso dos cardápios.

É, passou-se o tempo, o restaurante é um lugar comum em nossa vida. Mas, nem tanto assim. Continuam lá com suas qualidades e defeitos de sempre. E uma das qualidades é a fuga da casa, da mesmice, a surpresa possível. A oportunidade de confratenizar, de rir sem ansiedade , de comer gostoso.

Mães de todo o país, uni-vos! Largai por hoje as panelas na cozinha!!!
É dia das mães, é dia de restaurante.

Presentes para as mães que gostam de comida e de ler sobre comida

Por que existem restaurantes? Por que alguém consideraria o comer como uma atividade prazerosa ou mesmo um passatempo sério? Para encontrar respostas para estas perguntas e outras, devemos acompanhar Rebecca Spang até a França do século 18, quando um restaurante não era um lugar onde se comia, mas uma coisa que se comia: um bouillon quase medicinal que se transformou num elemento essencial da nouvelle cuisine da França prerevolucionária.

Salas de restauração
É um livro sobre a revolução do gosto e da mesa francesa, um livro que conta como os parisienses inventaram a moderna cultura da comida, mudando assim sua própria vida social e a do mundo. Durante os 1760 e 1770, aqueles que eram sensíveis e talvez levemente doentes gostavam de mostrar sua delicadeza indo aos novos estabelecimentos conhecidos com "salas de restauração", e ficar calmamente saboreando suas sopinhas. Lá pelos 1790, no entanto, a mesa era vista como um lugar de corrupção decadente ou de solidariedade democrática.

As mesas da revolução eram lugares onde mostrar uma hospitalidade frugal e politicamente correta e um apetite delicado era um sinal de tendências contra-revolucionárias. Os restaurantes, que haviam começado como fornecedores de comida saudável, tornaram-se símbolos de gula aristocrática.

No começo do século 19, no entanto, o novo gênero de literatura gastronômica trabalhava dentro da rigidez do Estado policial de Napoleão, para transformar a noção de restaurantes e para conferir status a ostras e Champagne. Assim se preparava o palco para a chegada dos turistas ingleses e americanos loucos para descobrir os mistérios da francesice nos restaurantes da capital. De restauradores à Restauração, Spang coloca o restaurante como intersecção do público e privado na cultura francesa — o primeiro lugar público onde as pessoas iam para ficar na intimidade, e onde o paladar desempenhou um papel cada vez mais importante e significativo ao criar e validar diferenças sociais e culturais importantes.

Indicações de leitura

 

Nina Horta é cronista gastronômica do jornal “Folha de S. Paulo”, autora do livro “Não é Sopa” e sócia-proprietária do bufê Ginger.
e-mail:
nina@basilico.com.br

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