Cultura e Arte / Na Web com Nina

Divulgação

Por Nina Horta, de Londres


Nina Horta vai a Paris e conta
suas aventuras em um studio,
comenta a cara de fast food
de alguns bistrôs contra o frescor dos
alimentos nas lojas



O endereço salvador

Meu presente para vocês é um endereço salvador para quem não tem muito
tempo. A viagem fica mais sossegada e divertida e você faz em uma semana
o que não faria em um mês. Visita-se Paris inteira, sem percalços, com
alguém que conhece cada centímetro da cidade, é brasileiro, dirige uma
bela van, e pode ir das padarias e lojas de utensílios até os melhores
restaurantes e épiceries. Falem com ele antes da viagem. O preço é
mais acessível do que todos os táxis impossíveis que você tomaria na
cidade.

Antonio Abreu
Telfax. 00xx33/01 45 72 55 81
Cel. 00xx33/06 07 73 11 42
europatours@compuserve.com
http://ourworld.compuserve.com/homepages/europatours

Continuo viajando. Levei susto com Paris que não via há muito tempo. Londres parece não ter tantos turistas e só percebi o que é mesmo a tal de globalização quando dei de cara com centenas de grupos andando na mesma direção com um guia de guarda-chuva vermelho na frente. Que coisa! A gente sabe das coisas mas nem consegue imaginar a realidade. Achei mais interessante ver os turistas observando a Mona Lisa do que a própria Mona Lisa!

Dava para emocionar. No meio de um grupo de japoneses uma senhora já de idade avançada, pernas arqueadas, pés pequenos, óculos, na frente de um Ticiano ou o que valha. E o rosto dela era um estudo de vontade de entender, entregando-se toda, tensa. Era outro mundo, toda uma cultura diferente que ela precisava absorver naqueles 15 minutos antes de passar para as múmias egípcias

Quero ser turista

Em matéria de comida desacorçoei. Não queria e nem podia fazer esta viagem como cronista gastronômica, que nem sou. Queria ser como um daqueles turistas, mas ligadíssima em comida, com o dinheiro que dá para ir a restaurantes razoáveis e um ou outro bom de verdade.

Aluguei um pequeno studio, nos Invalides, com boa cozinha. E andamos a pé. Muito. Turista que anda fica cansado, tem que usar sapatos confortáveis, carregar pouco peso, e de repente a fome bate e você tem que escolher o restaurante mais simpático das redondezas.

E o que há de armadilhas para turistas não tem fim. Cuidado!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Coisas das quais desconfio: a comida está sendo feita fora, em alguma fábrica de mediocridades. Isto explicaria a ruindade de pequenos bistrôs de bairro, antigamente tão decantados por sua comida de mãe ou avó. O creme para o crême brulée, este eu vi chegar em baldes de plástico, e só o acabamento é executado no restaurante. E aquelas pizzas congeladas com molho líquido por cima e aquecidas no micro. Chente…

Que cegueira dos franceses quando se revoltam tanto contra a fast food do macdo!... A fast-food deles está pior, mais cara, nem uma batata-frita decente conseguem fazer. O único jeito de se livrarem da comida do concorrente é fazerem
eles próprios uma coisa mais gostosinha e barata.

Todo mundo sabe que comida muito boa é cara. E aquelas hordas famintas querendo comer depressa para ver o próximo castelo não ajudam em nada. Quase impossível, mesmo.

Acontece que a nouvelle cuisine trouxe uma reviravolta, uma nova consciência, fez um esforço para voltarmos a gostar da comida básica, do bom ingrediente. O que vejo aqui em matéria de frescor, de variedade, é incrível. O cara que vende é um entendido e orgulhoso do que vende, o que compra também sabe das coisas…

E com todas estas possibilidades de se comprar o melhor foie gras, a melhor baguete e pão de nozes, o sal de guérande, o frango de Bresse, o que é que o sujeito vai fazer no restaurante de 200 dólares por cabeça? Passa lá uma vez por ano para ver como vão as coisas e ponto.

Pintando e bordando na cozinha

Estou pintando e bordando na pequena cozinha do studio. Um dia um risoto rápido
com uma mistura de cogumelos que jamais havia visto antes. E um foie gras e um Sauternes pelo preço de um sanduíche de baguette que se come nas calçadas de St Germain. E salsichões maravilhosos, terrines prontas fresquíssimas. (Francês adora terrine. Chegam no Bon Marché, a épicerie do bairro onde estou, de manhã, e são comidas até a hora do almoço.) Carnes maravilhosas com todos os cortes possíveis, e miúdos, e chás do mundo todo, ora, sim senhor, vale a pena.

E estou entendendo estes pobres franceses ricos. Se morasse em Paris e não pudesse andar na minha própria terra, tropeçando em gente de mochila, não pudesse jantar no restaurante da esquina que só falta implodir de tensão étnica com um australiano, um chinês e um brasileiro na mesma mesa… não sei não.

Ódio aos turistas

E o que acontece, então, é que estão odiando os turistas indiscriminadamente, odeiam trabalhar para o turista, odeiam dar mais aquela informação, a 10º do dia, para aquele troglodita que fala outra língua, pisa na cidade inteira, toma o lugar do seu cachorro… Estou dizendo, há qualquer coisa errada que não estamos sabendo administrar…

Coisas boas: É a época das nozes e dos figos e das ameixas. Os primeiros vendedores de castanhas assadas começam a aparecer nas ruas. O pão está bom, muito bom, os chocolates infernalmente tentadores, é hora de fazer compota de marmelo e como sabem fazer doces de frutas cristalizadas, esses franceses!

Nunca havia visto uma abóbora chamada potimarron, que tem gosto de castanha, e que carinha feia tem os maracujás daqui. Pretinhos e enrugados, deve vir daí o nome de maracujá de gaveta…

Joio do trigo

E os 300 queijos afinados de qualquer loja boa, e nossa cara de ignorante ao não saber distingui-los, cara que se vai transformando em inteligente com facilidade depois de umas 5 visitas à loja. Meu Deus, como é fácil aprender o que é bom, distinguir o joio do trigo. Que boa terra esta para se conversar sobre comida, fazer compras, e imagino que também seja bom plantar e colher e ir ao mercado vender. Assim, com estes ingredientes, ainda está longe o fim da boa e doméstica comida francesa.



Cronista gastronômica do jornal “Folha de S. Paulo”, autora do livro “Não é Sopa” e sócia-proprietária do bufê Ginger.
e-mail:
nina@basilico.com.br

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