Cultura e Arte / Na Web com Nina

Divulgação

Na primeira coluna de Nina Horta ao
Basilico, a cronista-viajadeira dá suas impressões de Londres — a “intimidade”
dos garçons, o simpósio gastronômico
a que foi, as influências orientais no
menu e as dicas de restaurantes

As viagens, de longe, sempre parecem uma coisa cheia de delícias, aventurosa. Todo mundo esquece das dificuldades. É como parto.

Você chega numa cidade grande como Londres e, se for um viajante de poucas aventuras, logo se vê acuado em meio a um cerco de caipiragens suas. Já começa com o batente das portas. São altos. Tropeça-se sem saber o porquê. Depois de duas idas ao restaurante já se descobre, no cardápio. “Sanduíche do tamanho de um batente de porta. Se quiserem, pode ser cortado ao meio.” É que toda porta tem um degrauzinho.

Na hora de pagar o táxi o motorista faz cara de enfezado. É preciso descer e depois pagar, ai meu Deus, como saber tudo o que pode e não pode?

Eles, os que estão em casa, podem tudo. O que você acha desta novidade de garçons botarem o guardanapo bem arrumadinho no seu colo? Estava com uma amiga moça e escandalosa que fez questão de avisar o garçom que sabia arrumar um guardanapo no colo desde 5 anos de idade e que isto eram intimidades que não admitia.

Engraçado que hoje conversei por telefone com o Jeffrey Steingarten, o cronista da “Vogue” americana. Adoro o cara. Entrevistei-o para a “Folha de S. Paulo”. Está saindo pela Cia das Letras o livro dele — “O Homem que Comeu Tudo” —, acho que as pessoas vão gostar. E ele também estava indignado. Disse que na Austrália, onde esteve há pouco tempo, não dá para distrair um minuto que lá vem um garçom gay ajustar o guardanapo.

Novas modas, novos tempos

O simpósio de Oxford deste ano não estava muito legal. Cresceu demais em número de pessoas sem crescer em estrutura. Sempre foi uma coisa pequena, imagine, o máximo de 80 pessoas e agora tem lá suas 150, o que para eles já é uma multidão.

Então, naquele cenário maravilhoso, ficam as inglesas e os ingleses com um modelito bem parecido ao meu, gorduchos, cabelos brancos, muita papelada na mão, escolhendo qual a sala em que vão entrar para os seminários. O assunto este ano era “Memórias de Comida” e cada um tinha pouquíssimo tempo para expor o seu paper. Pouquíssimo. Os assuntos eram muito interessantes e eles escrevem muito bem. Então, o mais certo é pedir os papéis pelo correio e ler em casa. No próximo artigo conto do que se tratava.

Muita gente para pouco chef

Londres também está sentindo o mesmo problema do simpósio. Gente demais, carro demais, restaurante demais, os chefs não dão conta… Seis anos atrás a criatividade deles estava no auge, Londres era um dos lugares onde se comia melhor na Europa, mas a impressão que dá é a de que inventaram tanto que realmente secaram a fonte.

E estão voltando à tona restaurantes que haviam saído de moda porque eram pouco nouvelle. Na verdade, esta coisa de comida ficou tão na moda que os bons restaurantes estão muito semelhantes entre si e bem parecidos com os médios. Aquela coisa de bela apresentação, prato grande, comida alta, salamaleques, e no fim você nem percebe que está meio sem sal, passadinha do ponto. Eu percebo. Implicante que dói.

A influência japonesa, tailandesa, chinesa, indiana á incrível!!! Acho que eles comem mais coco e coentro em uma semana do que nós em um ano!!!

Dicas da Nina

Vou dar umas indicações, vai que um leitor do Basilico está vindo nesta semana e não pode esperar o segundo capítulo:

1o Capítulo

- Você trouxe o seu laptop e há algum problema (seu provedor sumiu no ar)?
Leve o lap ao Clive Marshall (tel. 00xx44 171/589-5286), um inglês simpático que conhece o Brasil, caipirinha e a Silvia Poppovic.

Restaurantes

- Nada que você saia de longe para conhecer, mas se estiver em Chelsea e quiser comer rapidamente e gostoso e japonês, vá ao Itsu. O chef fica fazendo a comida na hora, pondo numa mesa rolante. Você, sentada num banquinho alto, olha a cara do sushi, do sashimi e “nhaco!”, pega o que mais te apetecer... E vai juntando os pratinhos, um sobre o outro. Os pratos têm bordas de cores diferentes, e são cobrados pela cor das bordas. Tudo bem fresco, muita gente em horas de pico, e umas sobremesas nada japonesas e deliciosas. Um crème brûlée muito bem feito, e amoras gordas, mergulhadas no seu próprio suco com umas…(agora vocês me pegaram!)… nozes— nuts — carameladas, que não sei bem o que eram. Amanhã volto para conferir.
Itsu (118 Draycott avenue, London, SW3 2AE, tel. 00xx44 171/584-5522)

- Se estiver em Portobello visitando a feira ou a livraria Books for Cooks (que já não é a mesma, sofrendo das mesmas dores de Londres e do simpósio: excesso de solicitação), vá ao restaurante à esquerda da livraria, umas 3 portas depois. Não guardei o nome, acho que nem tem nome, mas é bem em frente da livraria The Travel — onde filmaram “Notting Hill” — e tem a cara do bairro. Gente informalíssima, o pedreiro, a dona da loja de objetos de bambu, inglesinhas secretárias, o dono da livraria... E a comida é muita. Um prato cheio até seu nariz com purê de batatas e salsicha. Ovos com bacon e torradas. Uma salada de verduras da feira em frente, estalando de fresca. Qualquer coisa com batata frita, vi alguém que pediu o purê de batata com batata frita e não me pareceu nada mau. O mais barato do mundo.
Em frente da The Travel Bookshop, 13 – 15 Blenheim Crescent, tel. 00xx44 020/7243-1552

E-mail: post@thetravelbookshop.co.uk
Internet: www.thetravelbookshop.co.uk ( Eles mandam livros pelo correio)

Até a próxima coluna (dia 06/10), com restaurantes chiquérrimos!!!

Cronista gastronômica do jornal “Folha de S. Paulo”, autora do livro “Não é Sopa” e sócia-proprietária do bufê Ginger.
e-mail:
nina@basilico.com.br

 

 

 

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