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Cultura
e Arte / Lançamentos

Por Joana Munné, de Barcelona
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xDivulgação |
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A
revista "Apicius"
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O
jovem Javi De La Rosa, idealizador da revista Apicius,
da Montagud Editores,
fala sobre o sucesso
da publicação, que
tem entre seus colaboradores
os principais chefs espanhóis da atualidade |
Uma das mais prestigiadas
editoras da Espanha — para não
dizer do mundo —, a Montagud Editores acaba de completar 100 anos.
Fundada em 1906 em Barcelona, está, desde então, a
serviço da gastronomia. De fato, sua primeira publicação, "Molinería
y Panadería", tinha como assunto o mundo dos pães
e das farinhas e La Confitería Española,
lançada em 1930 e voltada ao setor de pâtisserie, ainda
continua em circulação.
Além do segmento
de revistas, a Montagud produz obras técnicas que estão
entre as
mais
aclamadas da literatura gastronômica atual:
um dos títulos mais recentes, Arroces Contemporâneos, do
chef Quique Dacosta (restaurante El Poblet, em Dénia, Alicante),
foi tido como a melhor publicação de 2005 (prêmio
Lo Mejor de La Gastronomia, criado pelo crítico Rafael
García Santos). Outros livros incluem os de chefs
franceses consagrados, como o recém-lançado Chocolate Fusión,
do pâtissier Pierre Hermé, o premiado Au Coeur des Saveurs
(1997), do mestre do chocolate Frédéric Bau, e Bras (2002),
do estrelado Michel
Bras. E, claro, merecem destaque entre os títulos
da centenária editora obras dos cozinheiros espanhóis mais
aclamados da atualidade, como Bacalao (2003), dissecado pelo jovem basco
Andoni
Luis Aduriz (Mugaritz, em Errenteria, País Basco)
La Cocina de los Postres (2001), de Oriol Balaguer, e La Cocina al Vacío
(2003), de Joan Roca e Salvador Brugués.
Em sintonia
com o mundo virtual, a Montagud também elaborou o site La Librería
Gastronômica (www.libreriagastronomica.com),
onde expõe à venda seu catálogo e outras obras selecionadas.
Mas o grande projeto do momento é o caderno Apicius
(www.apicius.es), uma publicação
semestral dedicada exclusivamente ao universo da alta gastronomia, lançado
em novembro de 2003. Para se ter uma idéia do nível da publicação,
a edição nº 4 (maio 2005) teve como colaboradores vários
nomes da cozinha espanhola: os grandes Ferran
e Albert Adrià, Pedro Subijana e Martín Berasategui dividiram
as páginas de Apicius com expoentes da nova geração,
como o inventivo Dani García. Apicius já prepara
edições em francês e italiano, e a expectativa é
que seja traduzida para mais línguas.
O cérebro por trás desta iniciativa é o jovem Javi
Antoja de La Rosa, jornalista de 28 anos e diretor da publicação. Durante
todo o ano, De La Rosa visita centenas de restaurantes e toma contato
com as últimas técnicas culinárias. 'Apicius'
não é apenas um livro de receitas. Oferecemos as últimas
tendências, técnicas, conceitos e novidades de cada um dos
representantes do panorama gastronômico atual, conceitua
o jornalista, que diz divertir-se muito durante a elaboração
da revista — um making of consta do DVD que acompanha
cada novo número. Queremos deixar as pessoas com inveja,
brinca.
Irrequieto, empreendedor
e criterioso, De La Rosa tem entre os membros de sua equipe o fotógrafo venezuelano Carlos Rondon, um dos melhores
profissionais no ramo e que o acompanha desde a criação
da revista. Confira, a seguir, a conversa de De La Rosa com a colaboradora
do Basilico, Joanna Munné, de Barcelona.
Divulgação |
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O
jovem Javi de La Rosa |
Basilico
- Como nasceu "Apicius"?
Javi
Antoja de La Rosa - A Montagud nasceu com o objetivo de
editar obras e publicações periódicas dirigidas aos
profissionais de cozinha. Até a década de 90, sua atividade
centrou-se no setor de panificação e confeitaria. A partir
daí, o interesse crescente dos espanhóis pela cozinha fez
com que nascesse a versão digital de "Apicius". O alto
número de visitas na web fez com que criássemos uma publicação
semestral de alta gastronomia dirigida aos profissionais, cujo conteúdo
fosse 100% de interesse para cozinheiros.
Basilico
- Qual é a alma, a filosofia
do caderno?
De La Rosa - "Apicius" tem um espírito
jovem, contemporâneo. Isto está expresso no projeto gráfico,
na fotografia, em seus colaboradores. O objetivo é fazer com
que os leitores conheçam profundamente as técnicas culinárias
mais atuais. Trata-se, portanto, de penetrar na cabeça do cozinheiro
para compreender como se desenvolve uma técnica, um conceito
culinário.
Basilico
- O conteúdo de "Apicius" é exclusivamente
gastronômico. Já pensaram em entrar no mundo do vinho?
De La Rosa - A vocação de "Apicius" é a
cozinha. Existem muitas publicações que estão
fazendo um trabalho esplêndido sobre o tema. Claro que muitas
criações culinárias estão inspiradas no
mundo do vinho. Neste caso, sobrevoamos esse mundo.
Basilico
- Qual é o futuro da publicação?
De La Rosa - O próximo número da revista
(previsto para este mês) aposta em uma visão internacional
da cozinha: Itália, França, Estados Unidos, Brasil e
Espanha. Acreditamos numa gastronomia global. Acho que este será caminho
da cozinha. Não concebo alguém que diga que na França,
por exemplo, come-se muito bem. Devemos nos acostumar a dizer que tal
cozinheiro francês é bom... É horrível colocar
fronteiras na cozinha. O futuro de Apicius? Promissor.
Dentro de pouco tempo, ela terá edições francesas
e italianas, com conteúdos idênticos aos publicados em
espanhol. É uma boa oportunidade para difundir a boa culinária.
Acho que isso é fomentar a cultura gastronômica.
Basilico
- Qual o perfil do leitor de Apicius?
De La Rosa - O mesmo público que focamos [na
Montagud]: cozinheiros e um número expressivo de gourmets, que
vêem na cozinha algo mais do que um hobby. Atualmente, o tema
tem adquirido um papel social interessante. É difícil
ir à casa de alguém e não encontrar um bom livro
de cozinha de autor.
Basilico
- A revista digital de vocês tem boa aceitação?
De La Rosa - Em março, foram quase 165 mil
páginas visitadas. É um bom número.
Basilico
- O chef Alex Atala participa desta próxima
edição. Quando ouviu falar dele pela primeira vez?
De La Rosa - Eu o vi pela
primeira vez no ano passado, em um congresso gastronômico que acontece
em Madri [o Madrid
Fusiòn]. Gostei muito de sua exposição.
Desde então, quis que ele fosse um de nossos colaboradores habituais
e o convidei por e-mail. Atala é um tipo interessante que, acredito,
vai dar muito o que falar na Espanha e, porque não, na Europa.
Basilico -
Qual sua opinião sobre a cozinha e o livro dele [Alex
Atala - Por uma Gastronomia Brasileira]?
De La Rosa - Pelo pouco que conversei sobre seu trabalho,
pareceu-me interessante, principalmente pela ausência, da minha
parte, de referências gustativas em relação a algumas
matérias-primas que ele utiliza. É, sem dúvida,
uma cozinha que eu definiria como explosão de sabor e
contrastes. Por outro lado, seu livro é uma obra muito
elegante, que reúne à perfeição o que é sua
cozinha e o contexto sobre o qual trabalha.
Basilico - Conhece o Brasil e a cozinha brasileira?
De La Rosa - O Brasil é,
sem dúvida, um país que nos fascina. Imagino que sejam muitas
as imagens que temos sobre ele. O Carnaval, a região amazônica...
e o futebol. Ronaldinho ou Robinho? Fico com o segundo, sem dúvida.
Gostaria muito de conhecer o país. Andoni Luis Aduriz, Francis
Paniego [do hotel-restaurante Echaurren, em Ezcaray,
La Rioja] e Marcelo Tejedor [de Casa Marcelo, em Santiago de Compostela,
na Galícia] comentaram comigo várias vezes o quão
impressionante é o Brasil.
Basilico
- Qual é sua opinião
sobre as cozinhas italiana e francesa?
De La Rosa - A Itália é um país
de produtos excelentes e tem uma tradição culinária
impecável. Geralmente, quando se fala em cozinha italiana, os
espanhóis pensam primeiramente em massas. Hoje em dia, são
vários os cozinheiros que estão levando o nome da Itália
pelo mundo: Carlo Cracco (do restaurante Cracco Peck), Maximiliano
Alajmo e Enrico Crippa são, para mim, o trio que marca a nova
onda da culinária italiana. Estão reinterpretando a cozinha
italiana, o que reflete ousadia num país em que a memória
gustativa tem um papel fundamental. Já a França é um
país vizinho que, até agora, era visto por nós
como um espelho, um modelo. Não acredito que ela esteja paralisada gastronomicamente,
nem tampouco que esteja em seu melhor momento. Há muitos fatores
que têm levado o país a essa situação. O
estancamento é o pior que pode acontecer a um país. Sem
dúvida, atitudes contrárias como a do The New
York Times — em que Arthur Lubow [crítico do periódico]
refere-se à cozinha espanhola como A nova nouvelle cuisine — abalaram
muitas consciências. A Geração C,
encabeçada por Pascal Barbot (Astrance, em Paris), está trabalhando
para colocar, de novo, a gastronomia francesa no lugar que merece.
Basilico -
Tal como o jornalista Oscar Caballero (crítico argentino que escreve
para o periódico Le Monde), você acha que a Espanha está
vivendo uma epidemia como viveu a França nos anos
80?
De La Rosa - Chamar de epidemia um momento
tão interessante como o que a Espanha está vivendo não
me parece justo. Há pessoas que cozinham bem, outras são
regulares e outras cozinham mal. Hoje em dia, o número dos que
estão desenvolvendo uma cozinha interessante é maior.
Graças a Ferran Adrià, a Espanha está na boca
de todos… e será assim por muito tempo. Mas sempre de
maneira justa. Não devemos cair num patriotismo mal entendido,
em que damos valor a algo que não tenha. Atualmente, a Espanha
está melhor do que nunca.
Basilico
- O que acha do controvertido crítico Rafael
García Santos, para cujo site (www.lomejordelagastronomia.com) você colabora?
De La Rosa - Rafael García Santos é o
melhor jornalista gastronômico da Espanha e o que mais tem feito
pela culinária do nosso país.
Basilico
- O jornalismo gastronômico tem a virtude de poder contar
histórias da mesa e levar o leitor a sonhar. Como você analisa
um menu-degustação e o transmite objetivamente aos leitores?
De La Rosa - O menu-degustação é a
melhor ferramenta para dar uma idéia da cozinha de um restaurante
em uma primeira visita. Tenho 28 anos e quero transmitir o que sinto
e o que vejo com uma linguagem direta, simples, atrativa, sem rodeios,
para que a mensagem chegue tal e como a senti naquele momento. Transmitir
algo tão subjetivo pode ser complicado, mas o truque está em
não adorná-lo em excesso.
Basilico
- Quais são seus 3 restaurantes
prediletos em Barcelona? E na Espanha?
De La Rosa - Em Barcelona, Gaig, El Racó d'en
Freixa e o Bar Tomás. No Gaig (de Carles Gaig) é possível
desfrutar de uma cozinha catalã reinterpretada em um espaço
de luxo que te fará ver estrelas! El Racó d'en Freixa,
de Ramon Freixa, é um reflexo fiel da personalidade do cozinheiro:
cosmopolita e atual. Um jovem cozinheiro que logo, logo terá sua
2ª estrela Michelin. E o Bar Tomás é um pequeno
boteco no bairro de Sarriá [ao Norte da cidade] que faz as melhores
batatas bravas do mundo. No restante da Espanha, gosto muito do El
Celler de Can Roca (em Gerona, Catalunha), do El Poblet, de Quique
Dacosta (em Dénia, Alicante), e do Calima, em Marbella (Málaga),
de Dani García, cozinheiro que está colhendo inúmeros
prêmios por seu trabalho.
Basilico -
Cite 5 lugares de Barcelona (exceto restaurantes) para um gourmet brasileiro...
De La Rosa - El Bulli Taller,
o mercado de La
Boquería, o Paseo del Borne (bairro com várias
lojas gourmets) durante o fim de semana, a Pastelería Escribà
e nossa editora, onde se pode desfrutar de uma extensa biblioteca gastronômica.
Basilico - 5 produtos que o fascinam e que devemos provar...
De La Rosa - Um novo caviar produzido no Río
Frío, em Granada, e que está à altura de qualquer
caviar iraniano; os ouriços-do-mar asturianos são uma
autêntica delícia, uma pitada de mar na boca; o foie
gras do camponês que cuida e alimenta os patos com que trabalha
Dacosta; o chocolate de Oriol Balaguer (Catalunha); e os frutos do
mar (dátiles, em espanhol) que se obtêm no Mar
Mediterrâneo e que Raúl Aleixandre, do restaurante Ca'Sento
(Valência), trabalha como ninguém.
Basilico - Qual seu prato e sobremesa de 2005?
De La Rosa - [risos] Você me coloca numa saia-justa,
porque são muitos os pratos que me emocionaram no ano passado.
O melhor que provei foi a ostra com destilado de terra, de Joan Roca;
e a sobremesa, uma maionese de cacau ao azeite de oliva com amêndoas
e frutas, de Dani García.

Joana Munné, natural de Barcelona e residente no Brasil, é
filóloga e organiza eventos para divulgar a gastronomia e a enologia
espanholas no país
Publicado em: 01/06/2006
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