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Cultura e Arte / Lançamentos
Por Alexandra Leite
Muitos brasileiros já incorporaram dietas francesas e, principalmente, italianas ao seu cardápio cotidiano, mas desconhecem pratos básicos de seus vizinhos americanos. Por isso, é louvável o lançamento de um livro como “Os Sabores da América”, da historiadora Rosa Belluzzo. Co-autora do célebre “Cozinha dos imigrantes”, que coleta a memória de imigrantes estrangeiros no Brasil, desta vez a pesquisadora elabora profunda análise sobre os modos de viver e comer dos povos autóctones desde a época de seu descobrimento. Quem ainda guarda resquícios das aulas de história do colégio, reconhecerá muitas semelhanças entre as ilhas antilhanas (Cuba, Jamaica e Martinica) e o Brasil. Os 4 países foram palco de destruição massiva da cultura indígena, da exploração de seus bens e da implantação do regime escravagista pela metrópole. Portanto, nada mais natural que vejamos nos pratos, inicialmente tão exóticos, a mesma gênese da culinária brasileira. É o caso do moros y cristianos, um cozido cubano de feijão-preto com arroz branco, porco e condimentos, bem parecido com o nordestino baião-de-dois. O primeiro dos países descritos por Belluzzo é a Cuba de Fidel, Hemingway e refrescantes mojitos. Influenciada principalmente por África e Espanha, Cuba tem como pilares de sua alimentação o feijão com arroz, as frituras, a carne de porco e doces bastante açucarados. Na lendária Jamaica dos piratas e contrabandistas de rum, o amálgama de várias influências étnicas é maior. Cada novo grupo que chegava às Antilhas (ingleses, africanos, chineses, indianos etc.) enriquecia o paladar dos ilhéus, que absorveram os novos ingredientes sem perder sua essência: em peixes, carnes e até doces, há que se usar pimenta. Muita pimenta! “Mescla de sabores africanos, com o perfume das especiarias da Índia e o refinamento e as técnicas francesas”, a culinária da Martinica agrada aos que apreciam peixes e crustáceos dos frios mares do Caribe e Atlântico. É o caso do court-bouillon, que só difere da versão da metrópole ao acrescentar espesso molho de tomates ao cozido de peixe branco. Menos suscetível
à influência de seus colonizadores, o México é
o único dos países estudados por Belluzzo que conseguiu
manter-se fiel aos seus antepassados
— no caso, maias e astecas. Suas tortilhas de milho, tamales e chiles
são usados de maneira diferente em cada região do país,
mas as raízes de sua cozinha “remontam a 700 anos antes de
Cristo”. Assim como seus vizinhos antilhanos, o México incorporou
alimentos estrangeiros ao dia-a-dia, mas se vingou por nós, subvertendo
os modos de comer do Velho Continente. Legou aos exploradores insaciáveis
a baunilha, o tomate, o peru e o chocolate! Precisa mais?
Publicado em: 22/07/2004
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