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Cultura
e Arte / Lançamentos

Por
Cristiana Couto
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Reprodução
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O
livro, editado pelo Senac
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O
jornalista Caloca Fernandes lança
"Viagem Gastronômica através do Brasil",
que une história da gastronomia do país
e receitas típicas |
Com receitas históricas,
às vezes descobertas num cantinho do Brasil, ou adaptadas através
dos tempos pelas gentes da terra, o jornalista residente em Salvador Caloca
Fernandes ilustra um passeio gastronômico - e histórico
- pelo país com seu segundo livro, "Viagem
Gastronômica através do Brasil".
Não é
apenas um livro de receitas típicas - todas testadas pela
cozinha experimental da Editora Estúdio Sonia Robatto, do qual
é diretor - e antigas - daquelas às vezes esquecidas
pela gastronomia nacional, mas apreciadas e reproduzidas pela população
local de alguma região brasileira há gerações.
É uma obra,
digamos, de resgate do que o autor chama de "gastronomia patrimonial".
É baseada em documentos, mas traz também um extenso
trabalho de campo: 1 ano de viagens pelo país em busca de elos
culinários quase perdidos, como os fartes (doces de amêndoas
e creme) portugueses encontrados no interior do Ceará e que resistem
atualmente apenas na Ilha da Madeira, em Portugal. Tem fotos belíssimas
e bem cuidadas, referências bibliográficas e notas de rodapé
detalhadas. E mostra, sobretudo, que a gastronomia pode contar muito da
história de um país.
Portugueses
e indígenas
Depois de uma introdução feita por pesquisadores
sobre a influência das cozinhas portuguesa, africana e ameríndia
em nossa culinária, o livro relata o encontro entre 2 índios
e os tripulantes de uma nau portuguesa da frota de Cabral, 3 dias depois
de aportarem pela primeira vez em nossas terras. Daí, começando
pelo Pará, seguem as receitas e a história de alguns
pratos por todo o Brasil.
Mesmo que se deixe
toda a História de lado, "Viagem Gastronômica"
é um receituário de delícias irresistíveis
para se fazer em casa. A
seguir, os principais trechos da entrevista com Caloca Fernandes.
Basilico - Qual
foi o principal objetivo do livro?
Caloca Fernandes - Meu gosto pela cozinha simples, brasileira.,
sem sofisticação, e a preocupação com a história
da gastronomia patrimonial. Uso uma linguagem nacional, para mostrar um
pouco da historia do Brasil através da gastronomia.
Basilico - O que
o surpreendeu nesta viagem?
Caloca - A descoberta dos fartes, que atualmente só existem
na Ilha da Madeira, em Portugal, e que surpreendentemente encontrei no
interior do Ceará. Os fartes são importantes porque foram
o primeiro alimento europeu comido pelos indígenas; outra descoberta
foram os bolos de espécie, que são distribuídos nas
festas de Natal em Lisboa, que encontrei no Maranhão.
Basilico - O livro
não trata só de iguarias típicas, mas de pratos mais
contemporâneos, não?
Caloca - Sim. Um exemplo é o nhoque de pupunha, que mostra
bem a integração de um ingrediente nacional com outro de
origem imigrante (o gorgonzola). Outro exemplo é o atolado de caranguejo,
criado por Toinho Correia no Beach Park, em Fortaleza.
Basilico- Qual
é seu conceito de cozinha brasileira?
Caloca - É a cozinha formada pelo índio, pelo português
e pelo africano, gerada em torno destes 3 povos e desenvolvida até
os dias de hoje com influências como a italiana: o macarrão
com molho de frango que o operário leva para o trabalho aparece
de Norte a Sul do país.
Basilico - É
difícil encontrar "compêndios" sobre cozinha brasileira.
Enquanto os europeus estudam alimentação como ciência,
porque o Brasil tem tão pouco registro historiográfico?
Caloca - O que encontramos aqui são obras espalhadas, sem
divulgação, feitas por estudiosos como Mário Souto
Maior. Isso acontece porque aqui considera-se a cozinha como uma coisa
secundária, desprezada pela comunicação social. Quando
faço palestras e falo sobre gastronomia patrimonial, as pessoas
dão risada. Nossa gastronomia pulou da cozinha reles para a sofisticada.
A preocupação do brasileiro é mais com a sua aparência.
Ela é uma convenção social superficial.
Basilico- Como
você selecionou as receitas?
Caloca - Escolhi as mais óbvias e famosas (pato no tucupi)
que abrangem o Brasil, e outras novas para mim - como a mojica de
aviú (feita com um microcamarão local, encontrado no rio
Tocantins).
Basilico - Há
mitos sobre a origem de alguns pratos?
Caloca - Acredito, por exemplo, que a origem do cuscuz paulista
é o farnel (farinha, frango guisado ou feijão e ovos cozidos,
amarrados em um guardanapo grande) dos bandeirantes e tropeiros. E não
acredito que a feijoada tenha origem africana, mas portuguesa - os europeus
têm sempre pratos substanciosos feitos com feijão (que neste
caso é branco).
Basilico - Qual
é seu próximo projeto na área?
Caloca - Um dicionário de gastronomia nacional.
Veja
a receita de fartes
Obra: Viagem
Gastronômica através do Brasil
Autor:
Caloca Fernandes
Editora: Editora Senac-SP (256 págs)
Preço: R$ 80
Lançamento: dia 2/06, na livraria Cultura (av. Paulista, 2.073,
Cerqueira César, zona sul, São Paulo, tel. 0xx11/285-4033)
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