Cozinhar / À Mesa com Mari Hirata


Por Mari Hirata, do Japão

Mari Hirata
Atuns, antes do leilão
Mari Hirata comenta as espécies de atum,
sua partes mais importantes (e gostosas)
e ensina 2 receitas


US$ 200 mil dólares: esse foi o preço recorde de 1 peixe, leiloado em Tsukiji — mercado de peixe de Tóquio — em 2004. A preciosidade não era feita de ouro, nem tinha a assinatura de Picasso; era um simples atum, morto e gordo! Tinha sido pescado na cidade de Ooma, no estado de Aomori, ao Norte do Japão, no dia anterior, morto alguns segundos após ser fisgado e esvaziado do seu sangue (para evitar que a adrenalina estragasse seu sabor). Foi colocado no gelo — e não congelado — e pesava 200 kg, o que significa que cada 1 kg custou US$ 1.000!

Porque um simples atum ultrapassa o preço de um apartamento em Tóquio, a cidade mais cara do mundo? Claro que, para alguns, apartamento basta apenas 1, mas, para outros, comer um sushi de toro — a parte gordurosa da barriga do atum — todos os dias parece não ser suficiente.

Em média, um sushi de toro custa US$ 10 (10 a 20 g de peixe) em um sushiya (casa que só vende sushis) de Tóquio. Claro que, quando a grife é um toro de Ooma, este valor pode chegar a US$ 40. O que faz a diferença é a espécie de atum, a maneira de pescá-lo, o lugar em que foi pescado e seu acondicionamento.

O atum em questão é da espécie honmaguro (atum verdadeiro), bluefin tuna (em inglês) ou thon rouge (em francês), o maior de todos, que pode chegar a pesar até 400 kg. Ele foi pego por profissionais que pescam com linha, na mão, utilizando peixes vivos como isca. Imediatamente após pescado, o atum recebe choques elétricos para evitar qualquer estresse que prejudique seu sabor. Depois de limpo, ainda quente (por ser um dos peixes que se movimenta muito, o atum chega a ter sangue um pouco quente), o honmaguro é rapidamente esfriado a 0ºC e parte imediatamente para Tóquio.

O mar onde foi pescado é também um fator muito importante. As águas de Aomori, entre novembro e dezembro, são geladas e “selvagens”, e os atuns estão gordos antes de enfrentar o inverno. Mas só a gordura não explica seu alto preço: este mar frio e selvagem proporciona uma carne firme e oxigenada, com textura delicada e, simultaneamente, muito saborosa.

Em extinção

Mari Hirata
Fatia de maguro
Mas falemos um pouco sobre o maguro comum, aquele que nós, mortais, podemos comer. Pois existem muitas espécies, além do famoso honmaguro: o minami maguro é uma delas. Menor e, portanto, sem a parte mais gorda do atum (o ootoro), tem, às vezes, um pouco de carne “meio” gorda (thyutoro) e bastante porção vermelha, ou magra (akami), do maguro. Esta espécie é encontrada no Sul da África ou da Austrália.

Já o mebachi também encontrado em águas mais quentes, embora tenha sabor, é um peixe de carne menos firme, sem falar nas espécies bintchou ou kihada que, na maioria das vezes, são transformados em atum em lata.

O atum é o rei do sushi. Sua popularidade é tanta que, atualmente, sua espécie mais apreciada está em vias de extinção. Se antigamente os japoneses eram seus consumidores mais vorazes, hoje o mundo inteiro corre atrás dele.

Mas não há porque se preocupar: apesar do seu alto preço, parte do problema tem sido resolvida graças aos grandes parques de criação de atum, existentes na Espanha e na Nova Zelândia, com técnicos japoneses que supervisionam seu crescimento, ração, abate e acondicionamento. Transportado por avião, ele chega a qualquer capital do mundo no dia seguinte, sem que seja preciso congelá-lo. Realmente, o sushi tem, hoje, experts e amantes pelo mundo inteiro.

Mari Hirata
Atum empanado (magurokatsu)


Claro que o honmaguro de Ooma e o da Espanha tem lá suas diferenças, mas para
quem gosta de ootoro, parte que derrete na boca, o toro espanhol não deixa nada a dever aos japoneses, já que estes atuns
não precisam nadar freneticamente à procura
de cardumes de peixes, permanecendo bem gordos. Ainda não provei o maguro de Ooma
(e talvez não venha a comer tão cedo...), por isso, não posso opinar a esse respeito.



Para aqueles que não tem o mercado Tsukiji a meia hora de casa, proponho uma visita ao mercado de peixe mais próximo, preferivelmente bem cedinho (às 5 da manhã). Converse com algum peixeiro japonês (ou implore ao seu sushiman preferido para lhe indicar algum), compre 1 kg de um bom atum, escolha uma parte próxima da barriga (onde a carne é mais rosada) e faça uma das receitas abaixo. Na hora de escolher o peixe, dê preferência, antes de mais nada, ao frescor, pois ele não deve cheirar, nem estar escuro ou seco.

As partes principais do atum

1. Akami: a carne do atum é da cor vermelho-vivo, rica em ferro e com poucas calorias. Recomendo esta parte para fazer o zuke (marinado no shoyu), ou mesmo empanado e frito, deixando o centro cru.

2. Thyutoro: também chamado “meio toro”, é menos gordo que o toro e muito apreciado pelos gourmets: segundo estes, o “meio toro” tem a quantidade ideal de gordura. Por ser extremamente delicado, aconselho comê-lo cru, como sushi ou sashimi.

3. Ootoro: presente no honmaguro, tem a aparência de um bacon, rosado e com estrias. Deve ser cortado no sentido oposto ao das fibras e deve ser manipulado o menos possível, pois corre perigo de se desfazer. Por derreter na boca, fica delicioso como aburi toro, ou seja, rapidamente grelhado em carvão (somente para perfumar e torrar levemente sua superfície) e consumido com shoyu e wasabi fresco ralado: um prato dos deuses!

4. Kamatoro: no Brasil, vi muitas vezes essa parte do atum no lixo. É um pedaço próximo à cabeça, junto às nadadeiras e difícil de retirar. Tem pouca carne, com aspecto marmorizado, textura fina e sabor delicioso! Obviamente, deve ser consumido como sushi, mas também fica muito gostoso assado com a pele no carvão.

Na cabeça, entre os olhos, existem partes deliciosas de atum. As bochechas também podem ser consumidas, como steak. A cabeça inteira, assada no forno só com sal grosso, é muito apreciada pelos japoneses. Afinal, atum no Japão é como porco, nada se perde!

Receita:

Magurodon
Magurokatsu







 

 

 

 

Mari Hirata é chef de cozinha brasileira radicada no Japćo, onde dá consultoria a restaurantes no país e aulas de culinária
e-mail: mari@basilico.com.br

Publicado em: 15/06/05


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