Cozinhar / À Mesa com Mari Hirata


Por Mari Hirata, do Japão

Mari Hirata
Onigiri embalados
Mesmo com a invasão do pão e a
queda no consumo de arroz, os onigiri, tradicionais bolinhos feitos com o ingrediente, são líderes de venda nas lojas de conveniência do Japão


Se o arroz é o alimento-símbolo do Japão, não é somente por questões culinárias: o ingrediente está presente na política, na economia, na religião e nas artes japonesas. Afinal, são 2 mil anos de história do cultivo de arroz.

Nunca um grão foi tão dissecado, estudado e transformado. O arroz japonês (japonica rice) é parte da refeição (gohan), a bebida (saquê), as sobremesas (odango, mochi, sembei, arare) e o tempero (miso, vinagre osu, saquê doce mirim) do país.

Mari Hirata
Onigiri com folhas de shiso
Todos os anos, o próprio Imperador planta simbolicamente, nos jardins do palácio, em Tóquio, alguns metros quadrados de arroz, que serão consumidos por sua família (tudo amplamente documentado pela mídia).

Nesse momento, pensamos: “Ah, já chegou a hora de plantar (pois é Primavera)”, ou de colher, e assim nos sentimos no decorrer das estações, tão distintas por aqui.

Nessa época ainda de Outono no Hemisfério Norte, os sacos de arroz vendidos no supermercados têm um pequeno selo que indica “novo”: é a marca do arroz recém-colhido, diferenciando-o dos outros ensacados no ano passado. É um arroz leve, que exige menos água para seu cozimento e que tem um leve sabor adocicado, gostoso, mesmo sem tempero ou acompanhamento. Como o arroz é o centro da refeição, o Outono é considerado pelos japoneses a estação gourmet do ano.

Mari Hirata
Bolinhos com alga nori


Pão e sanduíche
Entretanto, a queda do seu consumo
entre a população é cada vez maior. Isso acontece no mundo inteiro: cada vez mais variamos nossas refeições, e os japoneses
já modificaram seu café da manhã, adotando o pão
. Atualmente, as refeições muitas vezes contam com massas em lugar do arroz. Naquelas que são mais rápidas, os
sanduíches invadiram a vida de estudantes e trabalhadores jovens.


Mas, com a preocupação cada vez maior com a saúde, os tradicionais bolinhos de arroz onigiri ressurgiram com toda a força.
A resposta para tal evento talvez esteja no acompanhamento: pães e massas costumam pedir algo gorduroso, mas um bolinho de arroz não comporta molho ou grandes fatias de carne. Seu melhor acompanhamento é, sem dúvida, verduras marinadas, peixe, alga ou sopa de miso. Conclusão: para comer rápido e leve, nada melhor do que um almoço com onigiri!

Os bolinhos de arroz existem há muito tempo. São tão antigos quanto o arroz, pois sempre foram considerados alimentos de viagem, uma espécie de farnel dos japoneses. Quem assistiu antigos filmes de samurais deve ter visto aqueles bolinhos triangulares de arroz, embrulhados em casca ou folha de bambu. Antigamente (e hoje em dia também) recheava-se com uma ameixa azeda salgada (umeboshi) que, além de temperar, tinha poderes bactericidas. Isso tornava o onigiri uma ótima solução para o almoço do meio-dia nos campos, onde até hoje prevalece o costume.

Mari Hirata

Já nas cidades, o fenômeno tornou-se popular graças às lojas de conveniência, que

garantem onigiri fresco 3 vezes ao dia. Foram elas que inventaram recheios diferentes que
hoje atraem os jovens, com sabores
como atum, churrasco coreano, alho e pimenta vermelha. A preocupação com recheios
tão variados talvez se deva ao fato de que
os bolinhos são campeões de venda nessas lojas, ganhando do pão e do macarrão instantâneo.

Onigiri fast-food
Segundo a última pesquisa da rede 7-Eleven, os onigiri mais vendidos são aqueles recheados de salmão salgado, umeboshi, atum, alga kombu e ovas de salmão. Tal tendência está sendo difundida por toda a Ásia, principalmente na China e na Coréia, onde tais lojas (e seus onigiri) já caíram nas graças dos jovens.

Se os recheios não mudaram muito, o segredo do sucesso dos onigiri fast-food consiste na apresentação. Como o bolinho é comido com as mãos, sempre foi preciso algo que evitasse que elas ficassem cheias de grãos de arroz. Utilizou-se, tradicionalmente, a alga nori (a mesma do sushi). O problema é que, com a umidade, a alga murcha e perde a textura. As lojas de conveniência, então, inventaram uma embalagem em que o nori e o onigiri ficam separados por um fino celofane, só se juntando no momento de abrir. O resultado é que se pode, assim, apreciar inteiramente o aroma e a textura crocante da alga.

O arroz é primordial para um bom onigiri. Mesmo fora do Japão, o arroz cultivado na Califórnia é de ótima qualidade, e encontrei dele sendo vendido, nas lojas de produtos orientais, em toda a Europa e no bairro da Liberdade, em São Paulo. Também me deparei com uma variedade muito grande de arroz, tanto japonês quanto de outros países. O importante é que o arroz seja fresco (ele não deve ultrapassar um ano após a colheita), e seus grãos sejam pequenos, arredondados e translúcidos. Evite o do tipo arbório, um pouco pesado para fazer o arroz japonês. Em compensação, tente fazer um risoto com o arroz japonês: é leve e cremoso!

Nesta coluna, darei a receita de um bom onigiri. Tente substituir os pãezinhos por ele em seu próximo churrasco – vai ser sucesso na certa!

Receita:

Onigiri ou bolinho de arroz







 

 

 

 

Mari Hirata é chef de cozinha brasileira radicada no Japão, onde dá consultoria a restaurantes no país e aulas de culinária
e-mail: mari@basilico.com.br

Publicado em: 26/11/04


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