Cozinhar / À Mesa com Mari Hirata


Por Mari Hirata, do Japão

Mari Hirata
Chá verde
Nossa colunista participa de sua primeira colheita de chá verde. Confira como foi
essa experiência, os principais tipos de
chá e uma deliciosa receita


Tal qual a festa do Beaujolais Nouveau para os franceses — uma comemoração mais relacionada a fatos históricos e sazonais do que uma ode ao paladar —, o dia 1º de maio, no Japão, é também uma data festiva. É o 1º dia da colheita do sincha, o broto de folhas tenras dos quais se faz o chá verde japonês mais consumido no país (representa 85% da produção de chá). Na verdade, o chá (cuja planta é a Camelia theaceae) é colhido 4 vezes ao ano, mas o que merece toda a atenção dos japoneses é o sencha, novo e aromático, degustado logo após a colheita.

Explico: as folhas novas e tenras dão uma infusão de sabor suave, até mesmo adocicada, mas oxidam-se facilmente. Depois de aberto o pacote e saboreadas as primeiras infusões, todo o restante perde rapidamente o gosto fresco e transforma-se em algo insípido. Quente ou frio, o chá verde nunca leva açúcar; também ganha de qualquer outra bebida em termos de consumo entre os japoneses (há, no país, mais de 8 tipos de chás), até mesmo da Coca-Cola.

Mari Hirata
Brotos de chá verde

Qual o motivo dessa preferência? Qual a diferença em relação aos outros chás? O arbusto é sempre o mesmo, mas a fabricação do chá verde e, sobretudo, o terroir, são bastante diferentes. O chá chegou ao Japão vindo da China, pelas mãos de monges budistas, há 1.200 anos. O mais comum era o do tipo Oolong (chá chinês), cujas folhas são ligeiramente fermentadas, colocando-o entre o chá verde e o chá preto. Este último, por exemplo, é totalmente fermentado.

No início, mesmo sendo um objeto de luxo dos senhores abastados, o chá quase foi extinto, por conta do pouco entusiasmo dos japoneses por seu gosto e aroma. Só alguns séculos mais tarde, quando as primeiras sementes chegaram e os japoneses começaram a produzir seu próprio chá é que ele caiu no gosto do público. A etapa da fermentação foi completamente abolida nesse processo, e as folhas, depois de colhidas, passavam pelo vapor durante alguns segundos, para que ela não ocorresse. O resultado foi um chá de cor verde intensa e de sabor e aroma frescos e agradáveis.

Mari Hirata
As folhas mais novas da planta


Quanto ao terroir, não poderia ser melhor:
a região escolhida, chamada Uji, perto de
Kyoto, ainda hoje produz o melhor chá do
Japão, por causa de suas rígidas condições climáticas, de verões quentes e abafados (superiores a 30ºC) e invernos rigorosos e
secos (próximos de 0ºC). Outro terroir famoso
é o de Sayama (perto de Tokyo), onde fui
este ano para participar da minha primeira colheita.



Na colheita
Para quem esperava uma vendange (em francês, vindima, colheita) ao estilo francês, a coisa é bem menos romântica. Os campos de chá ficam em plena zona residencial e, muitas vezes, é preciso mesmo atravessar avenidas —aliás, tive a mesma impressão ao visitar as videiras de Haut Brion, em Bordeaux... não se fazem mais colheitas como antigamente!

Esse antigo campo de chá, com mais de 300 anos, produz uma bebida deliciosa, não somente pelo terroir, mas também pelo cuidado na produção e na colheita — grande parte dela totalmente colhida à mão e com arbustos cobertos por uma fina tela preta, que impede 80% dos raios solares diretos. A partir desses cuidados surge o famoso gyokuro, considerado o mais caro dos chás, com sabor pouco amargo e extremamente elegante: uma espécie de Borgonha entre os chás verdes!

Os brotos de chá são leves e fáceis de colher, o calor da primavera é agradável e o almoço, esplêndido. Pratos simples feitos com legumes cozidos, saladas frescas, conservas caseiras, inarizushi (bolinhos de arroz avinagrados, dentro de saquinhos de tofu frito) e uma descoberta: brotos de chá verde nos tempura, uma delícia! Tudo isso regado a um dos melhores chás do Japão.

Voltando à nossa vendange: após 5 horas de colheita, meu resultado é uma cesta com menos de 1 kg de broto. Limpo e retiradas as impurezas, ele passa pelo vapor durante 70 segundos (cada plantação tem seus “segundos” de vapor) e é desidratado por mais de 5 horas, alternando ventilação, pressão e manuseio, para formatar cada folha como se fosse uma agulha.

Nesse processo, os brotos de chá colhidos perdem 80% do seu volume, mas permanecem intactas todas as suas propriedades, como cor, sabor, perfume, além das vitaminas e do famoso catechin (polifenol que tem a virtude de reduzir o mau colesterol).

Resultado: de cada quilo, restam menos de 200 g de chá! Aliás, um pacote de 100 g de um bom chá verde não custa menos de US$ 20, mas vocês podem ter certeza de que foi o melhor chá que bebi até hoje!

Para os que se interessam pelo chá verde japonês, eis alguns sites para consultar:

Associação dos produtores de chá: www.wbs.ne.jp.bt/chacha
Cerimônia do chá: www.teahyakka.com
Uma das marcas famosas da bebida: www.yamamotoyama.co.jp

Tipos de chá verde japonês

Sencha: é o chá verde que conhecemos e que representa 85% da produção de chá do país. De gosto firme e equilibrado, cor verde e bem perfumado, é para ser bebido como o cafezinho no Brasil, a qualquer hora.

Bancha: é o chá mais ordinário (o chá popular que, antigamente, era feito com folhas menos tenras). Atualmente, está sendo revalorizado pelo fato de que sua maior exposição ao sol produz um chá muito mais rico em catechin.

Genmaicha: misturando um pouco de grãos integrais de arroz torrado (o gemmai, semelhante a uma pipoca) ao sencha ou ao bancha, o chá verde ganha um gosto e cheiro agradáveis de cereal grelhado. Muito apreciado, mesmo pelos que não gostam muito de chá.

Gyokuro: é chamado de “jóia do chá verde” pois, além de seus brotos serem colhidos à mão, eles são cobertos com uma rede escura que protege as folhas de uma superexposição ao sol, impedindo mais de 80% dos raios solares. O resultado é um chá extremamente aromático, menos amargo e com traços adocicados. Como exige muita mão-de-obra, ele custa bem mais caro que os outros e é consumido apenas em ocasiões especiais.

Houjicha: também conhecido como kukicha, são utilizados os talos e caules do chá, que são torrados e dão à bebida um gosto fresco e saboroso. Consumido por idosos e crianças pelo fato de não conter teína ou cafeína, é gostoso também gelado para matar a sede no verão, tal qual o mugicha (chá de trigo).

Matcha: o famoso chá de cerimônia é diferente dos demais. Não se faz uma infusão, mas utiliza-se toda a folha. As folhas do chá verde sencha são passadas por um moedor de pedra, transformando-se em um finíssimo pó verde, o matcha. Extremante amargo, ele é misturado à água quente e imediatamente batido (com um batedor de bambu), resultando em um chá espumoso e cremoso, no qual a incorporação do ar quebra um pouco do seu amargor.


Receitas:

Crème brûlée de chá verde







 

 

 

 

Mari Hirata é chef de cozinha brasileira radicada no Japão, onde dá consultoria a restaurantes no país e aulas de culinária
e-mail: mari@basilico.com.br

Publicado em: 14/07/04


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