Wilma Kövesi costumava falar o que pensava. “Na minha idade, posso
me dar este direito de dizer sempre o que penso”, era o que repetia.
No caso dela, não era questão de idade: era um pouco questão de
temperamento, e um pouco questão de direito adquirido em face do
que já tinha realizado ao longo de sua vida.
Wilma morreu no último dia 5 de novembro. Não fui avisado,
estava no Rio de Janeiro, e só fiquei sabendo dias depois, quando
cheguei. Liguei imediatamente para sua escola de culinária, único
local onde, imaginei, poderia encontrar sua filha Betty, mas não
a achei. Liguei então para a "Folha de S.Paulo", onde
escrevo, avisando que faria às pressas uma pequena nota em homenagem
a ela. Fiz duas. No pequeno espaço disponível, não foi possível
contar um pouco mais do que Wilma fez para merecer o direito de
“falar o que pensava” durantes estes últimos anos.
Eu a conheci nos anos 80, quando ela já tocava sua escola de culinária,
chamada, na época, Centro de Criatividade Doméstica – nome
que revelava, já, o desejo de estabelecer uma ponte ligando o afazer
doméstico e compulsório de cozinhar, com a esfera da arte, da criação.
Eu lançara um caderno de gastronomia na "Folha", o “Comida”,
e passei a procurar pessoas que tivessem relevância neste universo,
para que ali divulgassem seu trabalho, ou opinassem nas reportagens
que eu fazia. Wilma Kövesi foi uma dessas pessoas.
Suas opiniões, nem sempre iguais às minhas (mas sempre publicadas),
primavam por misturar cultura e saber prático. Num universo
em que, nas minhas matérias, eu topava principalmente com profissionais
da cozinha –chefs e proprietários de restaurantes, de confeitarias,
de bufês— era gratificante falar também com alguém que visse a gastronomia
do ponto de vista da casa, do afazer cotidiano, de quem cozinha
sempre numa escala puramente doméstica. Coisa que tanta gente (como
eu mesmo) adora fazer.

Múltiplas atividades
Nos últimos anos ela mudou o nome da escola. Afinal, os tempos
mudaram, desde que ela a fundou 25 anos atrás. Hoje não se trata
de falar somente à dona de casa ou à sua empregada –seu público
majoritário no início. Hoje aqueles homens, aqueles empresários
e profissionais liberais (homens e mulheres) que no passado já procuravam
suas aulas como uma alternativa de lazer, lotam os vários cursos
de culinária oferecidos pelo país afora. Sua escola passou a chamar-se
simplesmente Escola Wilma
Kövesi. E a relação que ela construiu com o público e com
os profissionais foi tão intensa que, mesmo com a partida de Wilma,
a escola continua, tocada por sua filha Betty Kövesi Mathias (que
ali já trabalhava) e por um trio de profissionais que passam a auxiliá-la
na definição dos seus rumos (Carlos Siffert, Carole Crema e Gabriela
Martinoli).
Wilma não foi só sua escola. Sua paixão pela gastronomia a levou
a muitas outras atividades. Escreveu livros, deu consultoria
para empresas de alimentos, me ajudou quando iniciei meu evento
Boa Mesa em 1995 (e participou sempre desde então), participou do
Basilico também desde que lançamos o site em 2000, tanto
com uma página própria, o Jornal
Wilma Kövesi, quanto ajudando a resolver dúvidas dos internautas
na área SOS
Gourmet.
Tratada com carinho por todos os chefs de cozinha (os mais importantes
dos quais passaram por sua escola, dirigindo aulas), Wilma tornou-se
um personagem da cena gastronômica do país, na qual ganhou espaço
por sua múltipla atividade como professora, autora e participante
de inúmeros eventos.
Decadência do Boa Mesa
Quando as pessoas morrem, tende-se a falar apenas do que elas fizeram
de melhor, e esquecer as divergências. Para os que me conhecem e
a conheceram, seria cinismo se eu não mencionasse aqui um fato
notório, o de que Wilma e eu nos afastamos um pouco nos últimos
dois anos. O motivo foi o Boa Mesa, evento que eu criei, vendi
para um banco em 2000 e no qual continuei atuando como curador por
dois anos. Em 2002 eu saí do evento, dados os rumos que seus novos
proprietários anunciavam para ele (desqualificação das aulas e cursos,
inchamento do salão de produtos, perda de critérios de qualidade
gastronômica, tudo isso em prol de conseguir lucros rápidos).
Como noticiou à época a “Gazeta Mercantil”, com a minha saída os
banqueiros convocaram quatro (quatro!) curadores para executar aquilo
que eu fazia... Para minha decepção, Wilma Kövesi foi uma delas.
Eu expliquei a ela, naquela época, porque isso me entristecia. Primeiro,
porque os banqueiros estavam me dando o calote, não me pagando (até
hoje) quase um ano de trabalho, o que já seria motivo de uma solidariedade
pessoal, acreditava eu. Segundo, mais importante, porque eu antevia
o que aqueles homens sem refinamento, sem cultura (de gastronomia
ou outra) e ávidos por dinheiro fácil, escravos de planilhas que
tampouco sabiam ler, fariam com o evento: sua transformação de
templo de cultura gastronômica em um feirão de mau gosto, um
sacolão com filas de gente em stands à espera de brindes baratos
e aulas tediosas e sem novidades. Um evento que antes trazia chefs
franceses três-estrelas como Alain Passard, que fazia degustações
com vinicultores como Aubert de Villaine (do Romanée-Conti) passava
a ter, como principal “atração internacional”, um dono de cadeia
de restaurantes americanos cujo principal “mérito” divulgado é ter
sido considerado pela revista "People" um dos 50 homens
mais bonitos dos Estados Unidos!
Eu não queria que a Wilma, companheira de primeira hora, fosse protagonista
desta triste decadência do Boa Mesa. Ela decidiu ficar, porém; mas
mesmo a isso eu reputo não somente a vaidade, mas um impulso que
me comove – o de querer ficar até o fim ligada a um evento que,
em que pese a débâcle promovida pelos banqueiros, foi um rebento
que ela ajudou a ninar.
E quer saber? Duvido que daqui a alguns anos, ou mesmo meses, alguém
se lembre da Wilma como personagem da decadência do Boa Mesa. Ela
vai ser muito mais lembrada pelos heróicos primeiros anos do evento,
pela bela permanência da escola que ela erigiu durante um quarto
de século, pelas receitas indispensáveis de pelo menos um de seus
livros, “Receitas
para Todo Dia e para Outros Também”. E pelos conselhos e
ensinamentos que ela distribuía com sua língua afiada, seus comentários
desbocados, sua saudável teimosia que às vezes chegava às raias
da impertinência, suas contribuições em qualquer debate ou conversa
sobre gastronomia – onde felizmente ela nunca deixou de dizer o
que pensava. Com impetuosidade e sabedoria.
LEIA WILMA KÖVESI NO BASILICO
Sobre o livro “Receitas
para Todo Dia e para Outros Também”
Relato de viagem: Vail
Relato de viagem: Aspen
Artigos
no Jornal Wilma Kövesi
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