Para mim, cozinhar
é um ato de fé, de pura paixão. Quando
cozinho para inventar uma receita nova, me esqueço do mundo,
me concentro em tirar o melhor de cada ingrediente para combiná-lo
de forma ideal e, com sorte, obter, logo na primeira vez, um bom
e "redondo"resultado final.
Mas falemos da cozinha
contemporânea praticada em nossa cidade, embora as definições
abaixo se apliquem a todos os que praticam essa nobilíssima
arte, que hoje está até na moda.
Há os
cozinheiros que, pretensiosos e pouco experientes, se põem
a criar de forma errática: pegam ingredientes caros dali,
misturam com os corriqueiros daqui e apresentam o resultado ao comensal
com grandes ares, certos de que produzirão todos os ohs!
e ahs! a que acham que têm direito, o que raramente ocorre.
Fica mais complicado
quando o “criador” vem à mesa para, em um misto
de gentileza e pretensa segurança, perguntar se está
tudo bem, forçando-nos a inventar, rapidinho, uma resposta
inteligente, polida e quase inverídica.
Na minha opinião,
falta a esses aspirantes a chef, além de modéstia,
uma cultura geral de cozinha que lhe aponte um caminho mais
seguro e sábio para um prato de sucesso. São
estrelas de brilho efêmero, de curta trajetória no
rigoroso mundo da verdadeira cozinha.
Outros há que,
com forte intuição, talento mesmo, chegam com entusiasmo
a ótimos e vigorosos resultados, espelhando uma cozinha equilibrada,
mas de marcante personalidade. São artistas incansáveis,
que travam a dura batalha diária para manter a qualidade,
tão duramente conquistada.
E, finalmente, os craques:
os verdadeiros chefs, donos de abrangente conhecimento da cultura
e perfeito domínio das técnicas de cozinha, sábios
equilibristas de sabor, textura e apresentação que,
além desse exercício de talento, se vêem às
voltas com compras, custos, serviço e tantos outros
detalhes que não nos ocorre quando sentamos à mesa.
Pseudocantinas
O público é impiedoso, implacável,
muitas vezes injusto e, ao decretar "uma droga de
restaurante, não volto mais!", se esquece que, dentre
as minúcias da composição de um prato, algum
detalhe pode ter sido mal executado por um auxiliar que brigou com
a namorada ou cujo salário acabou antes do mês. E não
volta mesmo, relegando aquele restaurante ao mais radical esquecimento.
E, já que falamos
no público impiedoso, porque ele não age como tal
quando as pseudocantinas lhes jogam pratadas de massa-mingau submersa
em molho 4 queijos? Ou quando são, com grandes ares, arrogantemente
explorados em restaurantes de investimentos milionários
e cozinha paupérrima?
Aproveitando a deixa
e já que estou divagando, vocês não acham que
a palavra “chef” (e não “chefe”,
por favor!) é hoje usada a torto e a direito? Quem
tem o direito de se auto-intitular "chef"? Na
França, onde nasceu o vocábulo, enche-se a boca antes
de pronunciá-lo, dispensando-se o nome próprio, um
pouco como antigamente se dizia, com reverência: o doutor
isso, o doutor aquilo...