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Nunca
o Brasil esteve tão antenado às mudanças e
novidades do mundo gastronômico. O fácil acesso a
notícias e livros, além da presença de chefs
internacionais em solo brasileiro nos dão uma amostra do
que acontece lá fora.
Uma culinária
que tem recebido destaque, mas ainda pouco conhecida por aqui, é a
peruana. A revista espanhola “Vino
+ Gastronomia” de agosto dedica 8 páginas da publicação
de agosto ao ceviche, um dos maiores símbolos da
culinária do Peru. “Nos últimos 20 anos a cozinha
peruana, até então desconhecida, protagonizou uma
silenciosa revolução, que a colocou entre os primeiros
lugares da cozinha mundial”.
Um dos representantes
desta “revolução”,
o chef Gaston Acúrio, do restaurante Astrid y Gastón
(em Lima e em Santiago), levou sua cozinha à última
edição do importante evento espanhol Madrid
Fusión, do qual participaram chefs internacionais de primeiro time.
Mas
por que os aromas peruanos ainda não entraram no circuito
nacional? A parca quantidade de imigrantes no Brasil (são
cerca de 35 mil) e a falta de ingredientes do país podem
explicar a ausência de pratos desta culinária em nosso
roteiro gastronômico. São poucos os restaurantes que
a representam, e chefs entusiastas, como Carlos Siffert, se esforçam
para dar autenticidade aos pratos. “Comecei a plantar 3 tipos
de pimenta peruana, vamos ver se vai dar certo”, torce ele.
Enquanto os “frutos” não
são colhidos,
os fãs paulistanos têm de se contentar com
o festival anual que o Consulado Peruano realiza na capital paulistana
com a presença
de chefs representantes – em agosto último, Eduardo
Castañon, do La Rosa Nautica, e Tereza Isquierdo, do El
Rincón que No Conoces, comandaram as caçarolas do
restaurante Tarsila, do Hotel InterContinental. Se
atiçamos sua curiosidade, aproveite para conhecer um
pouco da cozinha que vem conquistando seu espaço na gastronomia
mundial.
Divulgação |
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Ceviche |
Clima
e regiões
A riqueza em
ingredientes deve-se à diversidade climática. O
país
reúne 84 dos 104 ecossistemas existentes no mundo. Essas zonas
são agrupadas em 3 grandes regiões: costa, serra (Andes)
e selva (Amazônia). A primeira disponibiliza mais de mil espécies
comestíveis entre peixes e frutos do mar, como corvina, lagosta
e linguado. A preparação mais comum é o ceviche (veja
este e outros pratos típicos ao final da reportagem). Da segunda
chegam a batata, milho, além de carnes de cuy (parecido
com porquinho-da-índia) e ají (tipo de pimenta).
Já a última é regida por carnes de caça
que normalmente são acompanhadas de banana e mandioca, além
de peixes de rio.
Harmonia
entre tradição e
o novo
A civilização inca deixou muitos traços culturais
na culinária peruana. Eles foram responsáveis pelo
cultivo de batatas e milhos, 2 dos mais importantes ingredientes
locais (confira ao final da reportagem). O consumo de carne de
alpaca (animal parecido com a lhama) e de cuy também
era costume dos incas, além do uso de pimentas: são
mais de 40 tipos, entre eles o ají, usado no ceviche.
Um dos pratos criados na época que permanecem intactos é o pachamanca. Com a chegada dos espanhóis, que, por sua vez, sofreram
influência árabe, novos ingredientes foram incorporados à culinária
peruana, como trigo, uvas, arroz, laticínios, cebolas e
azeitonas. Um dos pratos resultantes dessa mistura é batatas à la
huancaína, cobertas com molho à base de queijo.
Já os escravos africanos transmitiram o hábito de
consumir sobras e tripas. O tacu tacu é um exemplo:
leva arroz, feijão, banha de porco e pimenta.
Por
volta de 1850 foi a vez dos chineses se instalarem em solo
peruano e trazerem novas técnicas, como a da fritura,
adotada no lomo salteado. A última imigração,
dos japoneses em 1970, valorizou o consumo dos pescados e originou
a cozinha nikkei, que combina pratos japoneses com ingredientes
peruanos. Um chef que carrega esta bandeira é Nobu Matsuhisa,
do famoso restaurante que leva seu nome. Nascido no Japão,
Matsuhisa incorporou novos sabores à sua cozinha quando
morou no Peru, difundindo-a em seus estabelecimentos dos Estados
Unidos, Japão, Itália e Inglaterra.
A cozinha do
momento, porém, é a nueva cocina andina,
que combina aromas e sabores da terra e técnicas estrangeiras. Jovens
chefs passaram a estudar em países como França
e Itália e retornaram ao Peru com nova bagagem, aplicada
aos ingredientes locais, dando uma nova feição à cozinha
tradicional. “É uma trajetória parecida com
a do Brasil, já que nossos chefs estão se voltando
para nossos ingredientes de raiz”, compara Siffert. Algumas
criações nessa nova linha incluem espuma de quinua e guanábana (fruta
parecida com chirimoya), antojos (petiscos) de
queijo em molho de maracujá, salada fresca de escargot com quinua,
flan de queijo e flocos de cevada.
| Divulgação |
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Milhos |
Batata
e milho
Tanto a batata quanto o milho têm variedades de deixar qualquer
estrangeiro boquiaberto. São mais de 4 mil tipos de batatas
catalogadas, plantadas pelos incas ao longo de terraços
na Cordilheira dos Andes. As amarelas são as preferidas
dos peruanos; ainda há as brancas, negras e doces – esta última,
companheira de muitos pratos locais. O Peru é o
país com a maior diversidade de tipos de milho – são
35 variedades. Suas cores vão desde o branco e amarelo
até o morado (negro) e avermelhado, e a utilização é bem
variada: fervido, tostado, como bebida (chicha) e doce.
Entre os pratos que levam milho estão o pepián (guisado
de peru com milho ralado, cebola, alho e ají,
típico do Norte do país), o soltero (favas,
milho, cebola e queijo fresco, encontrado em Arequipa, Sul do
país) e o tamale doce, que lembra a nossa pamonha.
Ceviche e pisco
São os produtos mais emblemáticos do país.
Originário do Norte do Peru, o ceviche é feito
a partir do peixe marinado num ácido e aromatizado com ají.
Prato típico de pescadores, originalmente era marinado com
maracujá e, com a chegada dos espanhóis, introduziu-se
o limão. O prato chegou a Lima no século 19 e foi
inicialmente adotado pelas camadas pobres. Somente no século
seguinte entrou no cardápio de restaurantes. No Norte do
país, é comum encontrar ceviche de conchas;
em Lima, de linguado e corvina; e no Sul, de frutos do mar.
O pisco é o
aguardente de suco de uvas criado na cidade que lhe deu nome,
a 350 km de Lima. O nome vem de piscco (“pequena
ave”, no dialeto regional) e começou a ser produzido
depois da chegada dos espanhóis, que trouxeram as videiras.
Entre as uvas usadas estão a Quebranta, Preta, Mollar, Itália,
Torontel, Albilla, Moscato e Uvina, e seu grau alcoólico
pode chegar a 46%. O pisco sour é o
drinque mais representativo da bebida. Conheça alguns tipos
de pisco, declarado Denominação de Origem
e Patrimônio Nacional desde 1995:
Puro: feito
de variedades de videira não-aromáticas
como a Quebranta ou Mollar. É um pisco suave.
Aromático: com uvas aromáticas,
como Moscato, Itália ou Albilla.
Aromatizado: quando na destilação
são adicionadas frutas como limão, manga e figo.
Acholado: a partir da mistura de mostos de variedades
distintas de uva.
Mosto verde: obtido da destilação
do mosto de fermentação incompleta.
| Pratos
típicos |
Ceviche de pescado (Lima): pescado
fresco misturado com cebola roxa, suco de limão, sal
e um toque de ají.
Lomo saltado
(Lima): pedaços de filé mignon,
dourados e temperados com cebola roxa, tomate e pimenta
amarela. Leva também coentro, vinagre e molho
de soja. Para acompanhar, batatas fritas amarelas e arroz
branco.
Divulgação |
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Chupe de camarones |
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Chupe de camarones (Arequipa): caldo
concentrado à base de coral de camarões,
pimenta panca tostada, ovo escalfado (pochê),
batata amarela, arroz, queijo e leite.
Pachamanca (Cusco): carnes,
milhos, batatas, favas e ervas aromáticas, colocadas
num buraco cavado na terra e revestido com pedras aquecidas.
Fica pronto depois de algumas horas de cozimento.
Juanes de
galinha (Amazônia peruana): arroz temperado
com variedade de especiarias (pimenta urucum, cominho,
coentro, orégano e louro). A mistura é envolvida
em folhas de bananeira com pedaços de frango,
ovo cozido e azeitona e fervida por alguns minutos.
Suspiro a
la limeña (Lima): pudim feito
com gemas, calda de açúcar com vinho
do Porto, coberto com merengue e com um toque de canela
em pó.
Pisco
Sour (Lima e Ica): drinque elaborado
com pisco, clara de ovo, suco de limão,
açúcar, gelo picado e angostura. |
Onde comer comida peruana no Brasil
Buffet
de Carlos Siffert (www.tamborcozinha.com.br, tel.
0xx11/3097-0126)
Wanchako (r. São Francisco de Assis, 93, Jatiúca,
Maceió, tel. 0xx82/3377-6024), com 1 estrela no “Guia
4 Rodas”
Intihuasi (r. Barão do Flamengo, 35, Flamengo, zona sul,
Rio de Janeiro, tel. 0xx21/2225-7653)
Receitas: http://www.artperucuisine.com (inglês
e espanhol)
http://www.perumuchogusto.com (espanhol)
Informações: www.peru.info
Publicado
em: 15/09/2006 |