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Caro Luiz, Você que agora coordena as edições de gastronomia da editora DBA (e foi responsável pelo saboroso "O Melhor da Gastronomia e do Bem Viver"; você que antes disso já era tão ligado ao mundo dos livros, deve estar tão chateado quanto eu depois de ver a notícia da morte da Julia Child. Mulher que
foi um fenômeno nos Estados Unidos também em matéria
de livros: foram 12 obras publicadas em sua carreira, que na
verdade, como autora, começou quando ela já tinha 49 anos.
Seu primeiro livro, de 1961, foi "Mastering the Art of French Cooking"
("Dominando a Arte
da Cozinha Francesa" -, que ela escreveu com 2 colegas com as
quais criara uma escola de cozinha na França, país para
o qual se mudara com o marido em 1948 para só voltar aos Estados
Unidos no início dos anos 60. Tal magnetismo era derivado da sua aura pessoal, certamente, mas também da mítica que justamente se criou em torno dela. Afinal, Julia teve para os Estados Unidos um papel parecido com o que teve Elizabeth David na Inglaterra: ensinar àqueles calvinistas anglo-saxões a arte e o prazer da boa mesa. Elizabeth David fez isso usando apenas o poder da pena, e mostrou aos ingleses o que eram as cozinhas francesa e italiana. Julia teve uma arma a mais: a televisão, onde ela estreou seu primeiro programa em 1963 ("The French Chef"), o primeiro dos 9 que ela teve (sempre na PBS, emissora pública norte-americana – você pode ver trechos do programa no site da PBS, onde ela apresenta receitas executadas por convidados, como outro rei da mídia e dos livros, seu freqüente colaborador nos últimos anos, Jacques Pépin, que com ela escreveu sua última obra. Vi uma aula de culinária que Julia proferiu num evento em Aspen, exatos 10 anos atrás. Foi preciso abrir todo o imenso salão de baile do Ritz-Carlton para acomodar as quase mil pessoas que queriam vê-la. Lá no fundo, no palco, ela (retransmitida por telões) pôs-se a ensinar um pequeno anátema para os americanos impregnados da obsessão por comida saudável: a receita do dia era quiche lorraine, clássico francês, sobre a qual ela provocava a platéia explicando a imensa quantidade de ovos e bacon necessários... sempre com uma taça de vinho ao lado. E embora ela estivesse criticando aquelas pessoas que abdicavam do prazer com tanta facilidade, aquelas mesmas pessoas não resistiam, e riam às gargalhadas com a verve da velha senhora. Com seu jeito desenvolto, informal na TV, agindo às vezes com tropeços como se estivesse na cozinha da casa de qualquer um, Julia Child tornou-se tão rapidamente uma referência para o público americano que em 1967 foi capa da revista "Time" – e, atualmente, sua cozinha está exposta no Smithsonian Institute em Washington. Se começou como a dama da cozinha francesa, com o passar dos anos Julia passou a incentivar o renascimento de uma moderna cozinha norte-americana. Protótipo e ídolo da dona-de-casa esperta e moderna, ela terminou influenciando igualmente os profissionais das novas gerações. Quando a vi algumas vezes nas salas de imprensa de eventos, dando entrevistas para jornalistas de todas as idades, percebi que eles ali não estavam apenas entrevistando uma personalidade. Ficavam embevecidos, aprendendo. Julia Child, antes mesmo de nos deixar, já havia virado um mito, uma instituição. Josimar
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