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Comer
/ Visite o restaurante

Por
Breno Raigorodsky, da Itália
| Breno
Raigorodsky |
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Lorenzo
Viani
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Restaurante
estrelado, a mais de 100 km de qualquer centro urbano, é
exemplo da força gastronômica da Itália
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Quando passei direto
por Forte dei Marmi em direção a Cinqüe Terre, o guia
“Viaggiar Bene del Gambero Rosso” que eu acabara de adquirir
começou a apitar. Guias impressos não costumam apitar, mas
o apito foi inevitável porque eu tinha acabado de ler que em Forte
dei Marmi ficava o restaurante Lorenzo “... a melhor cozinha
de peixe de toda a península”. “Lorenzo Viani
é provavelmente o restaurador ‘mais amado dos italianos’”,
continuava o verbete, “e para encontrar lugar em seu restaurante
é preciso fazer reserva com muita antecedência... Por este
ano, Três Garfos [a cotação máxima]
mais do que merecidos!”
Tomei conhecimento
da existência de um guia rodoviário “Gambero Rosso”
ao pesquisar, num bar de estrada, um mapa mais detalhado, com letras e
indicações maiores e mais compatíveis com a idade
dos meus olhos. Meu plano era sair da sisuda auto-estrada e subir por
caminhos mais lentos, mais ligados à história das comunidades.
Antes de me dar conta
de que o guia era um produto “Gambero Rosso”, que, em si, já
serviria de indicação,
li na contracapa que ele tinha análises ao estilo do guia “Gault
Millau” – conforto, limpeza, modernidade, boa vista, localização
e preço, mas também carta de vinho, qualidade da cozinha,
capacidade de inovação. Não apenas de restaurantes
e hotéis, mas também de cantinas e bar a vin.
O “Gambero Rosso”
entrou com estilo neste rentável mercado de guias, em que já
reina a Dorling Kindersley (com seu guia traduzido para o português
pelo PubliFolha), o Touring Club, que produz os guias mais charmosos e
bem acabados da Itália, a Hachette, com a bíblia do mochileiro
“Guide du Routard”, e os “Michelin” tradicionais,
sinônimos de guias confiáveis.
Na capa, o subtítulo
irresistível: “Hotéis e restaurantes da Itália
para turistas gulosos e curiosos”. Ou seja, um guia pra
mim. Além disso, o mapa propriamente dito era muito mais detalhado
do que outros à disposição.
O “Gambero Rosso”
traz o mais respeitável elenco de vinhos italianos e seu ponto
de vista a respeito do cruzamento entre inovação e tradição
culinária é referência para os seguidores dos princípios
da boa comida desde os primórdios da Archigola (o movimento gastronômico
originado na cidade de Brá que, atualmente, leva o nome de Slow
Food). É muito sério e deve ser levado a sério.
Chega de falar do
guia.
Depois de alguma confusão,
saí da auto-estrada em direção a Forte dei Marmi
e parei numa barraquinha de frutas e outros produtinhos na entrada da
cidade, só para perguntar onde ficava o tal monumento gastronômico.
Surpresa: a barraquinha tinha
Breno
Raigorodsky |
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Ovolo
Buono |
todos os tipos
de cogumelos que se pode imaginar!!!!
Depois
de meia hora conversando sobre os cogumelos da região, fomos, eu
e minha mulher, atrás das indicações que nos levariam
ao importante restaurante. Até aqui, a não ser pela barraquinha,
Forte dei Marmi não passava de uma cidade do interior de qualquer
país com auto-estrada. Ou seja, não tinha, ainda, mostrado
personalidade.
Mas conforme fomos
nos aproximando do restaurante, as ruas arborizadas e as espaçosas
casas de bom gosto pelo caminho faziam com que o balneário impusesse
respeito ao turista e começasse a justificar porque um
restaurante desta importância daria certo num lugarzinho perdido
no mapa.
Foi fácil achar
o Lorenzo, um local surpreendentemente sóbrio, sem qualquer afetação
na fachada. Decidi dar uma volta pela cidade, ir até a praia e
não ficar apenas girando em torno da porta do restaurante até
tomar coragem e entrar... para sei lá o que fazer lá dentro!
Depois de um Campari
e algum tira-gosto à beira-mar, num bar de jovens restauradores,
tomei coragem e entrei. Apresentei-me ao maître do serviço
como alguém que vinha de São Paulo, Brasil, um turista publicitário,
especialmente interessado em gastronomia. Disse que não queria
nada além de um cardápio como souvenir, não estava
com fome, não estava vestido apropriadamente, estava de passagem,
mas não podia deixar de entrar naquele restaurante tão prestigiado.
Não sei se
o maître entendeu alguma coisa, só sei que ele me
levou ao próprio Lorenzo e pediu que eu repetisse a minha história.
Pois a reação do Lorenzo foi surpreendente. Disse que, tudo
bem, o cardápio era meu, mas que ele não ia me deixar
embora sem fazer uma boquinha. Disse-lhe que não estava
com fome, que minha mulher estava lá fora esperando no carro, que
eu estava mal vestido, que estava com pressa para chegar em La Spezia,
mas não adiantou... fui obrigado a chamar minha mulher e sentar-me
numa das mesas, já que era cedo demais e havia algumas desocupadas.
Serviram-nos um Colli
di Lune Vermentino, o Giacomelli. Como eu continuava dizendo que não
queríamos nada, Lorenzo em pessoa decidiu o que íamos ter
como degustação:
1. 5 ostras tartufi,
pequeninas e saborosas; 2 inatingíveis Belon Royale; scampo della costa toscana... um parente pequenino de lagostim. Todos crus, sobre um
prato de metal, todos excelentes, particularmente as Belon, que eu vinha
namorando desde que passara pela bancada de ostras do Pied de Cochon de
Paris, em frente ao velho mercado Les Halles, nos idos de 1972;
2. Carpaccio de
pagello, um peixe muito apreciado por lá; tartar de
galine i capone, feito simplesmente com azeite, salsinha, tomate e
cebolinha; filé de trilha marinado no limão;
3. Uma interessante combinação de 2 espécies de camarõezinhos
fritos e 1 croquete feito com os 2 animais, com um tempero à base
de tomilho e limão.
4. Calamaretti, minúsculas
lulas em uma base de vinho branco, azeite e salsinha.
Para mim bastava,
mas ganhamos, de cortesia, um café acompanhado de docinhos e, do
vizinho de mesa, um vinho branco da Franciacorta, o maior clone de Chablis
que eu já tomei.
Lorenzo impressiona,
principalmente por fazer parte de um prestigiado roteiro de grandes restaurantes
numa cidadezinha a mais de 100 km de qualquer centro urbano desenvolvido,
como Florença ou mesmo Livorno. Seu público vem de Lucca,
Pisa, La Spezia e de toda a Itália, apesar da costa toscana não
ter o prestígio internacional da sua vizinha Ligúria, com
a Cost’Azzurra.
Impressiona por ser
um exemplo típico da malha de restaurantes de primeiro nível
que se encontra na Itália inteira, o que faz a força gastronômica,
talvez inigualável, deste país.

* Breno Raigorodsky é filósofo, publicitário
e gourmet. Escreve regularmente sobre vinhos e comida.
Publicado em:
24/01/2006
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