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Comer
/ Visite o restaurante

Por
Breno Raigorodsky
| Breno
Raigorodsky |
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Fachada
do restaurante
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O
prato é um dos destaques do
pequeno restaurante Girassol do
Alentejo, em São Paulo, de boa relação
custo-benefício
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Ao passar
os olhos pelas paredes do pequeno e simpático restaurante Girassol
do Alentejo, do chef Paulo Sobral Mateus, repara-se em uma série
de artigos escritos por vários críticos gastronômicos,
emoldurados e fixos como quadros decorativos. Ao lê-los, veio-me
à cabeça o ator Sean Connery. Não o que se tornou
um dos mais requisitados profissionais de Hollywood, mas aquele que abriu
espaço na mídia, aquele que ainda cobria a careca precoce
com um topete postiço e atendia pelo nome de James... James Bond.
Todos os artigos nas paredes do Girassol tecem comentários sobre
o local, que é realmente muito agradável. Todos
ressaltam o bom atendimento. Mas o destaque mesmo vai para o bacalhau
bem feito e barato, na contramão dos restaurantes de origem
lusitana que estão sempre entre os mais caros.
Paulo parece ser um fenômeno quase inédito na gastronomia
paulista, ao menos com esse refinamento, este jeito de bistrô.
(O “quase inédito” fica por conta de um boteco genial
atrás do Hotel Mercure do Paraíso, numa ruazinha que desemboca
na Tutóia — esta, de triste lembrança para quem viveu
os anos da Ditadura. O local é freqüentado pelo pessoal de
cinema publicitário das redondezas e por franceses que se hospedam
no Mercure, e ficou conhecido pelo nome de Chez Rosa).
Pois então, a estrela do Girassol não é suficientemente
realçada, pois poucos articulistas sabem que o bacalhau servido
é quase que exclusivamente Gadus morhua*
(às vezes, o fornecedor não entrega o produto, e o restaurante,
que vive daquilo, compra outro tipo mais simples, o que é raro,
mas já aconteceu. Afinal, Paulo não quer confirmar o velho
e cauteloso ditado “o mundo gira e os lusitanos rodam”).
É sabido que Sean Connery teve muitas dificuldades para aposentar
sua peruca de herói. De 1962 a 1967, personificou o charmoso e
irreverente personagem da Guerra Fria de Ian Fleming, o espião
inglês autorizado para matar nº 007, que contrapunha cultura,
sofisticação, ironias, sexo, bebidas e know-how
à cara feia dos ortodoxos brutamontes que vinham do outro lado
da cortina de ferro para enfrentá-lo.
Sean não era Connery - era Bond... James Bond. Sua identidade artística
estava tão colada à sua face que o mundo não deu
muita bola à sua atuação em “Marnie –
Confissões de uma Ladra”, um drama com roteiro de qualidade,
densidade e conteúdo. Para todos, público e produtores,
Sean Connery nada mais era do que o grande galã e aventureiro inglês,
e sua luta para se desvencilhar desta roupagem durou mais de década.
Como Connery, o chefe do Girassol do Alentejo é vítima de
suas próprias qualidades. As pessoas reconhecem nele o homem que
serve bacalhau acessível. Seu mérito maior parece
ser o de formular uma ou outra receita com muitos elementos baratos e
pouco bacalhau.
Não é bem assim. Paulo é um alentejano neurocirurgião,
que fugiu da medicina peninsular – sabe-se lá porque razão
- e decidiu graduar-se na centenária Le Cordon Bleu de Paris.
Acabou administrando um hotel estrelado pelo guia Michelin na Suíça,
o Mowenpick. Antes e depois, rodou a Europa gastronômica de mochila
nas costas para conhecer o ofício dos outros chefs. Ou seja, não
é um cara que veio do Sul de Portugal para tentar a sorte cozinhando.
É “profissa”. Além de fazer comida, aprendeu
a repetir os processos na cozinha, a se organizar nas compras, a escolher
funcionários, a administrar a difícil equação
entre os custos e os gastos em um restaurante.
Assim dito, coisas como foie gras, caviar de esturjão,
trufas brancas não são caras ou baratas. Comer no Fasano
pode parecer mais barato pelo prazer oferecido do que comer a pizza mal
assada e fria da esquina. É o custo-benefício favorável
ao consumidor que nos impressiona. E isso aparece não
apenas nas receitas de bacalhau, mas em todos os outros pratos —-
inclusive os do dia – sejam de entrada, sejam de sobremesa (doces
portugueses feitos em casa, quase sempre cheios de ovos e açúcar).
Decididamente, Paulo leva a sério o que me disse, tentando definir
o papel do cozinheiro: alguém que conhece os elementos e sabe como
tratá-los, não simplesmente um misturador de temperos. Há
criatividade sem exageros ou frescuras, mas, principalmente, há
cópia feita com carinho. O prato de que mais gosto é
o Zé do Pipo, que nada tem em comum com outros que comi: este vem
com batatas ao murro e cebola, simplesmente.
Realce necessário – a Janete, responsável pelo salão,
consegue a façanha de deixar todo mundo à vontade desde
o primeiro contato. É entrar e gostar. Ex-auxiliar de nutricionista,
sabe transmitir seu interesse no que faz, passa a sensação
de que está lá para crescer. Consagra então
um atendimento atencioso e detalhado, sem formalismos. Isto vale para
quem é assíduo e para quem não é.
Parece difícil, mas acho que vão acabar reconhecendo que
Paulo está mais para Connery do que para Bond.
* Pausa para uma palavrinha
sobre o Gadus morhua – ele é superior ao Ling, apesar
de não tão bonito, tão claro e sem fibra; e é
infinitamente superior ao Saithe (que tem sabor forte demais e carne escura),
ao Zarbo (menor e mais barato) e ao Gadus macrocephalus (o bacalhau
cabeçudo do Pacífico), que anda enganando os incautos, pois
a carne assemelha-se à do morhua no ponto de venda (só
no ponto de venda).
Receita: Zé
do Pipo à moda de Setúbal
Girassol
do Alentejo
R. Girassol, 654, Vila Madalena, zona oeste, São Paulo, tel.
0xx11/3814-7710 |
Publicado em:
23/09/2005
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