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Por Cristiana
Couto
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| Miguel
Torres |
Uma conversa com Miguel Torres, cuja família trabalha com a vinha
na Catalunha desde o século 17
Quando encontrei Miguel
Torres no hall do hotel Fasano, sentado em uma das generosas poltronas
de couro que quase o abraçavam por inteiro, tive um quê de
estranhamento, pois esperava-o mais alto e corpulento, talvez por conta
da estatura conferida a este espanhol na vitivinicultura de seu país.
Entretanto, ao começarmos a entrevista, o “ rei dos
vinhos da Espanha” (como a revista “Decanter”
o coroou certa vez) pareceu-me um gigante. Sua tranquilidade e entusiasmo
diante dos novos projetos, a confiança com que conduziu suas investidas
inovadoras já na década de 60 e a humildade ao falar de
si mesmo (e seu reconhecido sucesso) colocam à mostra a força
e a energia de um homem que, após mais de 4 décadas dedicando-se
à companhia, ainda tem muitos anos de reinado e de contribuição
à indústria dos vinhos espanhóis.
Divulgação |
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A
família Torres |
Durante nossa conversa,
que durou cerca de 1 hora, mapas, fotografias e trabalhos acadêmicos
foram tirados de sua pasta no intuito de ilustrar parte da trajetória
de uma das mais antigas e maiores bodegas familiares da Espanha,
cuja ligação com o vinho tem mais de 300 anos —
trajetória essa impossível de resumir numa reportagem. Ao
longo desse caminho, entretanto, algo em comum parece ter conduzido os Torres
ao lugar de destaque que ocupam: pioneirismo.
A história
desta família começa em Penedès, no século
17, com o cultivo de uvas por seus antepassados. No início do século
19, os Torres passaram a comercializar internamente o produto —
à época transportado em barricas — e enviá-lo
para fora do país, com destino a Cuba, Argentina e Porto Rico.
Em 1870, construíram a 1º vinícola em Penedès
(eles também destilam brandies desde o ínício: Juan
Torres Casals, da 3ª geração da família, tornou-se
um grande promotor deles em 1928).
Bombardeada em 1939
durante a guerra civil espanhola, a vinícola foi reconstruída
pelo pai de Miguel, Miguel Torres Carbó, que também começou
a engarrafar seus vinhos, nos anos 40, e a expandir a marca, levando pessoalmente
seus rótulos aos melhores restaurantes e comerciantes da época.
Sangre de Toro tornou-se, algum tempo depois, uma espécie de emblema
do vinho espanhol. “O desejo de Miguel Torres Carbó era pôr
à venda pelo menos uma caixa de seu vinho em qualquer país
do mundo”, lembra o jornalista Andrés Proensa, em seu “Guia
Proensa” de vinhos.
| Divulgação |
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Vinhedos
do Priorato |
Mas foi seu filho,
Miguel Torres, que trabalha na companhia desde 61, quem transformou a
empresa num negócio de estatura internacional, com ramificações
no Chile e na China, exportando para 130 países. Em 1979, Miguel
Torres compra os primeiros vinhedos no Vale do Curicó, tornando-se
uma das primeiras companhias estrangeiras a adquirir vinhedos no Chile.
No início dos 80, a família funda outra vinícola,
desta vez na Califórnia, na região de Green Valley, no condado
de Sonoma. A Marimar Torres Estate, comandada pela irmã de Miguel,
Marimar, é uma vinícola dos novos tempos: orgânica,
em processo de transição para o cultivo biodinâmico.
Foi ele também
um dos pioneiros na introdução de variedades internacionais
na Espanha, na década de 60, e um dos primeiros a apostar em novas
regiões vinícolas de seu país, como Toro e Jumilla.
Formado em química, com especialização em enologia
e viticultura, Miguel Torres investe a fundo em pesquisas que vão
desde a identificação de uvas autóctones espanholas
quase desaparecidas aos estudos que envolvem a relação entre
vinho e madeira. Em 1970, por exemplo, introduziu na bodega a
então revolucionária técnica de controle de temperatura.
Segundo reportagem da revista “Wine International”, que o
elegeu, em 2005, uma das 3 personalidades do mundo do vinho por seu caráter
inovador, “Miguel Torres ajudou a criar e desenvolver a indústria
do vinho espanhol e chileno do século 21”. “Ele redefiniu
o modo como pensamos o vinho espanhol e, no Chile, o nome Torres tem dado
aos outros confiança para seguir em frente”, avalia a editora
da “Decanter”, Sarah Kemp, em artigo da revista.
Divulgação |
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Bodega
em Mas la Plana |
Atualmente, a Torres
elabora cerca de 40 rótulos, em todos os segmentos. O clássico
Mas
la Plana (Penedès), sempre bem pontuado, é considerado pela
“Wine Enthusiast” o rei dos cabernets espanhóis,
e o Sangre de Toro, na outra ponta da pirâmide, é o líder
de vendas da empresa. Já a marca Coronas comemora este ano um século
de existência, e o elogiado Grans Muralles resgata uvas catalãs
praticamente desaparecidas, como Samso e Garro.
Ao todo, são
4 milhões de caixas comercializadas por ano (40% para o mercado
interno e 60% para o externo), o que torna a Torres a líder de
exportação de vinhos finos na Espanha (com exportação
só comparável às de empresas de Cavas, como Freixenet
e Codorníu). No Brasil, os vinhos Torres são comercializados
pela Reloco (tel. 0xx21/2580-0350). Confira, a seguir, a entrevista concedida
por Miguel Torres ao Basilico.
Basilico -
O senhor foi um dos pioneiros na introdução, nos anos 60,
de cepas internacionais na Espanha. Como sua experiência em Bordeaux
influenciou nessa decisão?
Torres – Na Catalunha,
nos anos 60, haviam desaparecido quase todas as cepas antigas por causa
da Philoxera. As uvas catalãs, como Xarel-lo e Parellada, eram
corretas, mas não tinham grande qualidade naquela época.
Comecei a trabalhar na vinícola em 61. Naquele tempo, tínhamos
castas só em Penedès (5 ha) e, a partir de 65, fomos comprando
terras para acelerar o processo de produção de vinhos de
qualidade. Antes de 61, eu havia estado em Bordeaux e na Alemanha, e provado
vinhos feitos de Cabernet Sauvignon e Pinot Noir muito interessantes e
com mais personalidade do que os feitos com as castas de meu país.
Fizemos, então, uma pequena coleção de Chardonnay,
Riesling, Gewürztraminer, Silvaner, Sauvignon Blanc e Merlot para
começar a microvinificação. Assim, em 66, quando
compramos a 2ª finca - a de Mas la Plana -, decidimos plantar Cabernet
Sauvignon.
Basilico -
Atualmente há um movimento de recuperação de uvas
autóctones na Espanha, não?
Torres – Sim. Nos anos 80, nós começamos a melhorar
as castas antigas do nosso país.
Estamos trabalhando nelas com o auxílio das universidades de Montpellier
e Tarragona. Antigamente, havia mais de 100 cepas. Onde estão elas?
Há sempre um rastro, numa montanha, numa ilha, e pouco a pouco
seguimos recuperando-as. Hoje, são cerca de 30. Algumas delas estão
em processo de identificação, outras não.
Basilico -
Sua empresa produz muitos rótulos diferentes. Quais os vinhos que,
na sua opinião, traduzem a essência de seu trabalho nas diversas
vertentes?
Torres – Um deles é o Mas La Plana. É um vinho, feito de
Cabernet Sauvignon, que está em 70 países. É um vinho
tradicional desde os anos 70. Em 79 foi classificado adiante do Château
Latour; representa o prestígio dos vinhos catalães. O segundo
é o Grans Muralles. É elaborado com cepas antigas catalãs,
e marca o esforço na recuperação destas. Traduz também
o efeito do terroir, o que é muito importante. Esses terrenos onde
são feitos os Grans Muralles pertenciam a um monastério;
são de xiste e produzem vinhos de alta qualidade. O 3º deles
é o Manso de Velasco: é feito com Cabernet Sauvignon, mas
de cepas com mais de 100 anos. Representa o potencial do vinho chileno,
dessas cepas de 100 anos que não foram atingidas pela Philoxera.
Tem os aromas típicos do Pacífico, nota-se que é
um vinho do Chile e é importante para mim que tenham a essência
de um país, que reflitam o clima, o solo. O mesmo também
se passa com o Marimar Pinot Noir. Este é um vinho muito interessante,
de caráter, que reflete o solo granítico, o clima frio e
a vitivinicultura moderna da Califórnia. É comparável
aos melhores vinhos da região.
Basilico -
O Mas la Plana é um vinho que bateu o Château Latour em uma
olimpíada mundial de vinhos promovida pela “GaultMillau”
em 79, e recentemente foi escolhido um dos melhores cabernets do mundo
pela “Wine Enthusiast”. Nesse meio tempo, houve reformulação
do estilo?
Torres – Claro, ele mudou com o tempo. Há o Mas la Plana dos anos
70, 80, 90. Nos anos 70, era um vinho que elaboramos com pouca experiência,
feito com uvas de videiras mais altas, de maturação menos
avançada. Nos anos 80, vindimamos mais tarde, reduzimos a produção,
fizemos uma maceração mais longa. Nos 90, introduzimos a
fermentação malolática, e melhoramos a qualidade
dos barris, pois selecionamos anualmente os toneleiros e temos um maior
conhecimento da interação vinho-madeira.
Basilico -
A relação empresarial de vocês com China começou
em 1982. Como ela se desenvolveu?
Torres – Fizemos uma joint-venture nos anos 90: os vinhos Torres eram
engarrafados e vendidos na China. Também testamos vinhas (cerca
de 1 ha) no país na mesma época, mas isso não deu
muito resultado. Entre 97 e 98 fizemos nossa própria companhia
de distribuição no país, e hoje somos a 3ª maior
companhia de distribuição na China. Atualmente, ainda fazemos
experiências com uma vinícola chinesa. Mas lá nunca
haverá grandes vinhos, apenas vinhos corretos. Há uma região
perto do deserto que parece interessante. Mas lá os solos são
férteis e o clima é muito frio. Imagine cobrir com terra
as vinhas para que elas não morram por causa do frio! Mas a China
está autorizada a mesclar seus vinhos com vinhos de fora, com os
que vêm do Chile e da Itália.
Basilico -
Muitos sustentam que a melhor Denominação de Origem é
o prestígio da própria marca. Outros dizem que as DOs alimentam
os mercados, principalmente no segmento dos vinhos de médio preço.
O senhor foi um dos grandes incentivadores da DO Catalunha, estabelecida
em 99. Alguns, como o jornalista Andrés Proensa [autor do “Guía
Proensa” de vinhos], a acham medíocre. Como o senhor justifica
sua posição?
Torres – São 10 DOs na Catalunha. Em termos de marketing,
não dá prá vender tantas DOs. Mas uma DO tem mais
possibilidade de vendas, pois o consumidor pode reconhecer o nome, porque
o faz lembrar de Barcelona. Há muitos anos estamos limitados a
comprar uvas em Penedès [para que os vinhos tivessem uma DO]. O
que acontecia é que os produtores aumentavam o preço, e
muitas vezes tínhamos que buscar uvas fora da região. Havia,
assim, um limite de qualidade. Mas na Catalunha havia, nessa época,
muitas vinhas de boa qualidade que iam parar em vinho comuns. Com a denominação
de origem Catalunha, melhoramos a qualidade dos vinhos e o viticultor
está contente. Bom para a qualidade e para o equilíbrio
social dos vinhos da Catalunha...
Basilico -
Recentemente vocês adquiriram vinhedos em Jumilla e Toro. Como serão
os novos vinhos e quando sairão?
Torres – Adquirimos uma pequena bodega em Ribera del Duero, e esses
novos vinhos sairão no mercado daqui a 2 anos, 2 anos e meio. Em
2007, sairão outros vinhos do Priorato, ainda sem nome. E em 2008,
2009, os primeiros exemplares de Jumilla, que já tem parte da área
plantada. Em Toro, ainda começaremos a plantar. Queremos fazer
vinhos de terroir, com caráter local. Vinhos modernos, elaborados,
de muita extração de fruta, o que é muito importante.
Em Jumilla, concentramo-nos na Monastrell. Em Toro, na Tinto Fino [Tempranillo].
Basilico -
Quais foram os procedimentos adotados na bodega para acompanhar os novos
tempos?
Torres – 95% do vinho continua a ser feito na casa. Atualmente,
podemos jogar com todas as técnicas de elaboração
— enzimas, madeira, leveduras e controle analítico.
Basilico -
Na sua opinião, como é a recepção dos americanos
aos vinhos espanhóis?
Torres – A Espanha
está na moda nos Estados Unidos.
Publicado em:
07/02/07
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