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| Elisa
e Juan Bouza |
Por
Isabella Líbero*
O
casal Bouza, de uma das vinícolas
mais promissoras do Uruguai,
esteve recentemente no Brasil para lançar seus vinhos e conversou
com o Basilico
Exímios conhecedores
e apreciadores de vinho, o casal uruguaio Juan e Elisa Bouza costumava
dedicar-se à indústria de
alimentos antes de mergulhar de corpo e alma no universo de sua bebida
preferida. Menos de 1 década após o início da empreitada,
já colecionam prêmios internacionais e têm seu sobrenome
impresso nos rótulos de alguns dos vinhos uruguaios de maior destaque
dos últimos anos.
Localizada a 10 minutos
do Porto de Montevidéu — com vinhedos
nas regiões produtoras de Las Violetas e Melilla —, a
vinícola Bouza foi construída sobre uma antiga bodega de
1942. Toda a sua linha está disponível no Brasil. A vinícola
trabalha basicamente 5 variedades de uvas, em 8 rótulos. Seu
Albariño,
por exemplo, pertence a uma das primeiras colheitas de cepas vindas da
Galícia (Espanha), e tem produção minúscula
(cerca de 400 garrafas). A edição 2004 ganhou medalha de
ouro no concurso Catad’Or Sheraton, realizado no mesmo ano. Outro
exemplar combina Tempranillo (60%) e Tannat (40%), e é uma das
apostas da vinícola. “Acho que fomos os primeiros no mundo
a fazer essa combinação”, arrisca Juan Bouza. Os
outros produtos são elaborados com os varietais Merlot, Chardonnay
e Tannat, e uma combinação de Tannat/Merlot.
No topo, a linha Parcela Única, que trabalha as uvas Tannat e
Merlot de uma parcela restrita dos vinhedos (cerca de meio hectare),
também com poucas garrafas (1.200 de Merlot e 3.500 de Tannat).
Em visita a Belo
Horizonte, em maio último, para o lançamento
oficial de seus vinhos no Brasil pela Enoteca Decanter (filial da importadora
na capital mineira), o casal Bouza conversou com o Basilico.
Durante
um jantar tipicamente uruguaio promovido no restaurante
La Victoria, do chef Jorge Ratner, o casal comentou a cultura vitivinícola
de seu país,
a qualidade da uva-símbolo do Uruguai, a Tannat, e as particularidades
dos vinhos que produzem.
Divulgação |
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Sala de
envelhecimento |
Basilico
- Como o vinho uruguaio está posicionado no
mundo?
Juan e Elisa Bouza -
O Uruguai tem uma larga tradição
em vinhos – somos grandes apreciadores. Tomamos cerca de 30 litros
per capta por ano, um dos consumos mais altos do planeta. Isso fez
com que, por muito tempo, todo vinho produzido fosse consumido internamente.
Há cerca de 10 anos, poucas bodegas começaram a exportar.
Hoje já somos quase 30. Mas o Uruguai ainda é desconhecido
no mundo e essa é uma dificuldade que precisa ser vencida. Além
disso, em função do tamanho do país, a quantidade
de bebida ofertada é pequena, da ordem de 10 milhões
de garrafas. Tampouco temos vinhos baratos. Nosso preço de exportação é superior
ao de países como Argentina e Chile (a chilena Concha y Toro,
por exemplo, produz sozinha mais que todo o Uruguai).
Tudo isso fez com que o país tenha se concentrado em vender
seus vinhos para certos nichos de consumidores externos: aqueles que
realmente valorizam a bebida.
Basilico
- Na opinião de vocês,
qual o grande diferencial dos vinhos uruguaios?
Juan e Elisa Bouza - São muito pessoais. Como
o país é pequeno, a personalidade de cada bodega pode
ser sentida em cada vinho. Em um mundo tão padronizado como
o de hoje, trata-se de um bom valor. Se você provar 10 vinhos
da mesma variedade de diferentes bodegas uruguaias, vai perceber que
são totalmente distintos. A personalidade do produtor fica marcada
nas bebidas.
Basilico
- Como é a diferença
entre as safras?
Juan e Elisa Bouza - Há bastante diferença.
Como temos muita influência atlântica, precisamos estar
perto dos vinhedos todos os anos. É um trabalho árduo
que requer cuidados e inúmeras horas de dedicação.
Por outro lado, aprendemos profundamente sobre cada planta e cada parcela.
Com isso, pode-se conseguir a maior expressão possível
da fruta. Para o consumidor, o prêmio é que todas as safras
são distintas, há variedade. Os vinhos uruguaios
vão mudando ano a ano e isso os faz interessantes. Estamos distantes
da padronização. Nesse sentido, somos mais parecidos
com a Europa que com o Novo Mundo. Possuímos as características
de estrutura, força e potência do Novo Mundo, com a elegância
e a diferenciação das safras do Velho Mundo.
Basilico - Quais as particularidades da Tannat, a uva mais produzida
no Uruguai?
Juan e Elisa Bouza -
A Tannat foi introduzida no Uruguai há aproximadamente 150 anos. É o
lugar onde há a
maior quantidade da uva do planeta. É por isso que, quando
se fala em Tannat, as pessoas logo a identificam com o Uruguai. Em
certa medida, pode-se dizer que o país introduziu a Tannat
como varietal no mundo, pois em sua terra de origem — Madiran,
Sudoeste da França — ela costuma ser vinificada em cortes.
Trata-se de uma uva com muitos taninos e polifenóis. Sua planta
gosta da proximidade com o mar e se sente cômoda no Uruguai, o
que se nota nos vinhos. Quando essa mesma uva é plantada em locais
mais secos, como Mendoza ou Salta, na Argentina, produzem bebidas mais
duras, adstringentes e com bastante tanino, fazendo com que tenham que
passar um longo período na garrafa até ficarem mais suaves.
Basilico
- A Tannat virou a uva emblemática do Uruguai?
Juan e Elisa Bouza -
Sim, como uma carta de apresentação. É uma
sorte possuir um varietal que praticamente ninguém produz. Isso
nos dá personalidade, nos permite ter algo distinto para oferecer.
A Tannat está sendo uma descoberta para muita gente. Ela abre
portas, como a Malbec abriu para a Argentina, e a Carmenère,
para o Chile. Mas não se trata apenas de uma invenção
de marketing ou estratégia comercial. A Tannat está ganhando
o mundo e ressaltando uma tradição verdadeiramente uruguaia:
o consumo de carne, principalmente aquelas feitas na brasa, que chamamos
de assados. Em função da quantidade de taninos e da grande
estrutura, é ideal para acompanhar essas carnes. Por isso, a
Tannat também ajuda a apresentar a cultura uruguaia aos outros
países, que estão descobrindo o que já sabemos
há anos — que são vinhos excelentes para acompanhar
comida. Sobretudo culinárias fortes, abundantes, com porções
generosas e condimentadas. No México, por exemplo, ela está fazendo
bastante sucesso.
Basilico
- Como é a história da bodega de vocês?
Juan e Elisa Bouza - Começamos
em 1998 como viticultores comprando um velho vinhedo na zona de Las
Violetas, com plantas de 15 a 40 anos. Temos aproximadamente 16 hectares
plantados. Trabalhamos de 1998 a 2003, aprendemos a produzir a uva
e a manejar a vinha. A partir de 2002 começamos a restaurar
a velha bodega que estava abandonada havia mais de 20 anos, até deixá-la
em condições de começar a elaborar vinhos. Nossa
primeira vindima ocorreu em 2003.
Basilico - Qual o maior diferencial dos vinhos Bouza?
Juan e Elisa Bouza - Temos uma produção
muito limitada, só vinificamos uvas nossas e não compramos
de ninguém. A bodega foi desenhada para o máximo de 100
mil garrafas por ano, mas ainda não chegamos a esse total. Deixamos
poucas uvas nas plantas para que elas possam fazer um bom trabalho
com essas frutas. Monitoramos diariamente o amadurecimento das frutas
para que os taninos fiquem no ponto. Entre nossos vinhos especiais,
temos uma linha que saiu em janeiro deste ano chamada Parcela Única.
São elaborados com a parcela do terreno que deu a melhor uva.
Outro corte particular é o Tempranillo/Tannat. Acho que fomos
os primeiros no mundo a fazer essa combinação. Esse vinho
tem a virtude de mesclar a estrutura, a acidez e os taninos da Tannat
com a qualidade aromática da Tempranillo. É um bom casamento
e já recebeu muitos prêmios.
Enoteca Decanter
R. Fernandes Tourinho, 503, Savassi, Belo Horizonte, MG, tel. 0xx31/3287-3618

* Isabella Líbero é jornalista e escreve
sobre gastronomia na revista Verdemar, distribuída em Belo Horizonte
Publicado
em: 26/07/06
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