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crítico García Santos |
Por
Pilar Perez-Hita
Rafael
García Santos, o mais importante
crítico gastronômico da Espanha, fala ao
Basilico, com exclusividade, sobre a
cozinha de seu país, o congresso do qual é idealizador e
a gastronomia do futuro"
Rafael García Santos é considerado, em seu país
e fora dele, o melhor crítico gastronômico da Espanha. Advogado
de formação, começou a escrever sobre o assunto em
1981, transformando-se numa espécie de ideólogo da nova
cozinha espanhola.
É, portanto,
um agitador cultural: além de sua coluna semanal no diário
“El Correo”, García Santos é o mentor do congresso
El Mejor de La Gastronomia. O evento, que já figura no
panorama dos mais afamados encontros de cozinha da atualidade, reúne
anualmente desde 1998 os grandes nomes da gastronomia – e, segundo
ele, aqueles que um dia serão.
Divulgação |
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O
guia, em sua 12ª edição |
O congresso leva o mesmo
nome de seu guia, que já está na 12ª edição.
A publicação
relaciona os melhores restaurantes do país, recomenda vinhos e produtos
de alta qualidade,
orienta o leitor sobre as melhores especialidades regionais, além
de destacar o chef do ano — em 2005, a bola da vez foi Dani García
— e algumas revistas especializadas (como a bacana “Apicius”).
Além do guia, o crítico é autor de obras de referência
da cozinha basca, como “La cocina vasca de ayer, hoy e mañana”
(“A cozinha basca de ontem, hoje e amanhã”), publicada
em 1988, e “El bacalao em la cocina vasca” (“O bacalhau
na culinária basca”), editado 1 ano depois. Há
algumas semanas, o crítico conversou com nossa colaboradora, Pilar
Perez-Hita, por telefone durante 45 minutos. Direto, rápido nas
respostas, às vezes incisivo, outras, escorregadio, Rafael García
Santos, entre outros assuntos, fala sobre gastronomia espanhola, o congresso
que idealizou e sobre a cozinha do futuro. Segundo ele, a gastronomia
do amanhã será a dos cozinheiros que seguem o seu caminho
em vez de tendências, “que são boas apenas para aqueles
que querem aparecer”. “A maioria dos chefs faz combinações
cromáticas. Mas quantos sabem transmitir uma mensagem pessoal,
que permaneça inconfundível na cabeça do gourmet?"
questiona. Para o crítico espanhol, bem poucos. A seguir, a íntegra
da entrevista. (Cristiana Couto e Pilar Perez-Hita)
Basilico —
Que características você acredita que o ajudaram para ser
o crítico gastronômico mais temido e de maior relevância
da Espanha?
Rafael García Santos
– Trabalho e mais trabalho. Além de trabalhar, ter, também,
idéias e conceitos bem claros, ser coerente com eles e ser independente
em um mundo impositivo.
Basilico —
Ser um crítico é algo que se aprende?
García Santos –
Tudo nessa vida se aprende, mas, como em qualquer profissão, nem
todos têm os mesmos dons para, por exemplo, exercer a arquitetura
ou jogar futebol.
Basilico —
Parece que você tem tino para descobrir novos talentos e um conceito
eclético que é apreciado, também, em sua página
na internet, onde convivem, ao mesmo tempo, informações
de restaurantes não só da Espanha e nem só de vanguarda...
García Santos –
Para descobrir talentos [na gastronomia] é preciso ter o olho clínico
de um médico ou o olfato de um empresário para encontrar
um bom negócio.
Basilico —
O que você mais valoriza em uma cozinha de autor?
García Santos –
Precisamente, o autor. Muitos fazem cozinha de autor, mas muito poucos
são realmente autores. Quantos cozinheiros sabem transmitir, de
verdade, uma mensagem pessoal, diferente, que permaneça de maneira
inconfundível na memória do gourmet? A maioria faz combinações
cromáticas em torno de modismos, de tendências aceitas pela
sociedade.
Basilico —
Você considera Quique Dacosta, do restaurante El Poblet (Alicante,
Espanha), um dos 5 chefs de maior relevância no mundo. Quem são
os outros 4?
García Santos –
Ferran Adrià e Martín Berasategui [restaurante Martin Berasategui,
Lasarte] entre os espanhóis; talvez Massimiliano Alajmo [restaurante
Le Calandre, Pádua] e Paolo Lopriore [restaurante Il Canto, Siena]
entre os italianos, e, dos franceses, Michel Bras [Bras, Laguiole]. Não
há muito mais cozinheiros que se sobressaiam em nível mundial.
Basilico —
Sempre me intrigou porque se fala tão pouco de Marc Veyrat [chef
francês que tem um dos restaurantes — o que leva seu nome
— com 3 estrelas no Michelin e 20/20 no GaultMillau 2006]...
García Santos –
Marc Veyrat é um dos cozinheiros “melhorzinhos” do
mundo. Creio que já se falou muito sobre ele. É capaz de
fazer coisas verdadeiramente excepcionais, mas necessita de regularidade.
Sua cozinha é como sua personalidade: imprevisível.
Basilico –
Acredita que a Espanha continuará tendo a hegemonia da vanguarda
por muito tempo? A contribuição gastronômica deste
país nos últimos 10, 15 anos é imensa, muitas portas
se abriram. Há mais portas para abrir?
García Santos –
Atualmente, essa hegemonia não se deve a países, mas aos
cozinheiros. Antes falava-se das cozinhas regionais; hoje, são
as cozinhas nacionais e, no futuro, talvez esteja em voga a cozinha européia.
Mas em um mundo globalizado e mais uniforme, temos de destacar cada vez
mais os verdadeiros “criadores”, aqueles que têm uma
mensagem própria, independentemente de onde tenham nascido ou em
que cultura se tenham formado.
Basilico –
Qual será a tendência mundial da gastronomia?
García Santos –
A cozinha do futuro será tanto mais rica quanto mais diversa. Cada
cozinheiro deve fazer seu caminho e deixar de seguir tendências,
que aparecem em um momento ou outro. Isso é bom para os que querem
aparecer, mas nunca para os que desejam ser livres.
Basilico –
Era necessário um manifesto da “nova
cozinha”, como o lançado por Ferran Adrià [em
janeiro deste ano, traçando os parâmetros da nova cozinha
em 23 “pontos”]?
García Santos –
Qualquer tendência que pretenda ditar manifestos em um mundo onde
se deve procurar a diversidade deve ser interpretado e valorizado como
uma reflexão intelectual — que pode ter méritos enormes,
tão incalculáveis como a colaboração de Adrià
para a história da cozinha. Mas nunca deve ser tomado como um “Novo
Testamento”.
Basilico –
Qual é o objetivo do congresso Lo Mejor de la Gastronomia, organizado
por você?
García Santos –
Este congresso é uma evolução de um evento gastronômico
que fazemos há 15 anos na cidade de Vitória [no país
basco], em que há jantares e demonstrações com os
melhores cozinheiros do mundo. É um salto qualitativo em relação
às programações motivadas pela idolatria aos grandes
chefs: Lo Mejor de la Gastronomia é um projeto mais amplo e diversificado,
cujo objetivo é dar relevância às criações
dos chefs e dar ênfase àqueles que são promissores.
É um encontro sustentado por um movimento de renovação
permanente.
Basilico –
Como você acha que o congresso está evoluindo?
García Santos –
Creio que, paulatinamente, ele está ganhando destaque e que cada
vez mais adquire um perfil internacional. O que conseguimos nos últimos
2 anos foi, precisamente, ultrapassar as fronteiras espanholas, tanto
na participação dos conferencistas (cerca de 60% deles são
estrangeiros) quanto na de participantes (22% vindos do exterior).
Basilico –
O perfil do congresso parece estar criando escola, já que o I Omnivore
Food Festival [que aconteceu em Le Havre, Normandia, em fevereiro
último] foi formatado de maneira bastante semelhante, incluindo
o mesmo perfil da cidade — ou seja, uma cidade charmosa —
onde é realizado. Você participou desse projeto?
García
Santos
– Lo Mejor de la Gastronomia não só
serviu para o nascimento do Omnivore Food como também para a criação
de congressos realizados na Itália, além de outros previstos
para surgirem nos próximos anos. Não participei do projeto
de Omnivore, e estou convencido de que, partindo da nossa idéia,
ele saberá criar sua própria personalidade.
Basilico –
Como você analisa esta primeira tentativa francesa de produzir um
festival dirigido a novos cozinheiros e novas tendências?
García Santos –
Qualquer iniciativa destinada a fomentar a cultura gastronômica
e as
inquietudes profissionais é benvinda. E se ela acontece na França,
melhor!
Basilico –
O que você acha da gastronomia de países relativamente desconhecidos?
García Santos –
O futuro da gastronomia está, sem dúvida nenhuma, em países
e economias emergentes. Neles está a vontade de acontecer, embora
haja um longo caminho a percorrer, pois a alta gastronomia requer cultura
e dinheiro, e, definitivamente, refinamento.
Basilico –
Alguma vez algo que provou o surpreendeu tanto que você não
soube dizer se gostava daquilo ou não?
García Santos –
Sim, pouquíssimas vezes. Mas, geralmente, quando o comensal surpreende-se
com algo assim não significa que aquilo tenha um grande valor,
mas, sim, que é uma criação em que falta definição.
Basilico –
Conhece o Brasil? E a cozinha brasileira?
García Santos –
Estive uma semana no Brasil. Impressionaram-me as matérias–primas,
especialmente os vegetais.
Basilico –
Comente algo que não comia e que, com o tempo, acabou gostando
bastante..
García Santos –
Quando criança eu era um maníaco e não gostava de
muitas coisas. Já adulto, obriguei-me a provar qualquer coisa e
rapidamente situo o alimento em função do valor que meu
paladar dita.
Basilico -
Você costuma cozinhar? Qual sua especialidade?
García Santos –
Cozinho nas horas livres e como divertimento: o que mais preparo são
assados e massas.

Pilar Perez-Hita
morou em Barcelona por mais de 20 anos. É cozinheira e foi proprietária
do bufê Tête-à-Tête, especializado em cozinha
étnica e kasher.
Publicado
em: 25/04/06
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