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| Vincenzo
Venitucci |
Por
Breno Raigorodsky
Em
entrevista ao Basilico, o
italiano Vincenzo Venitucci,da Casa
Venitucci, explica porque tem
fama ruim na praça
Maldito, diabo, demônio, amaldiçoado. Mal-dito,
ou seja, aquele que está sendo maldito, aquele que está
com fama ruim na praça. Em tempos de tantos malditos, escolhi
um para exorcizar – Vincenzo Venitucci. Meus antídotos:
um Primitivo Salento e uma câmara fotográfica debaixo do
braço.
A comida de seu restaurante é respeitada desde 1996, quando recebeu
sua 1ª estrela do “Guia Quatro Rodas”. É
uma cozinha que mantém fortes ligações com sua terra
natal, a província de Lucca, no centro da Toscana, apesar
de não ser nenhum caipira ortodoxo, pois vira-e-mexe aparece com
uma novidade que não tem nada a ver com o tempero básico
da região, a saber: o salsão, o azeite de oliva refinado,
o pouco alho e nenhum exagero.
A degustação de entradinhas, a sopa de legumes, as massas
que me fez experimentar — mesmo aquela típica sarda à
base de bottarga (um prensado de ovas de atum ou muggine)
— são leves no tempero, pouquíssimo oleosas, confirmam
a tradição toscana. Toscanas são a sopa de legumes,
a pasta de berinjela, o macarrão com alho, óleo, azeitonas
verdes e alcaparras (que bem podia levar um filé de anchova).
Provavelmente toscana, do vilarejo de Vincenzo, é a proposta decorativa
do local, duvidosa do ponto de vista dos cosmopolitas comensais que têm
bolso farto o suficiente para freqüentar o restaurante.
Vincenzo conhece cozinha, sabe o que fazer dentro dela. O uso
do shiitake é uma boa prova de que a tradição
não é regra inquebrantável. “A referência
original deste crostini é porcini, obviamente. Mas este shiitake
é bom, não tem mais sabor de sauna e sabonete como costumava
ter, pois agora ele é produzido em carvalho...”
Ele segue
um norte, e este norte é o centro da cozinha toscana, mas não
é um ortodoxo burro, que só olha para essa direção.
Por exemplo, estava olhando para a Tailândia quando criou um crostini
de manga e wasabi... E estava olhando para qualquer lugar quando
trocou todos os ingredientes tradicionais do Bloody Mary para mostarda
de Dijon, hortelã e gotinhas de grappa...
A comida dos Venitucci não precisa ser exorcizada, até porque
é defendida por seus poderosos clientes habituais, como o Fasano,
o Bassi, o Laurent etc.
Breno Raigorodsky
- Comida à parte, o que pega em você, Vincenzo?
Vincenzo Venitucci - Um dia, chega um figurão
com 3 garrafas de vinho bom, vê minha mulher na porta do restaurante
e passa pra ela se virar com as ditas bottiglie, como se ela
fosse uma escrava dele, a seu serviço. Guarda, minha mulher
estava muito doente, não podia carregar peso. Mas doente ou não,
seu senso de responsabilidade profissional fez com que ela fizesse das
tripas coração e não derrubasse nenhuma delas. Fiquei
bravo, não gostei nem um pouco e com certeza fui duro, orgulhoso
e pouco gentil para com aquela mesa.
Em outra ocasião, um crítico gastronômico ordena ao
garçom determinado prato com determinado ingrediente — não
quero contar porque a pessoa vai identificar-se e vai ficar ainda mais
chateada comigo, quem sabe. Decido sugerir outro ingrediente, mais fresco,
uma adaptação totalmente aceitável para o mio
judício. Ele fica desconfiado e não aceita. Sai daqui
dizendo que a comida é boa, mas que é preciso ter cuidado
comigo, que costumo empurrar o cliente para decisões duvidosas...
Imagine só, se eu faria uma coisa dessas? Está me chamando
de desonesto e burro... Estaria desprestigiando meu patrimônio,
o produto do meu trabalho. Tive vontade de processá-lo, parecia
perseguição, porque este comentário sempre voltava
toda vez que falava de mim.
Raigorodsky
- Mas você aceita que sugiram mudanças nos pratos? Tenho
um amigo que não gosta de vir aqui, porque você teria reagido
pessimamente a um pedido seu em respeito a um prato que um filho dele
queria comer...
Venitucci - Não reajo sempre bem, embora aceite
sugestões. Sou como tantos outros homens de cozinha que são
algo mais do que comerciantes.
Lembro de outros como
ele. Um, o D’Angelo da Humaitá, que um dia praticamente
pôs pra fora um cliente que cortava seu macarrão de garfo
e faca entre golões de Coca-Cola. Um segundo, o grande e inesquecível
dono do Komazushi, mestre do Jun Sakamoto, que não deixava entrar
em sua casa de sushi quem não tivesse feito reserva. Um terceiro
maldito? O dono do Paillote, que ninguém fala mal porque este nem
se mostra...
Venitucci
- Minha cozinha leva pouco sal, pouco tudo. Sou capaz de passar o azeite
no dedo e untar a frigideira com ele. Sigo os passos de minha mãe
que, quando anotava uma receita com 5 dentes de alho, já marcava
apenas 3 e fazia o prato com somente 2. Então, se me perguntam
se tal prato leva pimenta, falo que sim, que tem um pouco quando tem,
mas só um pouco. Se me pedem então, para eu por muito mais,
prefiro não fazer, prefiro sugerir um outro prato porque daquele
jeito não pesquisei, não sei se vai ficar bom. Então
eu levo a fama.
Raigorodsky
- E o que mais pode ter sujado a sua barra?
Venitucci - Nunca sai daqui de Perdizes. É muito
fora dos centros importantes da cidade.
Deve ter mais coisa,
não é possível. Além da primeira história,
aquela do figurão com os 3 vinhos, nada que disse justifica. Se
você, Vincenzo Venitucci, estiver sem memória, posso propor
ao site Basilico que crie um espaço onde seus
clientes relatem histórias de seus ditas grossuras...
Venitucci
- Nem sempre fui cozinheiro ou dono de restaurante, sou um cara de boa
família, o que significa estudo. Não fui garçom do
Gigetto. E nunca fui apenas isso, sou escultor, me orgulho de meu trabalho.
Fui instrutor de patinação, aliás, foi assim que
vim parar no Brasil! Então, sou meio orgulhoso, pavio curto, falo
o que acho que devo falar na hora, mesmo que depois me arrependa. Aquele
cliente das 3 garrafas, por exemplo. Pediu sogliola e
mandou abrir o Amarone, um dos vinhos que ele tinha trazido. Falei que
ele era duplamente criminoso, queria acabar com o meu peixe e com o vinho
dele!
Raigorodsky
- E este vinho [que estão tomando], Primitivo?
Venitucci - Simples e bom. Dá para sentir os taninos
do vinho, não é como estes pezzi (“pedaços”)
de carvalho que estão engarrafando por aí. É a La
Pastina que traz, não é? Pois eu comprava bastante da La
Pastina, bastante mesmo. Mas de repente ela parou de me atender, seu vendedor
disse que o tratava mal... Fui obrigado a falar com o dono.
Olho bem para aquele
homem de seus 67, 68 anos, forte, sanguíneo. Meu tempo está
se esgotando, meia-noite já se passou. Deve ter cometido
algumas grosserias na vida, como o acusam, talvez coisa de artista,
que precisa da admiração e do respeito como do ar que respira
e nem todo mundo está disposto a aceitá-lo como é.
Meu juízo final
: vive tempos de limbo. Tudo o que me foi servido era de excelente qualidade,
originalidade, no ponto certo. Por mim, ele deve sair de onde
está e voltar para o Olimpo da gastronomia paulistana.
Receita: Lingua
di bue allo scarlatto (língua de boi à escarlate)
.

* Breno Raigorodsky é filósofo, publicitário e gourmet.
Escreve regularmente sobre vinhos e comida.
Publicado
em: 22/08/05
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