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Comer
/ Personagem

Por
Pilar Perez-Hita, de Barcelona
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Pilar
Perez-Hita
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O chef Ferran Adrià |
Em entrevista exclusiva ao Basilico, o chef
mais badalado da atualidade conta como
cria seus pratos, comenta seu novo livro e
mostra as novidades do El Bulli para 2003
Personagem curioso,
um misto de Peter Pan e alquimista, o catalão Ferran Adrià,
40 anos, é o cozinheiro mais badalado do momento. Suas criações
no restaurante El Bulli, no litoral da Catalunha, são uma festa
de cores e leveza.
Autodidata e irreverente,
o chef conseguiu as 3 estrelas no prestigiado guia Michelin em 1997 à
base da desconstrução de sabores e texturas, revolucionando
a maneira de se considerar gastronomicamente elementos tão básicos
quanto ovo e água do mar.
São exemplos
de sua cozinha - apreciada por apenas 45 comensais por noite, entre
os meses de abril e setembro - caipirinha sólida, melão
com presunto em forma líquida, pirulito com gosto de gaspacho,
paella em grãos servida em saquinhos de celofane e as famosas
espumas (de caldo de galinha, sucos de fruta ou o que mais lhe interessar),
feitas com gelatina quente (de alga resistente ao calor) e que prepara
utilizando um sifão.
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Pilar
Perez-Hita
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Área
externa do El Taller
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Toda essa criatividade
consome 6 meses de pesquisas, boa parte delas executadas no El Taller,
o centro nevrálgico do "fenômeno Adrià",
seu atelier-laboratório instalado em um palacete do século
18, próximo ao principal mercado nas Ramblas, no coração
de Barcelona. Além da cozinha, última
palavra em tecnologia e sofisticação, o atelier conta ainda
com biblioteca e uma capela em estilo gótico transformada em sala
de reuniões. De lá, o chef conversou com o Basilico
sobre seu processo
criativo e sobre a monumental obra que está elaborando
prevista para estar completa
daqui a 5 anos e que reúne os 20 anos de vida do El Bulli
sob seu comando (o restaurante existe desde 1957, e originalmente
servia cozinha francesa).
O primeiro volume
- "elBulli 1998-2002", lançado na Espanha no final
de 2002 , contempla o trabalho dos últimos 5 anos, que consolidou
o estilo do chef.
Segundo Adrià,
é o "primeiro livro de um cozinheiro que explica a concepção
de todas as receitas, a base de sua inspiração, as influências,
as razões das técnicas empregadas e sua emoção
com os resultados". A obra inclui um CD com todas as receitas, catalogadas
por ano (edições em inglês, francês, italiano
e alemão estão previstas para meados de 2003).
Por sua ousadia, o
chef, natural da cidade espanhola de L´Hospitalet de Llobregat (vizinha
a Barcelona) e que começou lavando pratos em restaurantes populares,
desperta paixões e alguns sentimentos não muito elevados.
Mistura, com a mesma habilidade com que cria seus pratos, momentos de
modéstia ("Minha opinião sobre um restaurante não
serve para nada") e declarações de efeito. "Quando
meus 3 livros estiverem prontos, muitos mudarão a maneira de falar
sobre cozinha", sentencia Adrià. Mas, ao que tudo indica,
ele pode se dar a esse luxo. Pois, como ele mesmo diz, "ser criativo
e abrir caminhos não é nada fácil".
Veja a seguir a entrevista, as novidades no cardápio de 2003 e
uma de suas receitas
(piña-colada).
Entrevista
| Pilar Perez-Hita |
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Os
chefs Adrià e Castro
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Basilico - Como é seu dia-a-dia no atelier?
Ferran Adrià - Diferente a cada dia. Aqui, nos dedicamos
basicamente a dar entrevistas e a cozinhar, ou melhor, investigar. Chego
às 9 da manhã e o único ritual diário é
consultar a agenda. Não temos ajudantes, somos apenas 3 criadores:
meu irmão, Albert Adrià (diretor do El Taller e chef-pâtissier),
Oriol Castro (chef de cozinha) e eu. Às vezes, convidamos alguém
para compartilhar a experiência de criar conosco, como Jordi Parra
(importante chef espanhol, do restaurante Espaisucre).
Basilico -
Como é seu processo de criação?
Adrià - Primeiro, buscamos uma idéia no trabalho
diário, em viagens ou livros. Depois, procuramos desenvolvê-la.
No atelier, nos preocupamos com idéias conceituais e técnicas,
coisa que não é tão fácil quanto misturar
ingredientes.
Quando ela funciona, montamos o prato. Mas não trabalhamos de forma
linear. Se tivéssemos o ano todo para criar seria mais fácil.
Basilico -
Que critérios básicos você segue para levar adiante
uma idéia?
Adrià - Basicamente 2: o contato físico com
a comida, ou seja, ela deve ser realmente gostosa. E ser conceitualmente
criativa, moderna. Eleger uma nova matéria-prima, por exemplo,
é simples: se for gostosa, é séria candidata. Não
é preciso ser um ingrediente exótico. Outro dia, experimentei
uma pêra ótima. Pensei: há quanto tempo não
crio nada com elas... Ou seja, a idéia surgiu porque a
pêra estava deliciosa!
Basilico -
Que resultado criativo mais surpreendeu você?
Adrià - As espumas. Foi uma revolução!
Daqui á 10 anos será a coisa mais natural do mundo, inclusive
para uso doméstico. Foi uma dessas idéias que as pessoas
consideram malucas, mas, neste momento, há milhares utilizando
o sifão como se usa o liquidificador.
Basilico
- Em que proporção se combinam sensibilidade, intuição
e técnica em sua concepção de cozinha?
Adrià - Qualidade do produto e técnica são
obrigação de qualquer bom restaurante. Já sensibilidade
não é uma qualidade obrigatória. Aliás, o
que faz falta é sensibilidade e amor pelo que se faz.
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Divulgação
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Ravióli
gelado de anis
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Basilico -
Que critérios você utiliza na montagem do prato?
Adrià
- Apesar de ser a parte mais espontânea do processo, há
algumas regrinhas: não enfeitar com ervas aromáticas sem
ter porquê. Não abusar das apresentações verticais
e, logicamente, tudo o que vier no prato deve ser comestível.
Basilico -
Como se prepara o menu do El Bulli a cada ano?
Adrià - Intuitivamente. Não planejo nada. Nosso
sistema de trabalho mudou bastante. Antigamente, o restaurante estava
aberto o ano inteiro. Agora abrimos durante 6 meses, e somente para o
jantar, pois percebemos que estávamos fazendo muita criação
do tipo "Kleenex" - para usar e jogar fora. Por outro
lado, se não fosse assim não teríamos desenvolvido
tantas idéias e, talvez, tivéssemos ficado só com
as espumas... Mas queremos aprofundar um pouco mais. Agora, cada menu
permanece em vigor por mais tempo, talvez por 2 anos...
Basilico -
Quando você percebeu que tinha feito algo realmente novo?
Adrià - Não sei se é realmente novo,
mas lembro-me de uma codorna em escabeche que decidimos desossar para
que não tivesse uma aparência tão feia... Isso foi
em 1986 e só 16 anos depois vi uma empresa comercializá-la
desta maneira.
Basilico -
Fale um pouco de seus livros...
Adrià - Estes livros que estamos editando serão
como um catálogo de todo o meu trabalho. A idéia é
registrar minha evolução criativa na alta gastronomia para
que, daqui a 50 anos, discutam-se os resultados objetivamente. Se algum
dia tudo isto terminar, que fique a constatação de que foram
feitas coisas muito importantes. Acreditamos que, dentro de 5 anos, quando
os 3 livros estiverem prontos, muitos mudarão a maneira de falar
sobre cozinha. Frank O. Gehry fez o Guggenheim de Bilbao, uma jóia
da arquitetura, já com certa idade (e rodeado de uma equipe jovem).
Ser realmente criativo e abrir caminhos não é nada fácil.
A intenção sempre existe, mas quando se avalia objetivamente
o trabalho executado ... Se vou continuar no mesmo nível, não
sei dizer.
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Divulgação
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Flutuante
de coco e maracujá
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Basilico - Como você disse certa vez, é uma pena
que os cozinheiros não tenham um prêmio Nobel...
Adrià - Foi uma maneira de dizer que a nós couberam
as estrelas, e devemos lutar todo ano para não perdê-las.
Basilico - Conhece o Brasil? Pode citar alguns pratos?
Adrià - Estive no Rio 2 vezes. Lembro-me de
ter comido frutas incríveis, e dos rodízios de carne, como
o Porcão. Ah ! E a feijoada... É incrível que eu
não conheça 10 pratos da cozinha brasileira, mas isso acontece
com cozinheiros do mundo inteiro... Isso mostra que, por mais que eu entenda
de cozinha, continuo sem cultura gastronômica suficiente.
Basilico -
E você, quando vai a algum restaurante?
Adrià - Escolho os lugares. Mas sou uma pessoa normal,
minha opinião não serve para nada... Se digo a alguém
o que está ou não bem feito, é subjetivo. É
como entrar no mundo dos vinhos. Fazer uma carta de vinhos? Pois que a
prova seja às cegas, sem nada que possa influenciar a escolha.
Com a comida é igual. Além do mais, existem os senhores
críticos gastronômicos, que estão aí pra isso...
| Raio-X |
Hobby:
cinema, leituras e viagens.
Livro: "O Perfume" e "Fisologia do Gosto".
Neste último, é importante saber que há 200 anos
já tinham feito muita coisa relacionada à gastronomia
antes que estivéssemos aqui.
Filme: "A Festa de Babete".
Música: Rolling Stones, samba, música clássica
e flamenca.
Caipirinha: tem no meu livro uma batida de coco. Tomei várias
no Brasil. É uma bebida que me dá pique, talvez porque
me faça lembrar o Rio.
Livros publicados: "O Sabor do Mediterrâneo"
(1993),"Os Segredos do El Bulli" (1998), "Celebrar
El Milenio con Arzak, Adria 2000-2001", de Juan Mari Arzak y
Ferran Adrià, entre outros.
Outras atividades: tem um serviço de bufê em Madri
e Barcelona; é consultor dos restaurantes La Terraza e Recoletos,
no Cassino de Madri; mantém seu segundo restaurante, La Alquería,
no hotel Hacienda Benazuza, em Sanlucar la Mayor, Sevilha, do qual
é sócio; e criador do Espesso, o café sólido,
em parceria com a Lavazza. |
| O cardápio
do El Bulli em 2003
....Chá
de rosas ao gengibre, mel e pêssego
rolo crocante de abacaxi e azeitonas pretas
frigideira de manga, pistache e yuzu (tipo de limão
japonês)
avelã em texturas
creme de amendoim com torradas
tempura de limão com alcaçuz
biscoito fino de framboesa
caviar de maçã
envelopinhos de pele de frango à flor de laranjeira
gelatina de tangerina
ravióli de ervilhas com ervilhas ao hortelã
barbatana de tubarão
crepes de leite ao azeite de avelã
ar de cenoura com coco amargo
massa-brioche
desfiado de amanti com fita ibérica e nêspera
assada
alcachofras com azeite de abóbora e concentrado de tangerina
morilles com praliné de pinhões e laranja
sanguínea
lagostim ao chá-verde e gergelim preto
ostras com trufas de flor de sabugueiro
barriga de salmão com gelatina de especiarias e ervas aromáticas
canelone de trufa de verão com tutano e miolos de coelho
mangustão com wasabi, ar de rosas e rúcula
ovos de codorna 63º15' com bala de caramelo
.... e mil folhas de manga com café, banana e baunilha e
sorvete de maracujá
Preço:
135 €
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Onde
encontrar Ferran Adrià
El Bulli
Cala Montjoi, ap. 3D, Roses, Girona, Espanha
Tel. 00xx34/972 15 0457
El Taller
Puerta Ferrisa, 7-9, pral. 2ªA, Barcelona, Espanha
Tel. 00xx34/932 70 3700
Receita: Piña-colada
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Pilar
Perez-Hita mora em Barcelona há mais de 20 anos, é
cozinheira e proprietária do bufê Tête-à-Tête,
especializado em cozinha étnica e kasher. |
Publicada em: 15/05/2003
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Bouchon
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Boulevard
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Indoor Grilling
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Caviar, Truffles,
and Foie Gras
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Elegant Appetizers
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High Bonnet
:
A Novel of Epicurean...
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