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Por Cristiana
Couto
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| A enóloga
Cecilia Torres |
Considerada enóloga do ano pelo “Guia de Vinos de Chile”,
Cecilia Torres, da vinícola Santa Rita, comenta as novas apostas
da empresa e o futuro dos vinhos chilenos
Cecilia Torres tem um jeito todo especial de falar sobre vinhos.
“Fazer um vinho é como cozinhar um prato especial: vai tomar-lhe
tempo para prepará-lo, você vai convidar alguém e
vai se arrumar para a ocasião. O mesmo acontece com o vinho”.
Metáfora bem feminina, em meio a um jargão concebido por
homens, num mundo dominado por eles. Mas não foi a delicadeza nas
palavras que fez com que a enóloga da centenária vinícola
Santa Rita ganhasse o título de Enólogo do Ano do
“Guia de Vinos de Chile” 2007, importante publicação
de vinhos do país. Na 4ª edição da premiação,
a distinção conferida a Cecilia levou em conta o lugar que
os vinhos elaborados por ela ocupam entre os 100 melhores do Chile (confira
no quadro ao final da reportagem). Com 9 rótulos selecionados,
a “suave” e “silenciosa” Cecilia destaca-se como
uma das profissionais mais “valentes” do país.
Responsável
por uma equipe de 8 enólogos (“enóloga-chefe”
é um termo que ela não aprecia), Cecilia iniciou sua carreira
na empresa há 25 anos. “Quando comecei, pouco se conhecia
de enologia e a mulher era impensável num oficio tão masculino”,
conta ela, que se formou em agronomia e especializou-se em enologia e
viticultura.
Divulgação |
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Vinho
Floresta Syrah |
Em visita recente ao
Brasil para apresentar uma das novidades da Santa Rita — o
Floresta
Syrah 2004, eleito o melhor Syrah do Chile pelo referido guia
—, Cecilia conversou com Basilico sobre os novos projetos da vinícola
(como a viticultura de precisão), deu um panorama atual dos vinhos
chilenos e comentou as apostas do país em novos terroirs
e variedades (os vinhos Santa Rita são importados pela Grand
Cru, tel. 0xx11/3062-6388). “Vinho tem que ser digno,
fácil de compreender, e tem que educar”, resume Cecilia
Torres. Confira, a seguir, entrevista com a enóloga chilena.
Basilico - Como foi sua trajetória?
Cecilia Torres - Minha formação foi interessante,
porque parti de baixo — não como enóloga, mas como assistente
de um enólogo. Eu era responsável por montar um laboratório
de qualidade, para fazer análises. Fui aprendendo e me desenvolvendo,
e é interessante porque um enólogo tem que trabalhar numa
bodega como se fosse um proprietário, para compreender aonde quer
chegar. Agradeço essa minha formação, pois aprendi
a trabalhar com vinhos de volume e, até chegar aos de elite, já
tinha passado por tudo. Como assistente deste enólogo, fui provando
com ele, trabalhando na colheita, monitorando a fermentação,
trabalhando no engarrafamento. Chegou um momento em que me dei conta de
que estava delegando responsabilidades aos outros, determinando quem tomaria
conta de qual linha de vinhos. E isso é uma tremenda responsabilidade,
porque o produto é para o consumidor, que está sempre checando
a qualidade do vinho.
Basilico -
Qual é o panorama atual da vitivinicultura do Chile?
Cecilia – Deixando de lado algumas mais particulares,
a filosofia das vinícolas do país é trabalhar em
todos os segmentos, porque há consumidores em todos os nichos,
e estamos preparados do ponto de vista vitícola, porque somos donos
da vinha e isso nos permite qualidade: a Concha y Toro deve ter algo em
torno de 3, 4 mil hectares de vinhas, a Santa Rita tem 3 mil hectares
próprios, mais mil em contrato de longo prazo, e isto permite oferecer
desde um vinho ícone até um varietal mais simples para o
dia-a-dia.
Basilico -
Tradicional, a Santa Rita foi, na década de 80, comprada por empresários
chilenos. Como foi esse processo de modernização, essa passagem?
Cecilia - A modernização chegou para todos
no Chile a partir da década de 80. Nessa época, a vitivinicultura
começou a mudar. Começamos a exportar porque passo-se a
compreender o que o consumidor queria lá fora. Internamente, eram
somente vinhos brancos e tintos, não havia uma diversidade de variedades,
eram mesclas. Havia vinhos interessantes, porque havia qualidade, mas
os consumidores e os enólogos não tinham “acordado”
para a diferenciação. Isso quem pontuou foi o mercado externo,
a Europa. E houve uma reação: começamos a modernizar
toda a tecnologia das bodegas e, portanto, a viticultura começou
a ser renovada. Foi a cadeia completa. E isso não termina mais.
Basilico -
Há como detalhar esse movimento de modernização?
Cecilia - Começou primeiro nas bodegas, trabalhando
tanques de aço inox e barricas de carvalhos francês e americano,
passando para o desenvolvimento de rótulos, de garrafas e, finalmente,
subiu neste carro a viticultura: fomos separando vinhedos, vinificando
as uvas separadamente, trabalhando melhor os índices de maturidade
das uvas... Pois o mais importante para um técnico é a época
da colheita, ou seja, saber quando colher. Quanto à parte da bodega
e da enologia, fazemos hoje o mesmo que a Austrália, os EUA, a
Argentina — vai-se encontrar a mesma linha de engarrafamento, os
mesmos tanques, ou seja, isto está globalizado. Mas a viticultura
é uma ciência maravilhosa: estamos descobrindo novos lugares
para outras vinhas, trabalhando com outras variedades (como a Carmenère,
que é bastante nova), com variedades aromáticas como a Gewürztraminer
e a Riesling, ou seja, há um desenvolvimento enorme. E, uma vez
trabalhando as variedades, trabalha-se a viticultura de precisão,
que é trabalhar vinhedo por vinhedo, não uma extensão
geográfica, ou seja, a partir dessa extensão, trabalhar
o particular.
Basilico -
Qual sua opinião sobre a Carmenère e o futuro dela em relação
às outras cepas do Chile?
Cecilia - Tivemos uma tremenda oportunidade, não?
A de desenvolver uma cepa interessante. Mas creio que nunca vai ser uma
cepa emblemática do Chile. O Chile é famoso no mundo pelo
Cabernet Sauvignon, mas creio que temos muito mais oportunidade com a
Syrah. A Syrah tem muito mais facilidade de manifestar sua tipicidade
do que a Carmenère, que é uma belíssima variedade,
mas difícil de se adaptar. Por isso nunca mais a plantaram em Bordeaux.
E se ela tem um potencial maravilhoso — a Santa Rita vai apresentar
ao mercado um ícone feito com ela no próximo ano —,
e se expressa toda a sua a tipicidade e seu encanto, isso ocorre em locais
muito determinados, e em anos muito determinados, porque é uma
variedade que custa a amadurecer e que, quando não está
madura, não é agradável. A Syrah já está
provado, é uma variedade gostosa do mundo, tem muito estilo, desde
um estilo australiano — mais pesado, guloso, mais “doce”
do ponto de vista dos taninos — até um Syrah mais austero,
com mais taninos.
| Divulgação |
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Vinhedo
Santa Rita |
Basilico -
E qual o futuro, a seu ver, das uvas Pinot Noir e Malbec?
Cecilia - Há muito futuro. Há uma demanda por Pinot
Noir – porque é um vinho que está na moda (e o mercado
manda) e nós, de países do Novo Mundo, estamos muito atentos
ao consumidor. Pinot Noir é uma variedade difícil de trabalhar
na vinha e de se fazer na bodega. É muito delicada, muito “nervosa”,
não gosta de oxigênio, é muito temperamental. É
como a Sauvignon Blanc. Mas se há uma demanda, e se o Chile pode
competir, seguramente haverá vinhos atrativos, com muita fruta,
que poderão competir com vinhos intermediários do mundo
— não serão grandes Pinot Noir, como temos grandes
Cabernet. Quanto à Malbec, há um par de vinícolas
no Chile trabalhando com ela, com bons resultados. Em termos de amplitude,
porém, a Pinot Noir está um pouco mais universalizada, porque
a Malbec está mais associada à Argentina.
Basilico -
Isso significa, então, que há mais vinícolas chilenas
trabalhando com a Pinot Noir do que com a Malbec?
Cecilia - Hoje sim, mas amanhã isso pode mudar, e a Malbec é
uma variedade interessante para mesclar, muito linda. Vamos trabalhar
um blend para uma marca que tem Malbec e é uma fruta exótica,
muito vivaz, de muito boa acidez, que combina bem com a Cabernet Sauvignon
e a Carmenère. É uma variedade atrativa, a se considerar
no Chile.
Basilico –
Quais os novos investimentos da Santa Rita, tanto em relação
a terroirs quanto em relação a variedades?
Cecilia - Estamos com muitas novidades, não em termos de
tecnologia, mas de inversão agrícola [compra de novos
vinhedos] – estamos comprando mais terras, mais campos. Compramos
mais 1.000 hectares no Valle de Rapel (Pumanque, um terroir), e nele vamos
plantar variedades distintas. Essa nova inversão vai nos permitir
trabalhar diferentes estilos de vinhos. É como uma pintura para
um pintor: mais cores para fazer diferentes tipos de pinturas. Já
fizemos análises de solo, estamos estudando disposições,
e sabemos que trabalharemos Cabernet Sauvignon, Syrah, Cabernet Franc
e, em alguns lugares mais frios, principalmente Sauvignon Blanc. Serão
vinhos acima de R$ 70.
Basilico -
A produção e exportação de vinhos chilenos
cresceram muito na década de 90 (cerca de 400% de aumento em litros
exportados, entre 1992 e 2002, segundo o “Guia de Vinos de Chile”
2003) e os top chilenos estão entre os grandes do mundo. É
possível ver alguma nova tendência no século 21?
Cecilia - A exportação cresceu sobretudo no Brasil, que
é um país muito particular, há um interesse por aprender.
Continuamos em crescimento, o Chile tem muitos nichos e oportunidades
em todo o mundo, mas está cada vez mais se consolidando como um
país vitícola, e conhecendo o mercado, as necessidades,
nossos objetivos. Temos que ser mais adultos e tratar de não ser
somente o país de bom custo-benefício, pois o Chile está
em condições, atualmente, de competir com os grandes vinhos
do mundo. Estamos consolidando a marca Chile como país com potencial
para trabalhar seus vinhos num nível mais alto. O Chile não
é somente bom, bonito e barato. No Chile, todas as vinícolas
acrescentaram recentemente vinhos ícones entre os seus produtos.
Basilico -
Muitas regiões do Chile começam a mostrar potencial para
vinhos de qualidade. O que você acha de apostas como San Antonio-Leyda
[entre Casablanca e Maipo?
Cecilia – Estamos numa etapa de busca que ainda
não terminou, pois há novos terroirs para os vinhedos e
a aposta que parece ter bastante êxito é Leyda. Estamos falando
já de 7, 10 anos atrás, e de 5, 6 vinícolas. Nosso
Floresta Sauvignon Blanc é de Leyda. Nessa região, a fruta
é bastante distinta daquela de Casablanca. O Sauvignon Blanc de
Leyda tem um fundo herbáceo e mais mineral, enquanto que o de Casablanca
é mais frutado, mais típico, mais tropical. Também
em Leyda os vinhos são mais concentrados. San Antonio, perto de
Leyda, foi uma aposta muito audaz e com muito êxito, pois produz
vinhos diferentes, com outra fruta, outro volume, outra tipicidade, e
isto é valioso, pois te permite diferenciar. É uma viticultura
de extremo, há limitações de solo, o que é
muito interessante, e os produtos são de alta qualidade, feitos
de Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Gewürztraminer e Riesling.
| RAIO-X |
Santa Rita,
entre os Melhores do Ano no “Guia de Vinos de Chile”
Categoria
Premium: Santa Rita Floresta Cabernet Sauvignon 2002, Apalta
(87/100)
Categoria Merlot: Santa Rita Medalla Real Reserva
Especial 2004, Maipo (86/100)
Categoria Assemblage: Santa Rita Medalla Real 2004,
Maipo (89/100)
Categoria Assemblage: Santa Rita 120 Reserva Especial
2005, Rapel (85/100)
Categoria Syrah: Santa Rita Floresta 2004, Maipo
(91/100)
Categoria Sauvignon Blanc: Santa Rita Floresta
2005, Leyda (87/100)
Categoria Sauvignon Blanc: Santa Rita Casa Real
2005, Leyda (85/100)
Categoria Chardonnay: Santa Rita Casa Real 2005,
Casablanca (90/100)
Categoria Menção Especial: Santa
Rita Late Harvest 2005, Colchagua (87/100)
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Sobre o guia:
a publicação, na 14ª edição, fez uma
degustação às cegas de 1051 vinhos chilenos e contou
com um painel de 80 degustadores, entre enólogos, jornalistas,
sommeliers e consumidores, que se dedicaram à tarefa durante 10
dias. A pontuação (num total de 100) dada aos vinhos segue
o seguinte critério: 1 taça (de 60 a 69), 2 taças
(de 70 a 80), 3 taças (de 81 a 85) e 4 taças (acima de 86).
60% dos vinhos provados foram classificados com 3 ou 4 taças. Quando
um enólogo prova seu próprio vinho, sua pontuação
não é considerada na média final do vinho em questão.
Sobre a Santa
Rita: é uma das 3 maiores vinícolas do Chile. Fundada
em 1880, cem anos depois foi comprada por empresários estrangeiros.
Seus vinhedos localizam-se nas regiões do Maipo, Casablanca, Leyda,
Rapel (com destaque para os terroirs de Apalta e Pumanque), Maule
e Limarí. O portfólio da casa inclui as linhas 120 (a mais
conhecida, básica, de varietais), Gran Hacienda (também
da linha básica), Reserva (mais concentrados que os das linhas
anteriores e com estágio em madeira), Medalla Real (da gama intermediária,
de vinhas mais antigas e estágio em barricas francesas), e os vinhos
de elite, das linhas Floresta (de vinhedos únicos), Triple C (elaborada
em anos excepcionais) e Casa Real (das parcelas mais antigas, de mais
de 100 anos).
Publicado em:
07/03/07
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