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Comer / Caro Josimar
| De:
Josimar Melo |
Local:
São Paulo |
| Para:
Marcelo Fromer |
Data:
25/01/2001 |
Josimar comenta as 3 regras, aprendidas
em anos de comilança, para enfrentar o
calor à mesa, sem deixar de lado os prazeres
de uma refeição
Caro
Marcelo,
Então o assunto é verão... Um calorão.
Minha experiência de comer e beber, profissionalmente e amadoristicamente,
me ensinou algumas lições sobre como enfrentar os tempos
de calor sem perder o prazer da mesa. Sim, porque muitas vezes certos
erros táticos podem tornar uma refeição um
suplício, se ela não corresponder às circunstâncias
em que ocorre.
Regra número um.
Procuro comer na hora de comer, mesmo estando na praia, mesmo estando
no mar, e mesmo que a hora de comer seja, digamos, às 5 da tarde.
Existe uma tendência a desprezar a refeição propriamente
dita quando se está largado em frente ao mar. Come-se e bebe-se
o tempo todo, e em geral sem muita regra.
É gostoso um
petisco com um drinque à beira-mar.
Principalmente se houver sombra e brisa, uma caipirinha com boa cachaça,
aneizinhos de lula fritos por um minutinho, apenas na justa medida (para
que fiquem tenros, e não endureçam)... O problema é
ficar das 10 da manhã às 5 da tarde intercalando caipirinha
de pinga com cerveja, vodca com gin-tônica, tudo entremeado por
camarão frito, manjubinha empanada, biscoito de polvilho,
muito amendoim...
e qualquer coisa mais que aparecer na hora para acalmar a fome.
Uma sucessão
de aperitivos que no final do dia enevoam a mente, obliteram a vista,
dão cambalhotas no estômago, e trazem a vontade de
se afogar no mar quando finalmente alguém chama para o almoço.
Portanto: os aperitivos
e tira-gostos devem ser o bastante apenas para estimular o paladar. Mas
não para embebedar a galera e tirar o prazer da refeição
que virá.
Regra número dois.
Que refeição será esta? Uma refeição
informal. Seja como ela for, que tenha um espírito jovial.
Pode ser um belo peixe assado com molho de vinho branco (e outra garrafa
à mesa para acompanhar); ou pode ser o prato-feito do quiosque
da praia, o peixinho frito com arroz e feijão, acompanhado
de boa pimenta, além da cachaça ou cerveja. Tanto faz. É
preciso apenas que, em qualquer caso, as circunstâncias tenham a
leveza que a atmosfera do verão e dos amigos sugere.
Claro, não
é preciso comer com o barrigão à mostra, mas
basta uma camiseta para conferir o mínimo necessário de
respeito ao momento da refeição. De resto, usar as mãos
para sugar os sabores recônditos da cabeça do peixe não
é pecado nenhum.
Regra número três.
Quem disse que não dá pra tomar vinho no verão?
Dá sim, mesmo nos dias de maior calor. É claro que certo
senso de medida se impõe. Champagne e espumantes não
fazem mal nunca, em tempo nenhum. Vinho branco bem refrescado não
somente pode ser bebido no calor, como até ajuda a refrescar.
E o tinto?
Claro que depende da comida (nunca irá bem com um peixinho leve
no vapor com legumes), mas pode ser muito adequado mesmo no calor, principalmente
se for dos mais leves (um Valpolicella, um Sancerre), um pouco
resfriado. Sem falar dos rosés. E nos encorpados Cabernet
Sauvignon de Bordeaux ou da Califórnia - bastando para isso ligar
o ar-condicionado.
E
a regra final.
Pelo menos uma vez por mês, se possível uma vez por semana,
esquecer todas as regras e mergulhar pecaminosamente nos prazeres selvagens
ditados pelos instintos.
Pois ficar bêbado
de tanta caipirinha com torresminho na praia (até ficar roxo de
tanto sol); ou esbaldar-se com uma feijoada no sábado (e
passar dormindo todo o resto do fim de semana ensolarado), também
fazem parte dos prazeres, estúpidos que sejam, que o paladar tem
a nos trazer.
Foi isso, Marcelo,
o que aprendi em tantos anos de comilanças...
Abraços,
Josimar
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Josimar
Melo é crítico de gastronomia do jornal "Folha
de S.Paulo", autor do "Guia Josimar Melo" de restaurantes
e do livro "Berinjela se Escreve com J"
e-mail: josimar@basilico.com.br
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