Comer / Caro Josimar


 

De: Josimar Melo Local: São Paulo
Para: Marcelo Fromer Data: 18/12/2000



Josimar faz comentários sobre o personagem
Vincenzo Venitucci, da Casa Venitucci,
mas ressalta que simpatia —ou a falta dela— não é o que está em jogo na avaliação de um restaurante




Marcelo, meu velho,

Não vou falar aqui sobre seus comentários relativos ao "Guia Quatro Rodas 2001". Como tenho, eu mesmo, um guia de restaurantes no mercado, ficaria desconfortável em criticar ou mesmo elogiar uma publicação concorrente.

Poderia, sim, falar sobre o personagem cuja falta você sentiu no guia da editora Abril, o Vincenzo Venitucci, do restaurante Casa Venitucci (que, no meu guia, recebeu 2 estrelas, num máximo possível de 3). Ao contrário de você, que demonstra ter uma afável e amigável relação com ele, minhas memórias são mais amargas, assim como a de muitos dos meus leitores, que simplesmente execram o proprietário da casa.

Minha experiência diz que o senhor Venitucci pode ser bastante inconveniente em suas incursões às mesas, em suas interferências no livre curso das relações íntimas dos comensais, e em seus comentários sobre o céu e a terra (e sobre a mesa e o bar).

Consistência da cozinha
Mas, e daí? Não é isso que vai definir a consistência da cozinha de um estabelecimento, que no meu caso é o que conta para classificar o restaurante. O que está em jogo, ao menos no meu guia, não é a simpatia do proprietário, nem mesmo o conforto da casa: é a cozinha. Mesmo o serviço é secundário para a avaliação, a não ser que interfira na qualidade da comida (por exemplo, se o serviço é distraído a ponto de deixar o prato esfriar antes de trazê-lo à mesa, é lógico que o restaurante perderá pontos).

Tudo isso me lembra outro tipo de situação, envolvendo outros ramos das artes (pois considero que a culinária está entre as artes). Você que é músico, Marcelo, já deve ter conhecido dezenas de artistas que são de um enorme talento em suas áreas, seja música ou pintura ou cinema, mas que são intratáveis pessoalmente. Gente que é neurótica, indelicada, pedante - mas que, com o instrumento ou o pincel na mão, são verdadeiros gênios. E não deixarão de ser gênios, nem de nos dar prazer em usufruir de sua arte, por causa de seu temperamento.

O temperamento desses artistas não piora sua criatividade. Resta-nos rezar para que fiquem calados, ou nos afastar de sua convivência pessoal. Mas não deixar de reconhecer seu talento, e dele tirar o melhor proveito.

Abraços,

Josimar

Josimar Melo é crítico de gastronomia do jornal "Folha de S.Paulo", autor do "Guia Josimar Melo" de restaurantes e do livro "Berinjela se Escreve com J"
e-mail: josimar@basilico.com.br

 
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