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Comer / Caro Josimar
Caro
Marcelo, Entre os episódios gastronômicos, poderia lembrar de alguns. Para começar, o fato de que aquelas férias foram dedicadas, entre outras delícias, à leitura do recém-lançado livro da nossa querida Nina Horta, "Não é Sopa". Adorávamos tanto o livro que freqüentemente alguém pedia silêncio e lia trechos em voz alta. Para deleite geral. Minha filha, Marina, de quem já falamos neste espaço, ouvia a todo momento aquela história de Nina Horta pra cá, Nina Horta pra lá. Acompanhava distraidamente os adultos citando aquela instituição. Meses mais tarde, já em São Paulo, quando um dia dissemos a ela que íamos visitar os pais do pequeno Pedro, dissemos que era o neto da Nina, da Nina Horta. Ao que, depois de um silêncio, ela respondeu, intrigadíssima: "pai, Nina Horta existe?!". Refúgio, na ditadura Sim, existe, não é uma horta, e nem uma instituição embora reúna características de ambos. Durante esse período estive também no mercado da cidade, onde além de comprar frutos do mar y otras cositas más, era possível também tomar boa cachaça local (como a Armazém Vieira, mais conhecida) e comer pastéis e acepipes vários nos restaurantes do vão central do prédio - que, você sabia, é antiqüíssimo, de 1898? A visita mais curiosa,
porém, foi 20 anos atrás. Creio que no verão de
1978. Em As instruções que tínhamos eram claras: não sair de casa, no máximo circular na praia exatamente em frente. Parecia um paraíso, mas não é fácil interromper abruptamente toda sua atividade para ficar forçosamente isolado, sem falar com o mundo exterior nem por telefone, sem contatos... O livro de Dona Benta É verdade que foi nessa época que eu, para vencer o tédio, comecei a exercitar meus gostos culinários, amparado na única literatura existente na casa a este respeito o livro da Dona Benta. Mas era terrível aquele exílio. E por isso cometi um ato de indisciplina: um belo dia resolvi sair do desterro e dar um pulo no centro de Florianópolis. Para ir ao mercado, comprar alguns ingredientes para o jantar. Acho que a polícia não me viu; mas no terminal de ônibus, próximo ao mercado, quase tropecei num dirigente estudantil local, o que não era nada recomendável num período em que a ordem era ficar na moita total (mesmo porque havia policiais infiltrados inclusive entre as lideranças estudantis). Foi um risco mal calculado.
Mas que foi ótimo ver aquelas pilhas de ingredientes frescos
no mercado, isso foi. Um bafejo de "cozinha do mercado" muito
útil para um gourmet incipiente.
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