Nossa cana de açúcar nunca foi tão noticiada
como no mês de março. Um de seus nobres produtos, o
etanol, foi manchete em toda mídia internacional como “a
salvação da lavoura” no mercado de combustíveis.
Enquanto especialistas e jornalistas discutem o futuro do etanol,
reservamos um espaço para falarmos de outro produto
da cana, só que muito mais saboroso: a cachaça
– dona do terceiro lugar entre bebidas mais consumidas no
mundo, com produção anual de 1 bilhão de litros
a cargo de 40 mil produtores. A exportação atinge
12,5 milhões de litros por ano – número que
cresceu 8% de 2005 para 2006.
Breve história
Apesar da rica
presença no Brasil, a cana de açúcar
não é nativa de nossa terra. A planta originária
do sudeste asiático foi trazida pelos portugueses poucos
anos após o descobrimento do país. O destino era
o abastecimento dos engenhos de açúcar, que estavam
sendo construídos para alimentar o mercado europeu.
Durante sua produção, os portugueses aproveitaram
o conhecimento prévio em destilação de bebidas, como
o caso da bagaceira - destilado de uva tradicional lusitano -, e
levaram o mosto da cana ao alambique, que resultou na nossa cachaça.
Produção
Divulgação |
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Nahor
Gustavo Lanza Faria |
Claro que 500
anos fizeram bem à qualidade cachaça, que ganhou a
seu favor tecnologia e expertise na elaboração. Hoje
a cana pode ser encontrada em qualquer lugar do país graças
à melhoria genética e, conseqüentemente, sua
versatilidade de adaptação ao solo. Ao total, são
mais de 2000 tipos de cana, mas, como lembra o Master Distiller
da Sagatiba, Nahor Gustavo Lanza Faria, “não
há diferença de sabor entre as variedades de cana,
como acontece com tipos de uvas no vinho. O mais importante
é o teor de sacarose (açúcar)”.
Depois de 12
a 18 meses de plantio, dependendo do percentual de sacarose,
a cana está pronta para o corte.
Da terra, a
cana é lavada e vai diretamente para a moagem.
A garapa, o famoso caldo de cana típico das feiras livres, é extraída,
filtrada e levada para as dornas de fermentação.
É neste
momento que os componentes
que dão
sabor e aroma à bebida aparecerem. Por isso,
leveduras selecionadas são adicionadas ao caldo que transformarão
a sacarose em álcool, gás carbônico e demais
componentes secundários. Produtores artesanais usam o
chamado “pé-de-cuba” para
a fermentação – nada mais é do que
o aproveitamento de leveduras selvagens do ar preparado com caldo
de cana, adicionado de milho e leveduras.
Quando todo o açúcar presente no caldo for transformado
em álcool, a fermentação é finalizada – após
18 a 24 horas. É hora de decantar as leveduras e levar o
líquido resultante, chamado de vinho, para a destilação.
Alambique ou coluna?
Nas destilarias
artesanais, o vinho é colocado no alambique,
geralmente de cobre – que pode conferir maior qualidade
gustativa à cachaça. Ele será aquecido, evaporado
e resfriado. Do líquido deve se retirar a “cabeça”,
ou seja, 10% do volume inicial da destilação, que
conta com os componentes mais voláteis e alguns tóxicos.
O volume seguinte, que representa 80% da destilação, é conhecido
como “coração”. É considerada
a melhor parte do processo, a cachaça propriamente dita.
Os últimos 10%, chamados de “cauda” ou “água
fraca”, são também descartados. Outra característica
do alambique é a destilação feita
em “batelada”: todo vinho é destilado de uma
vez só na panela.
Já nas destilarias industriais, a destilação
ocorre em coluna de forma contínua. Trata-se
de uma coluna vertical de aço inox dividida em diversas
camadas (chamadas de pratos). Há uma entrada específica
para o vinho e uma saída para a cachaça. Não
há um corte específico de “cabeça,
coração e cauda” como no alambique artesanal.
O controle dos componentes indesejáveis é feito
pela extração do líquido em determinadas
camadas da coluna, até restar a cachaça própria
para consumo.
Em ambos
os casos, destilação em alambique ou coluna,
a cachaça termina com coloração transparente,
pronta para o consumo. Mas claro que possui diferenças.
Segundo Faria, que trabalha tanto com a cachaça de alambique,
a Sagatiba Velha, como a de coluna, a Sagatiba
Pura, garante que “apesar dos métodos serem
diferentes, ambos produzem uma boa cachaça. Enquanto
a coluna permite mais produtividade e padronização,
o alambique prioriza características sensoriais e maior complexidade.
Envelhecimento
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Sagatiba
Velha |
Muitos produtores
separam parte de sua produção para envelhecer. A
cachaça é levada para barris de madeira e ganha novos
aromas, sabor e cor.
As madeiras comumente usadas são amburama, angelim-araroba,
bálsamo, cerejeira, jatobá, jequitibá, jequitibá
rosa, freijó, ipê, ipê amarelo, pereira, peroba
e vinhático (todas nacionais) e carvalho (importada). Os
barris de madeira, devido à sua natureza, permitem uma leve
evaporação da cachaça armazenada. Para amenizar
a perda, os barris costumam ficar em locais úmidos e de baixas
temperaturas. Em troca, ganha com reações químicas
benéficas: a madeira proporciona sabores e aromas
característicos, melhorando o produto final.
Costuma-se deixar a cachaça envelhecer por no mínimo
12 meses. O momento certo de engarrafar está nas mãos
do produtor, que pode tanto aproveitar a grande qualidade da cachaça
para engarrafar em lotes limitados – como é o caso
da Sagatiba Velha -, como também misturar cachaças
de diferentes idades para fazer o blend desejado.
Fontes: Instituto
Brasileiro da Cachaça
(tel. 0xx61/3326-0747)
CARNEIRO, Henrique, Pequena enciclopédia da História
das Drogas e Bebidas, Rio de Janeiro, Editora Campus, 2005
TRINDADE, Alessandra Garcia, Cachaça, um amor brasileiro,
São Paulo, Editora Melhoramentos, 2006
SANTOS, José Ivan e DINHAM, Robert, O essencial em cervejas
e destilados, São Paulo, Editora Senac São Paulo,
2006
Publicado em: 15/5/2007 |