Tecnologia & Enologia: um raio-x da produção de vinhos na Serra Gaúcha @ Basilico - a gastronomia na web
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  • Tecnologia & Enologia: um raio-x da produção de vinhos na Serra Gaúcha

    Postado em May 8th, 2009 admin 1 comment

    Por Rogério Rizzi

    Tive o prazer de visitar as principais regiões vinícolas da Serra Gaúcha, nos arredores dos municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Pinto Bandeira. Além de, é claro, visitar simpáticas vinícolas, o passeio também vale pelo magnífico cenário natural da região, com seus vales, cânions e corredeiras; pelas pequenas estradas bucólicas que passam pelas antigas casas de pedra dos colonos italianos e pela interessante gastronomia, um tanto rústica, mas bem saborosa.

    Nas vinícolas, o que impressiona é o investimento realizado nas últimas décadas, em que muito bem se aproveitou as épocas de dólar barato para a modernização da infra-estrutura de produção de vinhos. Mesmo as pequenas e charmosas vinícolas familiares possuem equipamento de vinificação de primeiro mundo – desengaçadoras e prensas pneumáticas italianas, barricas de carvalho francês ou americano, além das próprias videiras, importadas de centros tecnológicos da Itália e da França.

    Do ponto de vista da gestão dos negócios, as últimas décadas trouxeram às vinícolas da região momentos de muita excitação, divididos em três fases. Na primeira, de 1994 até 1999, dois efeitos – do lado negativo, o dólar barato trouxe uma enxurrada de vinhos importados, criando um cenário sombrio para os então muito rústicos vinhos nacionais. Do lado positivo, o mesmo câmbio permitiu – e obrigou – uma modernização sem precedentes. Um terceiro efeito, também ligado à “abertura dos portos” dos anos 90 foi a rápida e surpreendente elevação no nível de exigência e conhecimento do consumidor brasileiro. Em resumo: quem continuasse fazendo vinho de garrafão estava fadado à morte – até por que o tradicional consumidor de vinho barato já migrou para cerveja há um bom tempo. Para sobreviver e crescer, só com qualidade.serra_gaucha2

    Em uma segunda fase, de 1999 até 2003, nossa moeda se desvalorizou brutalmente, literalmente bloqueando a importação, principalmente nos segmentos de preço baixo ou intermediário, onde competem as vinícolas da região. Conclusão: quem fez os investimentos na hora certa teve a oportunidade de navegar num mercado quase cativo para crescer e consolidar seu market share e, para quem não investiu, ficou difícil competir produzindo vinho ruim.

    Hoje, com o surpreendente vigor do Real, as importações retornaram com força, mas já não pegaram nossos produtores de surpresa. Vacinados nos anos 90,  muitos estão com seu maquinário modernizado, conhecem bem as ferramentas do marketing e têm no comando jovens visionários que buscam com muita energia o vinho ideal, dadas as difíceis condições climáticas da região.

    Impressiona também nas vinícolas gaúchas a nítida evolução quanto ao conhecimento e cuidados enológicos; uma vez que o regime climático úmido de nosso país não ajuda, os enólogos precisam compensar com muito conhecimento. Um reflexo do crescente interesse pela enologia é observado já no vestibular para o curso superior de enologia em Bento Gonçalves. Quinze anos atrás, sobravam vagas. Hoje a relação é da ordem de vinte candidatos por vaga, com jovens de todo o Brasil dando duro para conquistar o seu lugar.

    Os Vinhos

    Uma constatação cada vez mais consolidada – fazemos ótimos espumantes. E alguns bons Chardonnay. Os tintos vêm melhorando, são historicamente irregulares, mas a natureza tem dado uma mãozinha, com uma seqüência de bons anos. O ano de 1999, a primeira grande safra da região em décadas, produziu Cabernet Sauvignons e Merlots respeitáveis. Já 2000 e 2001, safras com excesso de chuvas no verão, geraram vinhos com falta evidente de corpo. As safras de 2002 e 2004 foram excelentes, com condições climáticas muito favoráveis aos tintos; há quem diga que a safra de 2005 foi a melhor da história para os tintos, mas os melhores exemplares da região ainda repousam nas barricas. Esperemos, pois.

    As grandes vinícolas
    adega
    Antes do crescimento explosivo do Vale dos Vinhedos – região próxima à Bento Gonçalves onde estão a maioria das jovens e charmosas vinícolas da região – havia, essencialmente, dois grandes produtores na região: a centenária Salton e a Cooperativa Aurora.

    Salton – a vinícola vem evoluindo de modo a acompanhar a crescente demanda por qualidade, como prova sua linha Volpi, com destaque para o muito agradável Salton Volpi Chardonnay, que ano após ano é nosso melhor exemplar desta uva. A vinícola mudou-se há poucos anos para instalações modernas – e gigantescas – no distrito de Tuiuti.

    Aurora – vinícola que nasceu como uma cooperativa, tornou-se nos anos 80 a maior produtora de vinhos do Brasil, com marcas familiares como Marcus James, Sangue de Boi, Katzwein e Sonnenberg. Também busca capturar uma fatia do novo mercado premium, com suas surpreendentes linhas Aurora Reserva e Millésime. Destas, vale a pena o Cabernet Sauvignon, o Chardonnay e é interessante o Gewürztraminer. Realmente incrível foi o espumante Gran Millésime 1999, corte de Chardonnay e Pinot parreiraNoir, feito praticamente à mão pelo tradicional método champenoise – em que a segunda fermentação ocorre na própria garrafa – em tiragem limitadíssima. Apenas 1080 garrafas foram vendidas somente na própria vinícola. De uma região rica em bons espumantes, este foi, dos que pude degustar, disparado o melhor. Pena que, até onde sei, acabou.

    Chandon – a filial da multinacional francesa LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy), tem instalações de grande porte na região de Garibaldi, produzindo alguns dos melhores espumantes do Brasil e sem dúvida os mais acessíveis, devido à grande penetração de sua estrutura de distribuição. O melhor é o elegante Chandon Excellence, um brut comme il faut, capaz de brigar com gente grande. Também vale a pena o curioso demi-sec Chandon Passion, que segundo os enólogos da Chandon maximiza o potencial do terroir da Serra Gaúcha pelo uso de um assemblage das uvas que melhor se adaptaram à região. Este espumante, que só é produzido no Brasil, tem um magnífico aroma floral, e não é excessivamente doce como outros demi-sec.

    A Chandon vem contribuindo para o aumento de consumo de espumantes através da venda de meias-garrafas e das garrafinhas baby (175ml), que custam por volta de R$ 10 e são ideais para consumo diário e – porque não? – para levar à praia em um isopor cheio de gelo. Nada melhor em um país quente como o nosso.
    serra_gauchaVinícolas de médio porte

    Miolo – com uma infra-estrutura e instalações modernas e elegantes, que muito lembra as vinícolas do Napa Valley, a Miolo é o enfant terrible da região. Criada em 1989, já é uma vinícola de porte, produzindo vinhos com muita qualidade, inovando na tecnologia e no marketing e exportando. Faz um dos melhores tintos do Brasil, o Lote 43, corte de Cabernet Sauvignon e Merlot, somente elaborado nas grandes safras, e cuja versão 1999 só é vendida na vinícola.

    Da Miolo, vale a pena a linha reserva, principalmente os de 1999, 2002 e 2004. O Late Harvest, vinho doce feito com uvas Moscatel no Vale do São Francisco, no nordeste, é agradável, tem deliciosos aromas de frutas doces e maduras e encerra muito bem aquele tradicional almoço de domingo, junto à sobremesa. Uma boa opção aos caros equivalentes importados.

    A Miolo vem fazendo experiências interessantes plantando nas terras da Campanha, mais ao Sul, beirando a fronteira com o Uruguai e nos chamados Campos de Cima da Serra, ao norte do estado. Do ponto de vista da agronomia, estas são possivelmente as mais adequadas do país para as uvas viníferas, por combinar verão menos chuvoso e inverno bem frio. Para que não se passe vontade, vale a pena provar o Miolo-RAR 2004, surpreendente vinho de corte bordalês e ares de novo mundo, vale conferir até como vai envelhecer.

    Casa Valduga – casa com charmosa infra-estrutura recém ampliada, incluindo uma pousada e um restaurante, produz vinhos agradáveis. Destaque para o Chardonnay, o Assemblage e o Cabernet Sauvignon da linha Gran Reserva e para a linha Premium. Desta última, vale a pena provar os Chardonnay. Os vinhos da Valduga costumam ser difíceis de encontrar no mercado, mas podem ser adquiridos com facilidade e bons preços por telefone, diretamente da vinícola.
    As pequenas vinícolas

    Nada melhor que as surpresas apresentadas pelas pequenas vinícolas da região. Bons vinhos, bons preços, e vinícolas equipadíssimas com o que há de tecnologia. Os vinhos destes produtores só devem melhorar ano a ano.

    Vale lembrar que os vinhos das pequenas vinícolas só podem ser comprados diretamente das mesmas, que costumam despachar para todo o Brasil – maiores informações pode ser obtidas nos respectivos sites. Os preços são bastante razoáveis. E é sempre um prazer poder comprar caixas inteiras direto dos produtores, entregues na porta de casa, para beber, guardar e presentear os amigos!

    Marco Luigi – vinícola pequena e bem equipada, faz excelentes tintos, destaque para o Merlot 1999, macio, com os agradáveis aromas da varietal e bom corpo. Certamente pode bater muitos chilenos similares. O espumante Reserva da Família, de 2005, tem sido muito elogiado. Um exemplo de boa visão de marketing é a parceria da Marco Luigi com o restaurante paulista Di Bistrô, onde a Marco Luigi fornece os vinhos da casa. Nada melhor que associar seu nome ao deste bistrô que esbanja charme, além de fornecer um vinho da casa de primeira.

    Pizzato – a menor das vinícolas que visitei, pertence a uma família de jovens e competentes enólogos, que somente vendem os vinhos com o nome Pizzato nas melhores safras. O Merlot 1999, premiadíssimo em todas as degustações onde concorreu, foi o primeiro vinho a ser engarrafado e levar o nome no rótulo. Pena que acabou, afinal a produção é artesanal e limitadíssima. Outro bom destaque é o Cabernet Sauvignon de 2002.

    Dom Laurindo – vinícola familiar que impressiona pela tecnologia de seus equipamentos, pela calorosa recepção familiar e, é claro, pela qualidade de seus vinhos. Tem bons Cabernet e Merlot, e um curioso vinho da uva italiana Ancellotta, envelhecido em carvalho, que lembra os vinhos jovens do Piemonte.

    Don Giovanni – faz um dos melhores espumantes da região, destaques para 1997 e 1999 e um brandy interessante, agradável, envelhecido em carvalho. Além da pequena vinícola, a Don Giovanni tem a pousada mais charmosa da região e um ótimo restaurante, cuja especialidade são deliciosos risotos.


    Rogério Rizzi é enófilo, sócio-diretor de uma empresa de consultoria em estratégia e gestão empresarial, engenheiro eletrônico, mestre em administração de empresas e velejador nas horas vagas.

     

    One response to “Tecnologia & Enologia: um raio-x da produção de vinhos na Serra Gaúcha”

    1. Com muito interes leí reportagem, hoje es uma realidade, Brasil ista en alza, está crecendo muito rápido, diversificando su producción de vinhos, he degustado Cabernet e Merlot de Santa Catarina, certamente sao muito meiores que varios de nostros Reservas, por outra parte es certo que se ha invertido en equipamento, pelo somente sao algunas bodegas, nao es algo generalizado, es importante seguir invirtiendo en Tancagem de aco inox, equipos e maquinarias, para seguir crecendo en cantidade e calidade.

      Estou trabalhando en empresa Limana Poliservicios Ltda, de Jaguarí como assesor técnico en Reforma y Inspecao Técnica de bodegas, para meioramento de procesos de fermentacao y maturacao.

      Tenho 16 anos de experiencia en Projetos de Bodegas de vinhos como Assesor en fabricacao de tancagem y linhas de proceso de vendimia.

      Queremos ajudar a la bodegas a meiorar seus instalacoes.

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