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Rituais de um funeral asiático
Publicado em 16/08/2010 09:44:42

O funeral de Tana ToranjaOutro dia me pus a lembrar de algumas crianças que observei na Ásia, e uma cena com uma delas, em especial, me marcou: um menino brincando no meio de sangue de búfalo recém-abatido, lá em Tana Toraja.

 

Explico: Tana Toraja é o nome de uma região, localizada na parte central da ilha de Sulawesi, na Indonésia, a maior ilha do arquipélago.  Lá eles praticam uma das cerimônias mais famosas de todo o país, entre os meses de julho e outubro – são os funerais de Tana Toraja.

 

Há muitas gerações, os moradores dessa região acreditam que, quando um parente morre, ele vai para o céu, onde será julgado. Mas o sucesso deste julgamento depende do sucesso que ele teve em vida, e isso se mostra através da quantidade de espíritos de animais que levam o morto até as alturas. E para haver tais Porcos sendo abatidos no funeralespíritos, animais precisam ser sacrificados em nome do falecido, culminando nestes grandes festivais religiosos com uma carnificina animal.

 

O mais valioso animal a ser abatido, o rei dos reis, é o mesmo que domina as regiões e planícies verdes de Tana Toraja – o búfalo de água. Custam uma fortuna, e muitas famílias mais pobres, leia-se a maioria, chegam a ir à bancarrota só para conseguir comprar um único búfalo para a cerimônia. Outros animais que entram na cerimônia são os porcos e as galinhas, em ordem decrescente de valor.

 

Na cidade de Rantepao, a maior de toda a região, existe um grande mercado de animais para serem vendidos com esta finalidade.  Lá, porcos ficam amarrados por dias, em macas de bambu, com cordas super apertadas por todo o seu corpo, e já prontos para serem levados para o abate. Grunhem sem parar, e o som emitido por eles mais parece ao de um campo de Bois sendo abatidostortura. É bem triste de se ver, pois se estes mesmos porcos não têm escapatória, que ao menos pudessem passar seus últimos dias de vida com um pouco menos de dor e de sofrimento. Entretanto, para os moradores locais, tão habituados com tudo isso, eles não passam de mais um pouco de proteína.

 

Apesar do meu repúdio ao sofrimento animal, uma vez que estava justamente nesta região, na mesma época dos tão famosos funerais, resolvi encarar a matança e tomar meu “banho de cultura”. E lá fui pra festa, devidamente acompanhada por um guia local. Sem um guia, você turista não chega a lugar algum, pois os funerais acontecem em vilarejos afastados, cada um em um determinado horário, e você precisa ter algum contato pra ser “convidado” pra assistir.

 

Menino segura pedaço de carne que lhe foi distribuídoCom um presente debaixo do braço, para ser entregue à família do homenageado, cheguei à cerimônia e me acomodei em volta da grande arena. A festa que arrumei era uma das medianas, pois dependendo do poder aquisitivo da família, o funeral pode durar de poucas horas ou se estender por dias, com danças, muita comilança e muito abate.

 

Durante o funeral foram servidos diversos pratos, entre eles carne de búfalo no molho preto, conhecido como pamerasan, carne de porco com vegetais dentro do bambu e assado sobre carvão, o pa´piong, e muito balok, uma espécie de álcool fermentado extraído da palmeira, além de bolinhos feitos com farinha de arroz e arroz glutinoso. Pra finalizar, muito café local, aliás, de boa qualidade.
Os únicos animais abatidos em frente ao grande público são os búfalos. Os porcos e as galinhas são primeiramente desfilados na arena e depois levados para os fundos.

 

O encarregado de matar o búfalo (normalmente o filho do falecido ou algum outro parente próximo) conduz o animal para o centro da arena e lá,Os convidados num golpe certeiro, usando um imenso facão, produz um corte na jugular. O búfalo, que antes parecia calmo, agora começa a se movimentar, como estivesse dançando, e não é raro ele levar um tapa no traseiro, para a alegria dos que assistem, que “morrem de rir” ao vê-lo deslizar sobre o próprio sangue. Assim que todos os búfalos ou animais tiverem sido abatidos, eles são esquartejados e a carne distribuída entre as famílias da comunidade. Se isto não for feito, a família do morto fica mal vista entre os locais. Não existe opção, mesmo que esta cerimônia leve a família à falência.

 

Quando tudo terminou eu quis ir embora, e já não conseguia mais aproveitar os quitutes gentilmente oferecidos pela viúva e dona da festa. E foi assim que me deparei com o menino que mencionei, brincando no meio de búfalos mortos e do seu sangue. Isto só me mostrou que, de fato, a morte é vista de uma maneira diferente em cada cultura e, para o povo desta região, ela não passa de mais um aspecto da vida. Para um estrangeiro, pode ser um tanto desconfortável visitar um local focando nos aspectos culturais da morte, mas a morbidez depende mesmo dos olhos de quem a vê.

 

Segue abaixo uma receita típica indonesiana para acalmar os estômagos mais embrulhados:

 

Bandrek (chá de gengibre)

4 porções

 

Ingredientes:

6 xícaras de água
Um pedaço de gengibre fresco, com cerca de 3 cm
Um pau de canela, com cerca de 5 cm
2 colheres de chá de açúcar de palmeira (ou use o açúcar comum)
4 colheres de sopa de coco, ralado
1 colher de chá de pimenta do reino preta

 

Modo de preparo:

1.    Coloque todos os ingredientes em uma panela, com exceção do açúcar e do coco ralado, e leve para ferver por cerca de 3 minutos. Adicione o açúcar e ferva por mais 1 minuto.

2.    Distribua o coco ralado entre 4 copos e despeje por cima o chá quente. Sirva imediatamente.

 

 

 

Barbara Kerr


 

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